Os bispos católicos do Brasil reuniram-se no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, entre os dias 15 e 24 de abril, para a 62ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). No último dia do encontro, foi divulgada a tradicional “Mensagem ao Povo Brasileiro”, documento que analisa, anualmente, o momento vivido pelo país e pelo mundo sob uma perspectiva ética, social e espiritual.
Assinada pelo cardeal Dom Jaime Spengler, presidente da CNBB, e demais membros da diretoria, a mensagem deste ano é inspirada no versículo “Bem-aventurados os que promovem a paz” (Mt 5,9) e equilibra sinais de esperança com alertas contundentes sobre violência, crise democrática, racismo, degradação ambiental e o contexto eleitoral.
Sinais de esperança em tempos pascais
Os bispos abrem a mensagem reconhecendo avanços concretos. A amizade social, a economia solidária, a responsabilidade com os mais pobres, a valorização da soberania, da democracia, da cidadania e a defesa incondicional da vida, desde a concepção até a morte natural, são citados como “sementes que florescem nas comunidades”.
Violência e crime organizado: o Estado ausente nas periferias
O documento dedica passagem central à expansão do crime organizado no Brasil. Narcotráfico, milícias e facções criminosas são apontados como forças que “produzem um regime cotidiano de violência que vai muito além dos confrontos armados”, chegando a controlar territórios e enfraquecer a autoridade legítima das instituições.
Nas periferias urbanas, alertam os bispos, a população passa a viver “entre a ausência do Estado e a presença de poderes paralelos”. No campo, o quadro é descrito como igualmente grave, marcado por situações “historicamente injustas”.
Citando o Papa Leão XIV, o texto afirma que “o mundo está sendo devastado por um punhado de tiranos” — reflexo de guerras, fome e destruição fomentados por grandes corporações e seus interesses econômicos.
Violência contra as mulheres e racismo estrutural
Os bispos expressaram preocupação explícita com as múltiplas formas de violência que atingem as mulheres: agressão física, sexual e psicológica, controle econômico, desigualdade salarial, assédio, perseguição digital e feminicídio. O quadro, dizem, é agravado para mulheres pobres, negras, indígenas, periféricas e rurais, que além da violência enfrentam omissão institucional e banalização social da dor.
Sobre o racismo, o documento lembrou que a Assembleia Geral da ONU reconheceu o tráfico transatlântico de escravizados como “o crime mais grave contra a humanidade” e cobrou do Brasil enfrentar com coragem essa herança: “Nossa história tem uma dívida que exige reparação.”
Crise ética e a corrupção como ferida aberta
A mensagem dedica um bloco à crise ética nacional, apontando a corrupção como “a ferida mais profunda”, que abala a confiança da população, desvia recursos dos mais pobres e fragiliza a democracia. Os bispos defendem com firmeza as instituições republicanas, os órgãos de controle, a justiça, a transparência e a responsabilidade na vida pública.
O texto afirma que “as relações promíscuas entre o público e o privado, inclusive promovidas por autoridades, impactam a política e não podem ficar impunes.”
“Pejotização” e os direitos dos trabalhadores
Em passagem incomum para documentos desta natureza, a CNBB manifestou preocupação com a discussão sobre a substituição de contratos de trabalho CLT por vínculos precários de prestação de serviços, a chamada “pejotização”. Os bispos reafirmam “o direito sagrado ao repouso” e a necessidade de escalas de trabalho que garantam aos trabalhadores qualidade de vida e tempo com suas famílias.
Eleições 2026: voto consciente e combate à desinformação
Em ano eleitoral, a mensagem também convoca os brasileiros a participar “efetivamente da festa da democracia” em outubro. Os bispos destacam a importância tanto das eleições para o Executivo quanto para o Legislativo, defendendo um parlamento capaz de enfrentar as causas estruturais da pobreza e garantir educação de qualidade, moradia digna e acesso à saúde.
Com a frase “o voto não tem preço, tem consequência”, o documento condena a compra e venda de votos e pede que os eleitores escolham candidatos “com propostas concretas a serviço dos mais vulneráveis, da justiça socioambiental e da vida”. Os bispos também alertam para a disseminação organizada de desinformação, a manipulação do medo, os discursos de ódio e o uso abusivo de novas tecnologias e inteligência artificial como ameaças à integridade do processo eleitoral. E reforçam que a relação entre religião e política deve respeitar as diferenças entre ambas, impedindo qualquer instrumentalização — inclusive de tradições religiosas.
Meio ambiente: a Amazônia como urgência planetária
O documento cobra ação urgente diante dos extremos climáticos que atingem todos os biomas brasileiros, com ênfase especial na Amazônia, “ecossistema que afeta todo o planeta”. Os bispos rejeitam modelos de exploração que “negam o bem viver” e advertem: “Não podemos sacrificar a natureza e as pessoas. Toda a Casa Comum sofre com a devastação.”
Povos indígenas e comunidades tradicionais
Indígenas, quilombolas e ribeirinhos recebem atenção especial na mensagem. Os bispos denunciam propostas legislativas que procuram enfraquecer a proteção de seus territórios e afirmam que “nenhuma solução legítima poderá ser construída sem escuta verdadeira, participação e respeito a esses povos”.
Esperança como horizonte
O documento se encerra com um chamado à construção de uma sociedade mais justa, inspirado nos 800 anos da morte de São Francisco de Assis. Os bispos concluem com um compromisso de paz e fraternidade: “Exortamos o povo brasileiro a construir uma só família humana, fundada na justiça, na verdade e na solidariedade.”
Assinam a mensagem Dom Jaime Cardeal Spengler (presidente), Dom João Justino de Medeiros Silva (1º vice-presidente), Dom Paulo Jackson Nóbrega de Sousa (2º vice-presidente) e Dom Ricardo Hoepers (secretário-geral).
