Últimos dias de setembro e primeiros dias de outubro. Pouco menos de uma semana para o domingo do primeiro turno das eleições, momento-chave da travessia, a qual pode se revelar impiedosa.
No plano nacional, a eleição presidencial desenha contornos de sentença ainda não lavrada. É o que indicam as pesquisas. Flávio Bolsonaro e Lula olham os ponteiros dos relógio. O tempo urge.
E cobra caro.
No tabuleiro do Rio Grande do Norte, o jogo também permanece aberto, com os dados rolando à mesa. A pré-campanha, a campanha e os primeiros passos do horário eleitoral fizeram oscilar as peças. No entanto, ao longo de todo o percurso, a disputa afunilou e consolidou a competitividade no xadrez potiguar. Allyson Bezerra, Cadu e Álvaro Dias travam um embate surdo, de movimentos calculados e apelos variados.
Iniciada para valer no calor de um eleitorado ainda disperso, a campanha pouco mobilizou a alma das ruas. Sobrou exposição contínua nos meios digitais e eletrônicos e faltou debate denso.
Sobraram entrevistas protocolares e carreatas pelo interior adentro, poeira e buzina. Os velhos e minguados comícios confirmaram o que já se sabia: são páginas viradas de um fiasco anunciado.
Apesar do tom alarmista da mídia e da costumeira grita dos políticos sobre a “frieza” do eleitorado, vejo a cena sob outro prisma. Democracia não se faz com transe, mas com exercício cotidiano. Se se torna rotineira, dispensa manuais e dispensadores de entusiasmo. As rotinas são, por natureza, frias, mecânicas e, quase sempre, enfadonhas. É o estágio a que chegamos. Claro, há de se convir: nossos homens públicos, insípidos e inodoros, não ajudam a acender paixões.
Mas este é outro rosário.
Nas democracias maduras, a campanha pela TV e redes cumpre um rito curto e preciso: primeiro, informa sobre o pleito e traz a agenda ao alcance do cidadão; segundo, afirma os perfis e fixa as prioridades administrativas dos postulantes. Deveríamos estar vivendo a maturidade desse segundo momento, mas, infelizmente, empacamos no primeiro. Os candidatos ainda transitam de perfil embaçado, indefinido ou inexistente. Sobra correria e escasseia a ideia. Briga-se muito e o debate é quase nenhum. Faltam propostas de fôlego; sobram caneladas de bastidor. E denúncias, denúncias e denúncias.
A propaganda eleitoral deveria ter sido a vitrine do conteúdo. Restam poucos dias e, claro, eles não foram e não serão suficientes para costurar algo ao mesmo tempo exequível e substancial. O momento é de decisão porque é agora que a massa dos indecisos e instáveis começa a prestar atenção. É a hora em que o eleitor busca convencimento, traço vital numa cultura política de fundo messiânico como a nossa, em que a urna é tratada como um altar de renovação de esperanças.
O eleitorado é volátil por excelência. Na disputa pelo governo do estado, as tendências recusam a cristalização precoce. Quando um pleito se projeta equilibrado e nervoso entre Allyson, Cadu e Álvaro, entra-se na hora da verdade. Qualquer agenda substancial perdeu o monopólio da atenção. O cidadão agora repara nos atributos pessoais, na firmeza do gesto e na coerência da trajetória. A imprensa e os canais digitais se tornaram o balcão no qual o eleitor vai buscar o contraponto. A partir daqui o interesse cresce exponencialmente.
Para os candidatos, abre-se a janela final. Com ela, multiplicam-se as oportunidades e, vertiginosamente, os riscos.
Historiador
