O senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) teve viagens de jatinho pela Europa pagas por uma empresa ligada ao advogado Willer Tomaz, investigado por suspeita de envolvimento no esquema de fraudes contra aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). As informações foram reveladas pela Folha de S.Paulo, em reportagem publicada nesta quinta-feira (15), com base em documentos obtidos pela Polícia Federal (PF).
Segundo a Folha, ao menos três trechos de viagens realizadas em 2025, entre Portugal e França, foram contratados pela Cathedral Holdings S.A., empresa registrada na Ilha da Madeira, em Portugal. A holding é a única acionista da Rede Loto, companhia de apostas online que tem Willer Tomaz e Jorge Barbosa Dias entre seus sócios.
Os registros foram encontrados no computador de Willer durante as investigações da Polícia Federal e incluem comprovantes de contratação de voos executivos. O advogado é investigado por suspeita de participação na movimentação de recursos relacionados ao esquema de descontos indevidos em benefícios previdenciários.
A existência dos pagamentos, entretanto, não comprova que os valores utilizados nas viagens tenham origem nas fraudes investigadas.
Viagens incluíram destinos na França e em Portugal
De acordo com os documentos citados pela Folha de S.Paulo, Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz viajaram juntos em 11 de abril de 2025, em um voo de Lisboa, capital de Portugal, para Nice, no sul da França. O deslocamento foi contratado por meio da empresa de aviação executiva NetJets.
Em 23 de maio do mesmo ano, os dois realizaram outra viagem, desta vez acompanhados de familiares. O grupo partiu de Cascais, município próximo a Lisboa, com destino a Nice, antes de seguir para Paris em outro voo.
Os três trechos identificados foram contratados em nome da Cathedral Holdings, empresa que controla a Rede Loto.
A companhia de apostas recebeu autorização para operar no Brasil em maio de 2023, por meio da Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj), tornando-se a primeira empresa do setor licenciada pela autarquia fluminense.
Empresa de apostas foi autorizada pela Loterj
A reportagem da Folha também detalha a relação da Rede Loto com a Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj). A empresa apresentou sua documentação para obter autorização de funcionamento em 27 de abril de 2023, no mesmo dia em que a autarquia publicou o edital de licenciamento em um jornal de grande circulação.
A autorização foi concedida em 25 de maio daquele ano, por despacho assinado por Hazenclever Cançado, então presidente da Loterj.
Segundo pessoas ouvidas pela Folha, Cançado chegou ao comando da autarquia por indicação de Flávio Bolsonaro. A rapidez do processo provocou questionamentos de outra empresa interessada, a Modelo Informática, que apresentou um pedido de impugnação.
A Loterj afirmou que a Rede Loto cumpriu os requisitos previstos no edital e que não havia impedimentos legais para a concessão da autorização.
Willer Tomaz é investigado pela Polícia Federal
Willer Tomaz é investigado no âmbito da Operação Sem Desconto, que apura desvios de recursos de aposentados e pensionistas do INSS.
Segundo a Folha, a Polícia Federal investiga a participação do advogado na movimentação de recursos suspeitos, incluindo depósitos de aproximadamente R$ 325 milhões na plataforma de apostas Blaze.
Os investigadores buscam esclarecer a origem dos valores e a possível utilização de empresas do setor de apostas na movimentação do dinheiro.
Outra empresa ligada a Willer, a RioPag, também mantém relações comerciais com a Loterj. Conforme documentos analisados pela Folha, o advogado assumiu o controle da instituição de pagamentos em 2024 por meio da Embrasis, empresa da qual recebeu cerca de R$ 67,8 milhões em dividendos naquele ano.
Flávio Bolsonaro e advogado negam irregularidades
Procurado pela Folha de S.Paulo, Flávio Bolsonaro afirmou que mantém uma relação de amizade com Willer Tomaz e negou envolvimento em irregularidades relacionadas às viagens ou aos negócios do empresário.
O senador também rejeitou qualquer associação entre sua proximidade pessoal com o advogado e as investigações conduzidas pela Polícia Federal.
A defesa de Willer, por sua vez, sustentou que os deslocamentos foram viagens de lazer entre amigos e familiares, custeadas pessoalmente pelo empresário, sem qualquer contrapartida.
A versão apresentada pela defesa contrasta com os registros obtidos pela PF, que identificaram a Cathedral Holdings como responsável pela contratação dos voos.
Até o momento, os documentos divulgados não demonstram que Flávio Bolsonaro tenha participado das fraudes contra beneficiários do INSS. A investigação aponta o custeio das viagens por uma empresa ligada ao advogado investigado, enquanto os envolvidos negam irregularidades.

