Por Jairton Medeiros
A aquisição de insumos ginecológicos pela Prefeitura de Galinhos ao longo de 2025 acendeu um alerta sobre possível excesso e falhas no planejamento da saúde pública municipal. Dados do Portal da Transparência mostram que foram compradas 7.170 unidades de espéculo vaginal, material utilizado na realização do exame de Papanicolau.
O volume chama atenção quando comparado ao perfil populacional da cidade. Segundo o Censo 2022, o município possui 1.034 mulheres, o que representa uma média aproximada de 6,9 unidades por mulher em apenas um ano. A proporção levanta questionamentos sobre a real necessidade da aquisição e o destino dos materiais.
Outro ponto que reforça as dúvidas é a concentração das compras no fim do período. Somente em dezembro de 2025, foram adquiridas 3.770 unidades, mais da metade de todo o volume anual. Já no início de 2026, uma nova compra de 700 unidades foi registrada, ampliando ainda mais o estoque de insumos.
De acordo com os registros públicos, o fornecimento foi realizado pela empresa Nacional Store, sediada em Natal, responsável pelo contrato firmado com o município. Não há, no entanto, detalhamento disponível sobre o consumo mensal dos materiais, o volume efetivamente utilizado nas unidades de saúde ou o controle de estoque.
A sequência de aquisições em curto intervalo de tempo levanta questionamentos sobre a gestão dos recursos públicos e o planejamento da rede municipal de saúde. Em cidades de pequeno porte, a demanda por exames preventivos tende a ser relativamente estável, o que, em tese, permitiria maior previsibilidade nas compras e evitaria excessos.
O exame de Papanicolau não é realizado com alta frequência por paciente, o que reforça a necessidade de critérios técnicos nas aquisições. De acordo com diretrizes do Ministério da Saúde e Instituto Nacional de Câncer (INCA), o exame deve ser feito anualmente e, após dois resultados normais consecutivos, pode passar a ser realizado a cada três anos. A recomendação abrange principalmente mulheres entre 25 e 64 anos que já iniciaram a vida sexual.
O Ministério da Saúde também prevê que o exame pode ser suspenso após os 64 anos, mediante avaliação de um ginecologista, desde que a paciente tenha histórico de resultados normais, o que reduz ainda mais a necessidade de uso contínuo do insumo em larga escala.

