O ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal), enviou ao colega de Corte, ministro Alexandre de Moraes, uma solicitação para que o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) passe a ser investigado no inquérito das fake news.
O processo corre sob sigilo no Supremo, mas o pedido de Gilmar foi confirmado. A solicitação se deu depois que Zema compartilhou um vídeo mostrando fantoches de Gilmar e do ministro Dias Toffoli discutindo sobre o escândalo do Banco Master.
No vídeo, o fantoche representando Toffoli fala com o de Gilmar sobre suposta aprovação de quebra de sigilo bancário, fiscal e telefônico pela CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Crime, que investiga o crime organizado no país.
“A CPI do Crime Organizado aprovou, por unanimidade, a quebra do meu sigilo”, diz o fantoche em ligação.
Em resposta, o boneco de Gilmar responde: “Relaxa, eu anulo”, pedindo, em contrapartida, uma “cortesia” do Tayayá Resort, ligado à família de Toffoli, para dar uma “jogadinha” no final de semana.
Relação com o caso Master
O vídeo faz referência à decisão de Gilmar que anulou a aprovação de requerimento pela CPI do Crime. A comissão aprovou a quebra de sigilo da Maridt Participações, empresa pela qual o ministro Dias Toffoli recebeu pagamentos de fundo ligado ao Banco Master.
A Maridt Participações S.A, pertence a Igor Luiz Pires Toffoli e José Eugênio Dias Toffoli, irmãos de Toffoli. Dados da Receita Federal apontam que a empresa já esteve no quadro de sócios do Tayayá Resort — que é frequentado pelo ministro e seus familiares.
A ligação com o caso Master se dá porque a empresa vendeu uma participação no resort ao fundo de investimentos Arleen, ligado a Daniel Vorcaro, então dono do Master.
O fundo em questão é administrado pela Reag, gestora de investimentos independente, que também teria investido R$ 16,3 milhões na DGEP Empreendimentos, que já teve no quadro societário Mario Umberto Degani, primo de Toffoli.
Em 2025, a Reag foi alvo de investigação por suspeitas de ligação com esquemas de lavagem de dinheiro apurados na operação Carbono Oculto. A operação investiga a relação entre o setor de combustíveis, a facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) e empresas financeiras.
No vídeo publicado por Zema, o fantoche que representa Gilmar ainda faz referência à ligação da Maridt (empresa dos familiares de Toffoli) com a Reag (alvo de operação que investiga o PCC): “Estou vendo aqui na decisão possível vínculo da empresa com o Master, movimentações financeiras suspeitas, indícios de lavagem de recursos associados ao PCC”.
Inquérito das fake news
Relatado por Alexandre de Moraes, o inquérito das fake news foi aberto em 2019 por decisão de Dias Toffoli, que, à época, era presidente do STF.
O objetivo oficial do inquérito era apurar fatos sobre notícias falsas e ameaças à Corte, ministros e seus familiares veiculadas na internet.
O inquérito colocou Moraes em um embate direto com o então presidente Jair Bolsonaro (PL) e seus aliados. Em 2021, o ministro aceitou notícia-crime para incluir o então chefe do Executivo no inquérito por suas declarações contra o sistema eleitoral.
O processo investiga a existência de um suposto grupo criminoso organizado para disseminar notícias falsas contra a Corte e outras instituições democráticas.
Até hoje, o inquérito corre sob sigilo e não tem prazo para ser encerrado.
A solicitação enviada por Gilmar para que Zema seja incluída no inquérito foi enviada a Moraes. Agora, o ministro aguarda manifestação da PGR (Procuradoria-Geral da República) sobre o assunto.
Reação de Zema
Em entrevista, Zema afirmou que recebeu com “surpresa e decepção” a notícia quanto ao pedido de Gilmar para incluí-lo no inquérito.
“Eu vejo com uma certa surpresa e também com decepção, mas confirma essa crença minha que nós temos hoje ministros que querem calar qualquer um que discordem dos mesmos. O que eu fiz foi usar uma alegoria, fantoche, caricatura, para mostrar tudo de podre que está acontecendo lá”, disse Zema, que classificou a postura do magistrado como antidemocrática.
Zema deixou o governo de Minas Gerais para concorrer à Presidência nas eleições de outubro deste ano. Desde então, tem assumido uma postura crítica aos ministros do Supremo.
Ao defender o ex-presidente Jair Bolsonaro, o ex-governador já disse que, pelo que sabe, o ex-chefe do Executivo “não tem nenhum contrato de milhões como o ministro Alexandre de Moraes e o ministro Toffoli”.
Em mais de uma ocasião, Zema teceu críticas ao tribunal. Tem dito que os magistrados vivem a “farra dos intocáveis”. Também já defendeu o afastamento e prisão de Toffoli e Moraes.
Em seu plano de governo ao Palácio do Planalto, Zema confirmou que o Supremo será um dos seus focos caso seja eleito.
No lançamento do plano, o ex-governador afirmou que sua primeira ação como presidente será “propor ao Congresso um novo Supremo, em que seus membros tomem conta dos seus atos e que parentes de ministros não possam ter negócios jurídicos”. Ele também já disse que pretende acabar com as decisões monocráticas (tomadas de forma individual).
*Com informações de CNN

