O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, defendeu a redução da maioridade penal para 16 anos em casos de crimes hediondos, propôs mudanças no Supremo Tribunal Federal (STF) e assumiu a responsabilidade pelas dificuldades de seu governo durante entrevista à TV Globo, na noite desta quinta-feira (15). O petista também respondeu a questionamentos sobre o escândalo do Banco Master, segurança pública, endividamento das famílias, Bolsa Família e relações com os Estados Unidos.
A entrevista foi conduzida pela jornalista Renata Lo Prete, nos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro, como parte da cobertura do segundo turno das eleições presidenciais de 2026. Lula foi o primeiro candidato a participar da rodada de sabatinas. Seu adversário, Flávio Bolsonaro (PL), será entrevistado nesta sexta-feira (16).
Durante a conversa, o presidente reconheceu dificuldades de sua gestão, criticou a conduta de autoridades envolvidas em episódios relacionados ao Banco Master e apresentou propostas para um eventual quarto mandato.
Lula assume responsabilidade pelas dificuldades do governo
Questionado sobre a rejeição à sua administração e o desempenho no primeiro turno, Lula reconheceu que não conseguiu comunicar adequadamente à população os resultados de seu terceiro mandato.
“Eu acho que tudo é responsabilidade minha. Veja, eu sou o governo”, afirmou.
O presidente declarou que não poderia transferir a responsabilidade pelas dificuldades da gestão a ministros ou integrantes de sua equipe. Segundo ele, os eleitores esperavam encontrar condições semelhantes às registradas ao final de seu segundo mandato, em 2010.
Lula também lamentou não ter conseguido demonstrar à população os resultados das políticas públicas implementadas desde 2023.
Redução da maioridade penal para 16 anos
Na área da segurança pública, Lula se posicionou favoravelmente à redução da maioridade penal de 18 para 16 anos em casos de crimes hediondos, contrariando uma posição historicamente defendida pelo PT.
“Eu sou favorável a reduzir pra dezesseis, mas não discutindo nessa PEC, porque essa PEC não é pra discutir isso”, declarou.
O presidente afirmou que a discussão deve ocorrer separadamente da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, atualmente em debate no Congresso Nacional.
A declaração ocorreu em meio às discussões sobre propostas de alteração da idade de responsabilização criminal. O senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro, apresentou uma emenda que prevê a redução da maioridade penal para 16 anos como regra geral e para 14 anos em determinados crimes.
Lula defendeu que a proposta de segurança pública seja analisada antes de uma eventual mudança na maioridade penal.
Crise no STF e reforma do Judiciário
Outro tema central da entrevista foi a crise envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal e as suspeitas relacionadas ao banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
Lula defendeu que as denúncias sejam investigadas e afirmou que integrantes da Suprema Corte não estão acima das exigências de ética e transparência.
“Nem os ministros da Suprema Corte estão isentos de passar para a sociedade a ideia de ética, a ideia de probidade”, afirmou.
O presidente revelou ter conversado três vezes com Edson Fachin, presidente do STF, para cobrar providências sobre as denúncias.
Lula também defendeu uma reforma do Judiciário, incluindo a possibilidade de estabelecer mandatos para ministros do Supremo e revisar os critérios de escolha dos integrantes da Corte.
Ao comentar a conduta esperada de magistrados, declarou: “Eu já disse uma vez que quem quiser ser rico não pode ser ministro da Suprema Corte. Ali é um sacerdócio.”
O petista ainda acusou setores da extrema direita de utilizar o escândalo do Banco Master para atacar o ministro Alexandre de Moraes em razão de sua atuação nos processos que resultaram na prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Banco Master e participação do diretor da PF em evento de Vorcaro
Lula também foi questionado sobre a participação do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, em um evento promovido por Daniel Vorcaro, em Londres.
O presidente afirmou ter cobrado explicações do delegado e considerou insatisfatória a justificativa apresentada.
“Ele me deu uma explicação, sabe? Não foi convincente pra mim”, disse Lula.
O petista criticou a presença de autoridades no evento e afirmou que ninguém precisava ter participado da celebração.
Sobre o encontro que manteve com Vorcaro no Palácio do Planalto, em dezembro de 2024, Lula relatou que o banqueiro reclamou de suposta perseguição política.
Segundo o presidente, sua resposta foi que eventuais irregularidades seriam investigadas pelas instituições responsáveis, sem interferência política.
Segurança pública e combate às facções criminosas
Durante a entrevista, Lula voltou a defender a criação de um Ministério da Segurança Pública caso seja reeleito. O presidente também apresentou a proposta de financiar a construção de 138 presídios de segurança máxima.
Segundo o petista, as medidas buscam fortalecer o enfrentamento às organizações criminosas e impedir que lideranças continuem comandando atividades ilegais de dentro das unidades prisionais.
Lula também rejeitou a possibilidade de os Estados Unidos classificarem facções brasileiras, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), como organizações terroristas.
“Nós temos consciência de que, aqui no Brasil, tanto o PCC como o Comando Vermelho são terroristas para a comunidade brasileira”, declarou, ao diferenciar o impacto das facções sobre a população do enquadramento jurídico pretendido pelo governo norte-americano.
O presidente afirmou ainda que apresentou a Donald Trump uma proposta de cooperação entre Brasil e Estados Unidos para combater o narcotráfico e o crime organizado.
Bolsa Família e endividamento das famílias
Questionado sobre a ausência de reajuste do Bolsa Família durante seu terceiro mandato, Lula afirmou que desconhecia a situação e que cobrou providências dos ministros após tomar conhecimento do problema.
“Eu não sabia porque é inexplicável”, declarou.
O reajuste do benefício foi anunciado às vésperas do primeiro turno, realizado em 4 de outubro. O presidente negou que a medida tivesse motivação exclusivamente eleitoral e afirmou que havia recursos disponíveis para a correção.
Lula também apresentou propostas para enfrentar o endividamento das famílias brasileiras, incluindo uma nova etapa de renegociação de dívidas.
Entre as medidas mencionadas estão iniciativas voltadas aos microempreendedores individuais (MEIs), com propostas de renegociação ou perdão de débitos e ampliação do acesso ao crédito.
Relação com Donald Trump e tarifas comerciais
Ao comentar as relações diplomáticas com os Estados Unidos, Lula afirmou que mantém um diálogo civilizado com Donald Trump, apesar das divergências comerciais provocadas pelas tarifas impostas a produtos brasileiros.
O presidente declarou que as negociações continuam e que prefere buscar um acordo, mas não descartou a adoção de medidas de reciprocidade caso as tratativas não avancem.
“Quem deve estar preocupado conosco nesse momento são os Estados Unidos”, afirmou.
Lula destacou a ampliação das relações comerciais do Brasil com outros países e defendeu a diversificação dos mercados internacionais como estratégia para reduzir a dependência econômica brasileira.
Fim da escala 6×1 e transporte gratuito
Nas considerações finais, Lula voltou a defender o fim da escala de trabalho 6×1, modelo em que o trabalhador cumpre seis dias de expediente para ter apenas um de descanso.
O presidente também mencionou a possibilidade de incluir em seu programa de governo uma proposta de gratuidade no transporte público aos fins de semana, associada à ampliação do tempo de descanso dos trabalhadores.
Lula destacou ainda medidas de apoio aos microempreendedores, políticas de redução dos custos de energia elétrica e iniciativas de distribuição gratuita de gás de cozinha para famílias de baixa renda.
Ao encerrar sua participação, demonstrou confiança na continuidade de seu projeto político.
“Eu tenho certeza absoluta de que o país está no rumo certo”, declarou.
Segundo turno será realizado em 25 de outubro
Lula e Flávio Bolsonaro disputam o segundo turno das eleições presidenciais no próximo dia 25 de outubro.
O candidato do PL terminou o primeiro turno, realizado em 4 de outubro, com 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula recebeu 45,16%, segundo os resultados divulgados pela Justiça Eleitoral.
A rodada de entrevistas da TV Globo continua nesta sexta-feira (16), com a participação de Flávio Bolsonaro. A emissora também prevê um debate entre os dois candidatos na sexta-feira (23), dois dias antes da votação.

