O Cristianismo no Brasil está vivendo uma crise. Quero trazer a questão ao nosso contexto, mesmo ciente que a problemática é mais ampla. Tivemos recentemente, a pesquisa do IBGE, que nos mostrou que cerca de 90% – entre católicos e evangélicos – denomina-se cristã. Estes são os fiéis que foram batizados, frequentam os momentos de missa e de culto e têm suas práticas religiosas. São os declarados e ligados a grupos e tantíssimas de denominações e igrejas, que constantemente surgem nos vários recantos do nosso país, principalmente nas periferias das grandes cidades. Temos raízes históricas das causas e atuais consequências deste fenômeno, principalmente quando recuperamos a trajetória de evangelização das nossas paragens. O cristianismo forjado pelos nossos colonizadores, com os contornos do início da modernidade, ainda condicionada eclesialmente pelos elementos da Reforma-Contrarreforma, com os seus jogos dialéticos que até os nossos dias teimam e insistem num cristianismo institucionalizado, com sua crise de identidade. Essa constatação vai além do que proponho-me a refletir aqui e está bem analisado pelo teólogo Emil Brunner, quando o mesmo aborda alguns traços da “teologia da crise” (cf. Teologia da Crise, pág. 28-29).
O intento da nossa reflexão é situado num cenário de um cristianismo que tem sofrido com as marcas de uma ideologização da fé, com as manipulações que têm feito com que cada vez mais seja abandonada a ‘essência do cristianismo’ (cf. R. Guardini). Esta “é a fé na revelação de Deus em Jesus Cristo” (cf. E. Brunner, pág. 28). Temos que redescobrir a nossa identidade, a partir do “encontro pessoa com o Senhor” (cf. Bento XVI, DCE, 1). A superficialidade no que foi vivido pela nossa história de evangelização e como até os nossos dias estamos a viver, sem coragem à “conversão pessoal e pastoral”, continuará a ser o nosso grande drama. O catolicismo, como as tantas denominações evangélicas do nosso país, estará cada vez mais caindo no sufocamento deste pós-secularismo que está ganhando corpo e definindo os valores da nossa Nação. O agravante também é potencializado pela qualidade da nossa educação, que é a opção civilizatória ao humano pós-moderno. Contudo, principalmente na nossa tradição católica, “a fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio” (cf. João Paulo II, FR).
O Apóstolo Paulo é quem sintetiza o que trazemos como objetivo da nossa reflexão do Cristianismo como religião do Evangelho. Segundo o ‘Missionário das Gentes’, o nosso único ‘Evangelho é Jesus Cristo’ (cf.1Cor 3,23; 2Cor 4,1-11; Gál 1,6-10; 8,34 etc). Também temos a mensagem central dos evangelhos, que é a da boa notícia do Reino de Deus, que deve ser pregado e testemunhado por todos os convertidos e consagrados ao Senhor pelo batismo (cf. Mc 1,14-15; Mt 4,17; 4,14). Só Jesus Cristo é o Único Necessário, ou a Única Necessidade (cf. Lc 10,42). A consistência na formação cristã, depois deste encontro com a Pessoa de Nosso Senhor, é a via pela qual precisamos aprimorar uma existência cristã qualificada e que poderá fazer a diferença, como aconteceu na Igreja Primitiva (cf. Atos dos Apóstolos, 2,42-47), em nossos tempos marcados pelas suas sombras da negação do Reino de Deus, que é de justiça e paz. O cristianismo genuíno sempre cresceu, no decorrer do seu desenvolvimento, pelo ‘testemunho que atraia’. Na nossa atual ordem sistêmica e conjuntura brasileira, com os representantes – eclesiais e eclesiásticos – que temos acompanhado, precisamos fazer uma ‘auto-crítica’ para reconhecer que temos falhado e sido, em muitos casos, pedra de tropeço para muitas pessoas, pois temos tomado distanciamento deste cristianismo dos valores do Evangelho.
Seguindo os movimentos da história, mais uma vez, devemos pontuar que o que gerou a “crise da teologia e a teologia da crise” (cf. Idem. E. Brunner. Teologia da Crise, pág. 28-29), por causa da racionalidade, foi também o que gerou a crise de um cristianismo, que teve que prestar contas ao racionalismo moderno, personificado nas construções filosóficas dos ‘Mestres da Suspeita’ – Nietzsche, Marx e Freud -, que trouxeram os questionamentos filosóficos, estruturais e existenciais causados para aquele cristianismo, devedor dos fundamentos essenciais da ‘religião do Evangelho’. No contemporâneo, ainda mais em nosso contexto brasileiro, podemos perceber mais uma cara da crise, que com pressupostos diferentes, é distanciada daquela causada pela racionalidade moderna e embarca na armadilha da ‘vontade de poder’, que de um modo mais sofisticado, pode ser interpretado epistemologicamente com a filosofia nietzschiana, e com suas formas rudimentares com a usurpação da religião e da política, fortalecida pela lógica do mercado e usada pelos aproveitadores da fé e grupos políticos. Essa decadência só poderá ser superada pelo retorno às fontes do Evangelho, pela qualificação e quantificação da educação para todos e com todos, sendo necessário o Pacto Educativo Nacional integral e inclusivo.
O cenário é preocupante para todos. Mesmo com a sua tradição, que prioriza a fé em relação com a razão, a própria Igreja Católica padece de dificuldades para tomar distância desta confusão.
Basta analisarmos o que vivemos em tempos como os nossos: agressões, perseguições digitais, comunidades que padecem de respeito entre seus integrantes, sinais de neuroses coletivas, falta de lucidez e coerência, intrigas, desrespeito, conspirações, falsidades, mentiras e tantas outras formas de negação dos ensinamentos de Jesus Cristo. É a ideologia, seja ela religiosa ou política, que aliena as massas, que traga a beleza da boa notícia do Reino de Deus. Temos um grande drama em nosso contexto sócio-político e religioso. A partir dalgumas leituras que tenho feito, principalmente as do filósofo, Jurgen Habermas; assumo com ele, até por coerência, outrossim, existencial, que “o Estado depende de tradições metafísicas ou religiosas autóctones, em todo caso, de tradições éticas, as quais fornecem elementos normativos capazes de obrigar coletivamente” (cf. Entre Naturalismo e Religião, pág. 115), por mais que os laicistas reneguem o valor da religião em espaços do Estado. Todavia, essa participação não pode abandonar a racionalidade, que será o ponto de equilíbrio para que tornemos o discurso sobre a política e a religião uma via que de fato promova o bem comum, a convivência pacífica entre as pessoas e um projeto de Nação, deveras, civilizatório (cf. https://www.arquidiocesedenatal.org.br/post/artigo-a-negação-da-racionalidade).
Enfim, tenhamos presente o que fora afirmado por Jesus Cristo: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (cf. Jo 10,10). Esse precisa ser o centro gravitacional do Evangelho e daquela ‘Política Melhor’ sobre a qual nos ensinou o saudoso Papa Francisco (cf. Fratelli Tutti, cap. V). É público e notório que estamos necessitando dela. O cristianismo é também a religião da Palavra (cf. Jo 1,1-3.14). Ela é razão e é carne. O cristianismo autêntico sente com a humanidade e promove o diálogo entre os que são verdadeiramente humanos e, a partir desta condição, assumem pela graça de Deus a autenticidade da existência cristã. Esse olhar para Jesus Cristo, na sua totalidade, sempre foi, é e será o fundamento da nossa verdade mais profunda. Tenhamos coragem, força e lutemos para que a Verdade que nos liberta, seja a nossa Única Esperança. Assim o seja!
(*) Pároco da paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório – Natal-RN
Capelão da UFRN
