O debate nas redes sociais envolvendo Nossa Senhora Aparecida e o título de Padroeira do Brasil alcançou quase 1 milhão de publicações em 55 horas e se tornou o terceiro maior episódio de repercussão política digital de 2026, segundo levantamento do Instituto Democracia em Xeque (DX). O monitoramento contabilizou 977,6 mil publicações e 8,5 milhões de interações no período.
Nas primeiras 24 horas, foram registradas 669,9 mil publicações sobre o assunto. De acordo com o instituto, o volume colocou o episódio atrás apenas de outros dois casos acompanhados pelo DX neste ano: o embate envolvendo os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes e a repercussão de áudios relacionados ao senador Flávio Bolsonaro, ao banqueiro Daniel Vorcaro e ao financiamento do filme Dark Horse.
A discussão começou no campo religioso e ganhou dimensão política durante a campanha eleitoral. O levantamento aponta que o debate passou por diferentes etapas, envolvendo a associação de Flávio Bolsonaro ao tema, a repercussão de uma reportagem da GloboNews e, posteriormente, discussões sobre remoção de conteúdos, liberdade de expressão e atuação da Justiça Eleitoral.
Como começou a repercussão
A controvérsia teve início após uma declaração veiculada pela GloboNews que foi interpretada nas redes sociais como uma possível relação entre Flávio Bolsonaro e uma proposta para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
A emissora posteriormente corrigiu a informação. O projeto citado nas discussões, o PL 2.623/2007, foi apresentado pelo então deputado federal Professor Victório Galli, conforme registro oficial da Câmara dos Deputados.
A proposta pretendia alterar a Lei nº 6.802/1980 para substituir a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. O projeto foi rejeitado e arquivado em 2008. Mais de uma década depois da apresentação do projeto, Galli se aproximou do grupo político de Jair Bolsonaro. Em fevereiro de 2019, durante o primeiro ano do governo, foi nomeado assessor especial da Presidência da República.
A discussão ganhou associação com o senador Flávio Bolsonaro após uma declaração na qual afirmou que, se eleito presidente, declararia o Brasil como pertencente a Jesus Cristo.
Duas ondas de repercussão
Segundo o Instituto DX, a discussão apresentou duas grandes ondas de mobilização. A primeira ocorreu a partir da noite de 24 de setembro e esteve relacionada à discussão sobre o projeto de 2007, às reações de grupos católicos, à negativa de Flávio Bolsonaro e à posterior correção da GloboNews.
A segunda onda ocorreu após uma decisão do ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinando a retirada de publicações que relacionavam Flávio Bolsonaro ou familiares à intenção de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
Com a decisão, o debate nas redes passou a incluir questões relacionadas à remoção de conteúdo e aos limites da liberdade de expressão no contexto eleitoral. O TSE registra Mendonça como ministro efetivo da Corte e atual vice-presidente do Tribunal.
Esquerda concentrou maior número de publicações
No recorte de 345 publicações de perfis políticos analisadas pelo Instituto DX, perfis classificados pelo levantamento como de esquerda responderam por 66% das publicações e 70% das interações. Perfis classificados como de extrema-direita representaram 33% das publicações e 30% das interações. A imprensa correspondeu a 1% dos posts analisados.
O principal eixo identificado pelo instituto foi “Tirar o título de Aparecida”, que concentrou 53% das publicações e 47% das interações. Outro grupo, relacionado à mobilização evangélica e ao PL de 2007, representou 17% das publicações, mas reuniu 33% das interações.
Já o eixo “Flávio nega e ataca a Globo” correspondeu a 20% das publicações analisadas. O levantamento também identificou um grupo relacionado a episódios envolvendo Bolsonaro e Nossa Senhora Aparecida em 2022, responsável por 11% das publicações e 4% das interações.
O Instituto DX identificou aproximadamente 24 mil publicadores únicos participando da discussão. Entre os termos mais recorrentes estavam referências a católicos, evangélicos, igreja, Flávio Bolsonaro, Lula, GloboNews, projeto, Galli e desinformação.

