O Banco Master, comandado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, tentou interferir na condução de uma entrevista exibida pela CNN Brasil em abril de 2025, enquanto mantinha uma relação comercial milionária com a emissora. Segundo reportagem publicada neste domingo (18) pelo ICL Notícias, mensagens obtidas pelo veículo revelam que Vorcaro e Ana Matos, então responsável pelo marketing do banco, discutiram a exigência de combinar previamente as perguntas de uma entrevista sobre os negócios da instituição financeira.
As conversas também apontam que o Master destinava R$ 10 milhões anuais à relação comercial com a CNN, além de negociar patrocínios para eventos promovidos pelo canal. Procurada pelo ICL, a emissora confirmou que o banco foi anunciante, mas negou qualquer interferência de patrocinadores em suas decisões editoriais.
Mensagens revelam tentativa de controlar entrevista
De acordo com o ICL Notícias, as mensagens foram trocadas em 3 de abril de 2025, seis dias após o anúncio da proposta de aquisição de 58% do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB). Na ocasião, a operação enfrentava questionamentos de analistas e concorrentes, enquanto o banco buscava apresentar publicamente os resultados de seu balanço financeiro.
Naquela manhã, Vorcaro comunicou a Ana Matos que havia conversado com João Camargo, então presidente executivo do Conselho da CNN Brasil, sobre a possibilidade de conceder uma entrevista para explicar os resultados e a negociação com o BRB.
A executiva respondeu que a participação poderia acontecer às 18h, mas defendeu que todas as perguntas fossem previamente acertadas com a instituição financeira.
“Eu respondi que ele tem que combinar com a gente antes as perguntas do Naka. Todas. Antes”, escreveu Ana Matos, em referência ao jornalista Fernando Nakagawa, que comandava a cobertura econômica da emissora.
Em outra mensagem, a executiva reforçou a intenção de direcionar o conteúdo: “A gente dizer o que queremos falar. Tudo combinado. 100%.”
As mensagens mostram a tentativa de condicionar a entrevista aos interesses do banco, mas não comprovam que a CNN tenha aceitado a exigência.
Vorcaro desistiu de participar e enviou economista-chefe
Apesar das negociações, Daniel Vorcaro decidiu não conceder pessoalmente a entrevista. Segundo o ICL, o banqueiro demonstrou preocupação com a exposição pública diante das críticas envolvendo o Master e optou por enviar Paulo Gala, então economista-chefe da instituição.
Nas conversas, Vorcaro afirmou que Gala havia sido preparado para a participação. Ana Matos também relatou ter realizado um treinamento com o economista para abordar os assuntos de interesse do banco.
A entrevista aconteceu ao vivo no CNN Money, às 18h daquele dia, conduzida por Fernando Nakagawa. Durante a participação, Gala defendeu a negociação com o BRB e apresentou argumentos favoráveis à operação.
Procurado pelo ICL Notícias, Nakagawa afirmou que conduziu a entrevista normalmente, sem se lembrar de qualquer imposição de perguntas. O jornalista destacou que abordou questões consideradas desconfortáveis para o Master, incluindo a sustentabilidade da oferta de CDBs com remuneração de 140% do CDI, a necessidade de buscar um sócio e as críticas ao uso do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Master negociou patrocínio milionário para evento da CNN
As mensagens obtidas pelo ICL também revelam negociações comerciais entre o Banco Master e a CNN Brasil em 2024.
Em agosto daquele ano, Ana Matos informou a Vorcaro que executivos da emissora haviam solicitado R$ 4 milhões para patrocinar o CNN Talks, evento que reunia autoridades e empresários para discutir temas econômicos.
O valor foi considerado elevado pelos representantes do banco. Após negociações, o patrocínio foi fechado por R$ 1 milhão, segundo as mensagens divulgadas.
Em setembro de 2024, a executiva voltou a comentar os pedidos de recursos feitos pela emissora e mencionou um investimento anual de R$ 10 milhões, relacionado à estratégia comercial do Master com a CNN e ao lançamento do CNN Money.
As conversas também mostram que Vorcaro afirmou estar entrando no negócio com Rubens Menin, controlador da CNN Brasil. A emissora, entretanto, nega que o banqueiro tenha sido sócio de qualquer um dos canais.
CNN nega interferência de patrocinadores no jornalismo
Em resposta ao ICL Notícias, a CNN Brasil confirmou que o Banco Master manteve contratos publicitários com a emissora, mas afirmou que as relações comerciais não influenciaram a produção jornalística.
Segundo a empresa, os anúncios foram veiculados nos intervalos comerciais e nas plataformas digitais. A CNN também informou que os valores dos contratos são protegidos por cláusulas de confidencialidade.
A emissora negou que Daniel Vorcaro tenha integrado sua estrutura societária e afirmou que Rubens Menin é seu único controlador.
A CNN acrescentou que os executivos responsáveis pela direção e pela área comercial durante o período em que o Master foi anunciante deixaram a empresa em agosto de 2025, antes da prisão de Vorcaro e da liquidação do banco.
Em nota, a empresa sustentou que sua atual gestão mantém a separação entre as áreas comercial e editorial, impedindo que anunciantes interfiram nas decisões jornalísticas.
A emissora também destacou que realiza cobertura contínua sobre o Banco Master desde sua liquidação, em novembro de 2025.

