PRESIDENCIÁVEIS BRINCAM COM FOGO
Bem-vindos ao festival de ilusionismo mais caro do planeta. Se você abrir os jornais esta semana sem um capacete de proteção fiscal, corre o seríssimo risco de ser atingido por um cheque sem fundos do governo ou por uma promessa messiânica da oposição. O espetáculo é grandioso: de um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva opera a máquina pública como quem pilota um carro alegórico em chamas, distribuindo benesses, auxílios e bondades orçamentárias num ritmo frenético. O objetivo? Comprar simpatia popular e garantir votos com o dinheiro que, aliás, não existe no cofre — mas sobra na imaginação fértil do Planalto.
Do outro lado da avenida eleitoreira, Flávio Bolsonaro resolveu demonstrar que a criatividade contábil não escolhe ideologia. Empenhado em não perder terreno e seduzir novas fatias do eleitorado, o senador da oposição jogou no lixo o catecismo da austeridade, esqueceu o reequilíbrio das contas públicas e passou a prometer ampliações de benefícios com a mesma generosidade de um herdeiro gastador em fim de semana festivo. O rigor fiscal, que deveria estancar a sangria, virou nota de rodapé diante da urgência de caçar votos.
Parece que a memória política nacional sofre de amnésia crônica e seletiva. Ninguém parece se lembrar do desastre de Dilma Rousseff, que levou o país à beira da bancarrota absoluta com a sua “Nova Matriz Econômica” — aquele festival de subsídios camaradas, maquiagem contábil e pedaladas que resultou na pior recessão da história recente e na cassação da presidente que até hoje o PT classifica como “golpe”. Na época, foi preciso que seu sucessor, Michel Temer, assumisse o volante para aplicar um choque de realidade com medidas duras e amargas, daquelas que não rendem aplausos em palanque: teto de gastos, reforma trabalhista e uma contenção forçada para impedir que o transatlântico afundasse de vez.
Contudo, a lição foi solenemente ignorada. Trata-se de uma competição tragicômica para ver quem ateia fogo ao país com fósforos mais reluzentes. Ambos os postulantes sabem perfeitamente que a matemática básica não aceita desaforo: o Brasil necessita com urgência de disciplina, cortes e de uma dose inevitável de sacrifício coletivo para não mergulhar num colapso estrutural logo ali na esquina. No entanto, enquanto a realidade impõe remédio amargo, Lula e Flávio disputam quem entrega o brigadeiro mais recheado para o paciente diabético. Vendem a ilusão de um paraíso tropical em que a riqueza brota espontaneamente de decretos e discursos inflamados.
Para quem acha que o poço não tem fundo e que a conta nunca chega, convém fazer uma viagem no tempo até a Grécia entre 2010 e 2015. Naquela época, os governantes gregos também juravam que a farra dos benefícios e das aposentadorias precoces duraria para sempre. O desfecho dessa fábula todo mundo conhece: o país quebrou de joelhos, os caixas eletrônicos foram limitados a saques humilhantes de 60 euros diários e os aposentados e pensionistas viram seus proventos sumirem com cortes selvagens que passaram de 15% a quase 50%, assistindo impassíveis à ruína da própria dignidade nas portas dos bancos fechados.
Aqui, nossos líderes preferem flertar com a tragédia grega em ritmo de samba, repetindo os mesmos erros do passado recente. Enquanto brincam com fogo na beira do abismo fiscal, fingem ignorar que quem se queima, invariavelmente, é o cidadão comum, aquele que amanhã não terá remédio no posto nem aposentadoria na conta.
O Brasil precisa, urgentemente, ser levado a sério.
REPERCUSSÃO
Ainda sobre a repercussão do debate entre os presidenciáveis Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, na BandTV, cresce a opinião sobre o desastre de conteúdo. Vazio total. Só agressões mútuas.
ESTADÃO
O jornal O Estado de São Paulo abriu seu editorial da edição de ontem, terça-feira, 20, com o título “Debate digno da pior campanha da história”.
EDITORIAL
Na abertura de seu editorial, o Estadão diz: “Band e Estadão fizeram a sua parte, mas Flávio Bolsonaro e Lula nunca quiseram debater, só explorar a rejeição do adversário. Foi um show de horror, que desrespeitou os eleitores”.
OPÇÃO
Ao que parece, o eleitor brasileiro vai terminar fazendo a opção pelo menos ruim para o país.
CONTAMINAÇÃO
O pior de tudo é que o estilo radical desaforado e sem mensagens de pacificação para o país adotado pelos dois candidatos já contaminou grande parte da população. E o radicalismo está se alastrando.
CONFRONTO
O confronto entre bolsonaristas, capitaneado pelo deputado federal General Girão, e estudantes esquerdistas da UFRN ainda vai render muito.
MULHER
A governadora Fátima Bezerra (PT) sancionou a Lei 12.833, de autoria da deputada Isolda Dantas (PT), que cria o “Programa Nenhuma a Menos”. A lei tem o objetivo de implementar ações que previnem o combate ao feminicídio no RN.

