O ator Marco Nanini, de 78 anos, foi alvo de vaias e protestos durante a apresentação da peça Fim de Partida, realizada na noite deste domingo (18), no Teatro Simões Lopes Neto, em Porto Alegre. Segundo relatos de espectadores repercutidos pelo jornal Zero Hora, o artista teria exigido a retirada das intérpretes de Língua Brasileira de Sinais (Libras) após reclamar que a iluminação utilizada pelas profissionais estava atrapalhando sua atuação no palco.
O episódio ocorreu cerca de dez minutos após o início do espetáculo, apresentado no Multipalco Eva Sopher. De acordo com informações divulgadas pelo jornal Zero Hora, Nanini interrompeu a encenação alegando que um refletor e a sombra projetada por uma das intérpretes prejudicavam sua performance.
Após a interrupção, a produção tentou solucionar o problema técnico, mas a apresentação foi retomada sem as profissionais responsáveis pela interpretação em Libras. Parte da cortina também foi fechada para reduzir a interferência da iluminação.
A decisão provocou indignação entre os espectadores, que reagiram com vaias e gritos pedindo respeito. Pessoas surdas que estavam na plateia deixaram o teatro, acompanhadas por espectadores ouvintes em solidariedade.
Público surdo denuncia desrespeito
Entre os espectadores que protestaram estava o artista surdo Lucas Bourscheid, de 32 anos. Em entrevista à Zero Hora, ele afirmou que a decisão de retirar as intérpretes partiu do próprio ator, e não da equipe técnica.
“Faltou empatia, faltou respeito com a comunidade surda, e isso é inaceitável”, declarou.
Lucas também criticou o fato de a apresentação ter continuado sem interpretação em Libras, impedindo que pessoas surdas acompanhassem o restante da encenação.
Outras três pessoas com deficiência auditiva relataram ao jornal que se sentiram desrespeitadas pelo ocorrido.
A sessão havia sido anunciada com recursos de acessibilidade, incluindo interpretação em Libras e audiodescrição, conforme informações divulgadas anteriormente pela Secretaria da Cultura do Rio Grande do Sul.
Produtora assume responsabilidade e pede desculpas
Após a repercussão, a Pequena Central de Produções Artísticas, responsável pela montagem, divulgou uma nota oficial reconhecendo falhas na organização do espetáculo.
Segundo a empresa, houve um problema de compatibilidade entre o posicionamento da intérprete de Libras e a iluminação cênica. A produção afirmou que a equipe tentou encontrar uma solução durante a interrupção, mas não conseguiu resolver a situação.
“Reconhecemos que a produção falhou ao não verificar e garantir previamente as condições técnicas necessárias à realização da sessão com interpretação em Libras neste teatro. Assumimos inteira responsabilidade por essa falha e por suas consequências”, informou a produtora.
A empresa também pediu desculpas ao público surdo, às intérpretes e às demais pessoas envolvidas, ressaltando que a acessibilidade deve ser considerada desde o planejamento das apresentações.
A nota não confirmou que Marco Nanini tenha solicitado pessoalmente a retirada das profissionais, como afirmaram espectadores.
Fundação Theatro São Pedro lamenta episódio
A Fundação Theatro São Pedro, responsável pelo complexo cultural, também se manifestou oficialmente.
Em comunicado, a instituição informou que sua equipe tentou mediar o problema e avaliar alternativas técnicas para garantir a continuidade do espetáculo sem prejudicar a acessibilidade.
Apesar das tentativas, não foi encontrada uma solução que atendesse às necessidades da apresentação e do público surdo.
A Fundação lamentou os prejuízos causados e reafirmou seu compromisso com a inclusão e o acesso à cultura.
Até a publicação das reportagens consultadas, Marco Nanini não havia se pronunciado individualmente sobre as acusações.
Peça é baseada em clássico de Samuel Beckett
Fim de Partida é uma montagem do texto do dramaturgo irlandês Samuel Beckett, escrita na década de 1950. A produção brasileira tem direção de Rodrigo Portella e reúne Marco Nanini, Guilherme Weber, Helena Ignez e Ary França.
A história acompanha personagens que vivem em um ambiente pós-apocalíptico, marcado por relações de dependência, conflitos de poder e dificuldades de convivência.
As apresentações em Porto Alegre estavam programadas para os dias 17 e 18 de outubro, no Teatro Simões Lopes Neto, como parte da programação cultural do Multipalco Eva Sopher.

