Ana Beatryz Fernandes
Repórter
Por muito tempo, abrir uma empresa significava alugar um ponto comercial, investir em estoque e conquistar clientes nas ruas. Hoje, em muitos casos, basta um smartphone, conexão à internet e uma audiência disposta a acompanhar a rotina de alguém nas redes sociais.
Em um cenário onde filtros remodelam rostos em segundos, avatares digitais reproduzem expressões humanas e ferramentas de inteligência artificial criam imagens, vídeos e campanhas publicitárias em poucos cliques, surge uma nova geração de empreendedores. Eles vendem influência, estilo de vida, experiências, conhecimento e, muitas vezes, a própria imagem.
A chamada economia dos criadores de conteúdo, ou creator economy, deixou de ser apenas uma tendência para se tornar um mercado bilionário em expansão. O fenômeno também já impacta o Rio Grande do Norte, onde influenciadores, pequenos negócios e criadores digitais transformam perfis em redes sociais em verdadeiras microempresas digitais.

Mas, junto com as oportunidades econômicas, cresce uma discussão que ultrapassa o marketing e alcança aspectos psicológicos, sociais e culturais: o que acontece quando a aparência deixa de ser apenas uma representação e passa a ser constantemente editada, aperfeiçoada e reconstruída por algoritmos?
A empresa sou eu
A transformação é visível nos números.
Segundo o estudo Panorama da Ascensão dos Influenciadores e o seu Impacto no Marketing de Influência, elaborado pelo Sebrae em 2024 com base em levantamentos de instituições como Statista, Opinion Box, Forbes e Meltwater, o Brasil reúne cerca de 13 milhões de criadores de conteúdo no Instagram, consolidando-se como o segundo maior mercado de influenciadores digitais do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. O levantamento também evidencia a força desse segmento na economia digital: 61% dos consumidores brasileiros afirmam já ter realizado compras após recomendações vistas nas redes sociais, enquanto 57% dizem confiar em influenciadores na hora de tomar decisões de consumo.
A lógica é simples: em um ambiente saturado por publicidade tradicional, a recomendação de uma pessoa em quem o público confia tornou-se um ativo econômico valioso.
Foi exatamente esse movimento que transformou a rotina da influenciadora potiguar Alana Fernandes. A trajetória começou em 2017, quando ela decidiu compartilhar experiências da gravidez da primeira filha. Sem planejamento empresarial ou estratégia de monetização, o conteúdo tinha caráter pessoal. Com o passar dos anos, novas fases da vida foram sendo incorporadas ao perfil: decoração, reforma da casa, organização, maternidade, saúde, academia e estilo de vida. O público cresceu junto.
“O que começou como um hobby foi criando conexões genuínas. Vieram os primeiros recebidos, convites de lojas, restaurantes e parcerias locais. Aos poucos, transformei a criação de conteúdo em uma atividade profissional”, relata.

O processo, segundo ela, não foi imediato nem linear. A profissionalização aconteceu à medida que a audiência passou a responder de forma mais consistente ao conteúdo produzido.
“Primeiro vieram os recebidos, depois os convites para lojas, restaurantes e eventos. Eu percebi que aquilo que eu compartilhava tinha valor porque existia uma relação de confiança com quem me acompanhava. Hoje tenho parcerias fixas e uma relação profissional consolidada com diversas empresas. Mas isso levou anos. Não existe crescimento instantâneo”, disse.

Alana também chama atenção para um equívoco comum no mercado digital: a ideia de que o sucesso depende apenas de números.
“Muita gente acha que basta ter seguidores para ganhar dinheiro na internet, mas não é assim. O que realmente importa é a confiança. Existem perfis menores que geram mais resultado do que perfis grandes porque têm uma audiência muito engajada. O seguidor precisa acreditar no que você fala”, explica.
Hoje, Alana mantém contratos fixos com empresas dos segmentos de alimentação, decoração, maternidade e serviços, além de ter sido eleita Melhor Digital Influencer de Parnamirim em quatro edições: 2022, 2023, 2024 e 2026.
A influenciadora destaca ainda que seu conteúdo evoluiu junto com sua vida pessoal, o que reforça a relação de proximidade com o público: “Quando digo que compartilho uma vida real, é porque meu conteúdo acompanha exatamente as fases que estou vivendo. Falo sobre maternidade, mas também sobre casa, rotina, saúde, academia, moda e empreendedorismo. Essa diversidade faz com que as pessoas se identifiquem comigo de forma verdadeira. ”
Sua história reflete uma mudança estrutural na economia digital: o criador de conteúdo deixou de ser apenas um usuário das redes sociais para se tornar uma marca.
Influenciadores viram microempresas
A transformação dos criadores em empreendedores tem sido acelerada pela inteligência artificial.

Segundo análise publicada pelo Propmark sobre a evolução da creator economy, as ferramentas de IA estão permitindo que influenciadores atuem como verdadeiras microempresas digitais, automatizando tarefas que antes exigiam equipes inteiras de produção, design, atendimento e marketing.
Na prática, um único criador consegue produzir imagens, vídeos, roteiros, campanhas, peças gráficas e até estratégias de conteúdo utilizando ferramentas que reduzem custos e aumentam a produtividade.
Esse movimento aparece também em pesquisas sobre o uso da inteligência artificial no marketing.
O levantamento nacional realizado pelo IAB Brasil em parceria com a Nielsen em 2025, mostra que quatro em cada cinco empresas já utilizam IA em estratégias de marketing. Entre os principais benefícios apontados estão aumento da eficiência operacional (80%), maior velocidade de execução (68%) e suporte à tomada de decisões (49%). A criação de conteúdo aparece como a principal aplicação da tecnologia, utilizada por 71% das empresas entrevistadas.

Para Carlos von Sohsten, gestor do IALab do Sebrae-RN, a inteligência artificial está diminuindo barreiras históricas para quem deseja empreender no ambiente digital.
“A IA reduz custos de produção, aumenta a frequência de publicação e permite uma presença visual mais profissional. Um criador potiguar pode competir nacionalmente utilizando ferramentas que ampliam sua capacidade operacional”, explica.
Segundo ele, a imagem digital deixou de ser apenas um elemento estético para se tornar um ativo econômico: “Imagem, reputação e presença digital viraram ativos econômicos. A tecnologia não substitui autoridade, mas amplia a capacidade de gerar negócios. ”
O especialista acrescenta que a mudança se assemelha a uma nova fase da internet, em que ferramentas antes restritas a grandes empresas agora estão disponíveis para pequenos empreendedores.

“Hoje é possível produzir campanhas, vídeos e materiais com qualidade profissional sem grandes estruturas. Mas isso não elimina a importância da identidade e da estratégia. Pelo contrário, aumenta a necessidade de diferenciação”, relata.
O algoritmo como novo mercado
Se antes a localização física determinava boa parte das oportunidades de um negócio, hoje a visibilidade é decidida pelos algoritmos. Para pequenos empreendedores criativos, isso representa tanto uma oportunidade quanto um desafio.
Jéssica Matos, analista técnica do Sebrae-RN, observa que as redes sociais passaram a integrar o próprio modelo de negócio das empresas. “As redes deixaram de ser apenas uma vitrine. Hoje elas fazem parte da estratégia de relacionamento e da construção da identidade das marcas “, explica.
Ela reforça que o empreendedorismo digital exige novas competências: “Hoje não basta apenas produzir conteúdo. O empreendedor precisa entender posicionamento, narrativa, dados e comportamento do público. Ele precisa construir comunidade, não apenas audiência. ”

“Um pequeno negócio de moda, gastronomia, artesanato ou beleza no RN pode alcançar novos públicos sem depender de grandes verbas publicitárias. Mas isso exige planejamento, conhecimento de métricas e entendimento profundo da audiência”, conta.
Nesse contexto, os empreendedores passaram a investir não apenas em produtos e serviços, mas também em narrativa, posicionamento e construção de comunidade. Mas, ao mesmo tempo em que cria oportunidades econômicas, o ambiente digital também produz novas pressões.
Nas redes sociais, filtros avançados e ferramentas de edição conseguem afinar rostos, modificar corpos, alterar tons de pele e criar versões altamente idealizadas da aparência humana.
É nesse contexto que surge o conceito de estética pós-humana, uma tendência visual marcada pela mistura entre características humanas e elementos digitais, frequentemente impulsionada por inteligência artificial.
A influenciadora natalense Kaline Cilene percebe diariamente os efeitos dessa lógica. “As pessoas buscam a perfeição o tempo todo. Esse padrão foi estabelecido e muita gente cai nessa armadilha. O problema é que isso não afeta só quem produz conteúdo, mas quem consome também”, relata.

Ela explica que o consumo constante de imagens editadas altera a percepção da realidade: “Muitas pessoas começam a enxergar defeitos que antes nem percebiam. Criam comparações com padrões que não existem na vida real. Isso gera insegurança e uma pressão constante por uma perfeição impossível.”
A dinâmica é reforçada pelo próprio funcionamento das plataformas digitais. “Existe uma pressão implícita para manter uma imagem aperfeiçoada. O conteúdo mais visualmente atraente costuma receber mais engajamento”, conta.
Entretanto, ela acredita que a autenticidade continua sendo o principal diferencial competitivo: “A estética pode atrair, mas é a autenticidade que conecta e converte.”
Quando a vida vira conteúdo

A monetização da rotina é uma das características mais marcantes da nova economia digital. Mas ela também levanta questionamentos sobre privacidade, saúde mental e limites da exposição.
A influenciadora e professora natalense Cléa Rocha conhece bem essa realidade. Mãe de três filhos, ela produz conteúdo sobre maternidade e cotidiano familiar. Ao longo dos anos, percebeu que a internet mudou.
“O público gosta de acompanhar a vida real. Quanto mais real, mais as pessoas permanecem assistindo”, relata.
Para ela, essa proximidade com o público é ao mesmo tempo um ativo e um desafio. “As pessoas querem ver os bastidores, o café derramado, os erros, as conquistas. Isso gera identificação, mas também cria uma sensação de intimidade que faz muita gente acreditar que pode opinar sobre tudo da sua vida”, afirma a influenciadora.
Recentemente, após publicar uma campanha envolvendo a filha para uma marca parceira, Cléa percebeu uma movimentação incomum de perfis masculinos interagindo com o conteúdo.
Cléa afirma que a exposição exige limites claros: “Você precisa mostrar parte da sua vida para criar conexão, mas também precisa proteger o que é íntimo. Esse equilíbrio é difícil e precisa ser revisto constantemente.”
O episódio levou à retirada imediata da publicação: “A segurança e a paz da minha filha não têm preço.”
“As pessoas veem um vídeo de poucos segundos e acham que foi fácil. Mas existe planejamento, edição, negociação, métricas, atendimento e estratégia. Você é praticamente uma empresa inteira”, acrescenta.
A identidade editável, profissionalização e mercado
Os filtros, avatares digitais e ferramentas de IA estão produzindo uma mudança que vai além da estética. Especialistas apontam que a identidade digital se tornou cada vez mais editável, performática e moldada pelas plataformas.
Segundo Carlos von Sohsten, a identidade contemporânea já não é apenas física. “Ela passa a ser também algorítmica, replicável e mediada por plataformas. Isso cria oportunidades de expressão, mas exige transparência e responsabilidade.”
A transformação é impulsionada pelo avanço das tecnologias generativas. Pesquisa do IAB Brasil mostra que 43% dos profissionais já utilizam IA para criação e edição de imagens, enquanto 16% usam ferramentas para criação e edição de vídeos.

A tendência aponta para um futuro em que avatares hiper-realistas, vídeos sintéticos, clonagem de voz e influenciadores virtuais estarão cada vez mais presentes nas estratégias de marketing.
O crescimento acelerado do setor também trouxe uma nova exigência: profissionalização. Se antes bastava acumular seguidores, hoje o mercado exige competências empresariais.

Alana Fernandes afirma que a monetização não está diretamente ligada ao tamanho da audiência. “Ter muitos seguidores não significa necessariamente ter influência. O que faz diferença é a confiança construída com o público”, explica.
Cléa Rocha concorda.
“Não importa se você tem cinco mil ou quinhentos mil seguidores. As marcas querem resultado”, explica a influenciadora.
No Sebrae-RN, a percepção é semelhante.
Jéssica Matos destaca que o criador de conteúdo moderno precisa dominar áreas que vão muito além da produção de vídeos: “Hoje o creator precisa entender posicionamento, precificação, negociação, reputação e relacionamento com marcas. Ele não é apenas comunicador, é empreendedor”.
Ela reforça que as empresas passaram a olhar o influenciador como ativo estratégico. “As marcas não compram apenas divulgação. Elas se associam à credibilidade construída com o público”, acrescenta.


