Lídia Maria Figueiredo Mazelli, de 61 anos, aparece como dirigente de 14 empresas ligadas ao advogado Willer Tomaz, amigo próximo do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), segundo reportagem publicada pelo ICL Notícias em parceria com a newsletter Noites Húngaras. O levantamento aponta que Lídia trabalhou no escritório de Tomaz entre março de 2019 e setembro de 2020 e, poucos dias após deixar o emprego, passou a ocupar cargos de direção em empresas relacionadas ao advogado.
Entre os negócios estão empresas dos setores imobiliário, de aviação, comunicação, investimentos, mineração e meios de pagamento. Uma delas está relacionada a uma mansão avaliada em cerca de R$ 10 milhões em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. Outra administra uma estrutura para jatos executivos em Brasília. Há ainda uma empresa responsável pelo processamento de pagamentos de casas de apostas credenciadas pela Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj).
Segundo o ICL Notícias, registros trabalhistas mostram que Lídia manteve vínculo formal com o escritório Willer Tomaz Advogados até 1º de setembro de 2020. Quatro dias depois, em 5 de setembro, ela já aparecia como dirigente da Jet Line Locação e Serviços Aéreos. No mesmo período, passou a integrar a direção da WT Administração de Imóveis e Bens.
A reportagem localizou Lídia no Riacho Fundo, região administrativa do Distrito Federal. Durante a abordagem, ela teria afirmado que trabalhava como empregada doméstica, negado conhecer Willer Tomaz e dito não saber por que seu nome aparecia nos registros das empresas.
A informação, porém, foi contestada posteriormente pela própria Lídia. Em manifestação divulgada após a publicação da reportagem, ela afirmou que nunca foi empregada doméstica e que é bacharel em Administração, formada em 2002. O cadastro do Conselho Federal de Administração também registra formação em Administração em nome de Lídia.
Investigação sobre fraude no INSS
Willer Tomaz foi alvo, em agosto deste ano, da Operação Sem Desconto, da Polícia Federal, que investiga suspeitas relacionadas a um esquema de descontos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
A defesa do advogado nega que ele seja investigado por desvios diretamente relacionados aos aposentados e afirma que a Procuradoria-Geral da República teria se manifestado contra a diligência realizada contra ele. Tomaz também afirmou que Lídia é administradora de empresas, possui formação superior e experiência em cargos de gestão.
A reportagem do ICL Notícias aponta ainda que o advogado inicialmente negou que a mulher localizada pelos jornalistas fosse a administradora de suas empresas. Após ser confrontada com documentos, a assessoria reconheceu que se tratava de Lídia e afirmou que ela teria ficado assustada durante a abordagem.
Relação com Flávio Bolsonaro
A relação entre Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro é pública. Durante a CPI da Covid, em 2021, o senador se referiu ao advogado como “meu amigo Willer Tomaz”. Segundo o levantamento do ICL Notícias, os dois também mantiveram relações pessoais e profissionais nos anos seguintes.
Tomaz teria emprestado recentemente dois imóveis utilizados por Flávio Bolsonaro: uma casa em Angra dos Reis, onde o senador realizou o aniversário da filha em fevereiro deste ano, e um apartamento em São Paulo usado durante a campanha presidencial. O ICL afirma que os imóveis possuem conexões empresariais com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
Lídia também aparece como diretora-presidente da WT Administração de Imóveis e Bens, empresa envolvida em uma disputa judicial relacionada a uma mansão na Ilha Comprida, em Angra dos Reis. O imóvel, avaliado em aproximadamente R$ 10 milhões, foi objeto de disputa judicial com o grupo ligado ao jogador Richarlison.
Flávio Bolsonaro não era parte do processo, mas foi citado como testemunha. Segundo a reportagem, ele esteve no imóvel antes de a empresa ligada a Tomaz obter a posse. A defesa do advogado nega que Flávio tenha participado da aquisição ou possua participação na propriedade.
O ICL Notícias também relata que Lídia aparece em registros de outras empresas ligadas a Tomaz, incluindo a Friponor Brasil Turismo, relacionada a uma ilha em Angra dos Reis, e empresas dos setores de comunicação, aviação e pagamentos.
Flávio Bolsonaro foi procurado pelos autores da reportagem, mas, segundo o ICL Notícias, não respondeu aos contatos até a publicação. A defesa de Willer Tomaz nega que o advogado mantenha sociedade ou negócios em comum com o senador e contesta as informações que associam Flávio à aquisição de imóveis ligados às empresas.

