Por Ana Beatryz Fernandes

A história de Dom José Sílvio de Brito é marcada por deslocamentos, desafios e uma vocação que amadureceu no ritmo da vida. Do sertão do Seridó às paróquias da Grande Natal, sua caminhada revela algo além da formação de um sacerdote: o retrato de alguém profundamente ligado às pessoas e às realidades que encontrou pelo caminho. Nascido em Cruzeta, ainda na infância experimentou a mudança que o levaria à capital, onde cresceu e construiu suas principais referências de fé, comunidade e pertencimento.
Ao longo dos anos, entre a vida simples do interior e o cotidiano das periferias urbanas, foi aprendendo a reconhecer na convivência com o outro o sentido mais concreto da missão que abraçaria. A vocação, longe de surgir como um evento isolado, foi sendo tecida em etapas: nas celebrações que observava quando criança, nas experiências do grupo de jovens na adolescência e, mais tarde, no silêncio formativo do seminário.
Já ordenado, sua trajetória se espalha por diferentes territórios, de bairros populares da capital a cidades da região metropolitana como Ceará-Mirim e Macaíba, onde acumulou vivências diversas, enfrentou perdas e consolidou sua identidade pastoral. Em cada destino, mais do que cumprir uma função, construiu vínculos e é justamente nessa capacidade de permanecer próximo, mesmo em meio às mudanças, que se sustenta a essência de sua caminhada sacerdotal.
Família, infância, adolescência e estudos

Nascido em Cruzeta no ano de 1970, Dom Sílvio cresceu em uma família simples do interior. Filho de Francisco de Brito Filho e Maria da Paixão de Brito (in memoriam), foi criado em um ambiente típico do sertão, onde a vida seguia o compasso do campo, sendo o quinto de sete filhos.
“Eu vivi lá no interior até os oito anos de idade, aquela vida normal de quem é do sítio mesmo”, relembra. A mudança para Natal, no fim da década de 1970, marcou uma nova fase, motivada por questões de saúde na família.
Nesse tempo, a fé ainda aparecia de forma espontânea: “Eu ia para a missa, via o padre celebrando, e depois na semana brincava de missa com meus irmãos”.
Na capital, foi na Zona Norte que construiu sua identidade. “Minha infância mesmo, de memória, é ali na Zona Norte, onde eu me criei”, conta. Entre o Conjunto Panatis e o bairro Santarém, viveu uma adolescência comum, entre escola pública e amizades. A relação com a Igreja, que na infância era mais espontânea, marcada por idas à missa e brincadeiras de “celebrar” com os irmãos, ganhou força na juventude.
Foi durante a preparação para a Crisma, em 1987, que sua fé se consolidou. Inserido no grupo de jovens da comunidade, ele passou de participante a catequista. Ali, começou a surgir algo mais profundo: o despertar vocacional.
Seminário de São Pedro – formação e vida acadêmica
O ingresso no Seminário de São Pedro representou uma virada decisiva. O chamado ao sacerdócio, amadurecido nos encontros vocacionais, o levou a deixar a convivência familiar para trás e abraçar uma nova rotina, marcada por estudos e disciplina.
A formação incluiu três anos de Filosofia e quatro de Teologia. A Filosofia foi cursada parcialmente em ambiente acadêmico externo, enquanto a Teologia foi integralmente realizada no seminário. A adaptação não foi simples: vindo de uma formação escolar totalmente pública, ele precisou enfrentar desafios acadêmicos e pessoais.
Mas, segundo ele, a convivência com colegas de diferentes realidades foi enriquecedora. “Você sai da família e passa a viver com pessoas de histórias muito diversas. Mas foi uma experiência tranquila, graças a Deus”, relembra.
A formação foi concluída em 1999. Posteriormente, com a criação da Faculdade Dom Heitor Sales, ele regularizou o diploma, obtendo o título de bacharel em Teologia.
Vida sacerdotal – ordenação e missão
A vida sacerdotal de Dom Sílvio está profundamente ligada à figura de Dom Heitor de Araújo Sales, que acompanhou toda a sua formação e foi responsável por sua ordenação.
Em 10 de dezembro de 1999, foi ordenado diácono. Pouco tempo depois, em 30 de junho de 2000, recebeu a ordenação presbiteral, tornando-se oficialmente padre.
Os primeiros anos de ministério foram marcados por diferentes experiências pastorais, que ajudaram a moldar sua identidade como sacerdote. “Foi uma experiência muito boa, de aprendizado e de crescimento”, resume sobre os primeiros envios.
Atuou inicialmente como diácono em Macaíba e depois em Nova Cruz, antes de assumir sua primeira missão pastoral mais estruturada, em uma área que ainda não era paróquia.
Foi ali que começou a desenvolver um estilo pastoral próprio, atento às necessidades das comunidades e comprometido com a organização e crescimento das estruturas eclesiais.
Paróquias e cidades: a construção de uma missão

A trajetória de Dom Sílvio é também um mapa de comunidades por onde passou. Em Natal, especialmente na Zona Norte, viveu uma de suas experiências mais longas e marcantes, na Paróquia de Santo Antônio de Pádua, no Parque dos Coqueiros, onde permaneceu por cerca de dez anos. “Lá foi onde eu vivi a experiência da primeira paróquia na sua totalidade”, afirma.
Depois, assumiu a Paróquia de Santa Maria Mãe, no Conjunto Santa Catarina, onde substituiu uma figura fundamental em sua vida: o padre Tiago, seu mentor e inspiração vocacional. “Ele que me encaminhou para o seminário. A primeira eucaristia eu fiz com o padre Tiago. A Crisma também ficou com o padre Tiago. Então, ele teve essa marca muito profunda. Ele me deu a carta de apresentação para o seminário e foi a pessoa que me inspirou para ser padre”, recorda.
Outro capítulo importante ocorreu em Ceará-Mirim. Ali, encontrou uma religiosidade mais tradicional, diferente da vivência urbana que conhecia. O desafio de adaptação foi ampliado pelo período da pandemia, que restringiu celebrações e atividades presenciais. Foi nesse contexto, já na fase final de sua passagem pela cidade, que enfrentou uma perda pessoal marcante: a morte da mãe, vítima da Covid-19.
De volta a Natal, em setembro de 2020, assumiu a Paróquia de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no bairro das Quintas, em Natal. Posteriormente, foi transferido para Macaíba, onde atualmente é pároco da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição.
“Três anos de muita gratidão a Deus por estar em Macaíba. Eu cheguei Padre Silvio, depois passei a ser Monsenhor Silvio, e agora Dom Silvio, são partes da caminhada”, relata.

