O professor Orlando de Miranda, meu orientador no mestrado, dizia-me, entre irônico e debochado, que a política brasileira não costuma desperdiçar oportunidade de desmentir a aritmética. E completava, por isso existem derrotas que vencem e vitórias que começam a perder.
O primeiro turno da eleição presidencial deste ano parece ter ofertado um desses espetáculos.
Lula perdeu a eleição presidencial para Flávio Bolsonaro, mas venceu, com larga dianteira, no Nordeste. Venceu, sim, embora com uma vantagem menor do que a de 2022. O eleitor, um animal que os políticos imaginam conhecer porque lhe conhecem o título eleitoral, deu sinais de independência, fenômeno típico de inconveniência democrática.
Em 2022, Lula teve 21,75 milhões de votos nordestinos, contra 8,78 milhões de Jair Bolsonaro.
Em 2026, foram 21,49 milhões para Lula e 10,39 milhões para Flávio Bolsonaro. A diferença caiu de quase 13 milhões para pouco mais de 11 milhões de votos. Lula continua, não há dúvida alguma, senhor do território, mas já não reina com a mesma tranquilidade. E, em política, até os impérios começam a ruir quando o imperador ainda está convencido de que o povo lhe deve obediência.
O fenômeno merece atenção. O CEP do Nordeste é o mesmo, porque ele não mudou de endereço, mas alguma coisa mudou dentro dele. O agronegócio avançou e com ele cresceu uma gente que não se reconhece necessariamente no discurso de uma esquerda que ainda parece enxergar a região pela janela de um programa assistencial. O sertão, que já foi cenário de profecias e retirantes, descobriu que também pode produzir riqueza e, como sabe qualquer pessoa que estuda economia e sociologia política, onde a riqueza é produzida, o perfil social – e político – muda.
O agronegócio brasileiro mantém, em certa medida, uma relação pouco afetuosa com o PT, e o PT, que sempre foi hábil para interpretar os muito pobres, parece ter mais dificuldade para compreender aqueles que deixaram de ser tão pobres ou que, tendo melhorado de vida, têm outras demandas.
Há ainda o crescimento evangélico, acompanhado de valores conservadores, preocupações com segurança e questões de costumes. Some-se a isso o trabalhador autônomo, o pequeno empreendedor, o sujeito que já não pede apenas ajuda para atravessar o mês, mas quer saber se poderá atravessá-lo sem ser assaltado, esmagado por impostos ou obrigado a ouvir promessas requentadas há duas ou mais décadas.
Em 2002, a promessa de Lula era que todo brasileiro iria fazer três refeições ao dia. Vinte anos depois, em 2022, a promessa foi repetida e teve um acréscimo: picanha, cervejinha e viagens de avião. O brasileiro gosta das três coisas, quando pode pagá-las. O inconveniente começa quando a propaganda eleitoral termina e a geladeira continua vazia. O eleitor não é ingrato por natureza, entretanto ele não costuma considerar eterna uma dívida que o político imagina ter sido paga com discurso.
A questão mais séria da esquerda brasileira, porém, não está somente no eleitor que se afasta e sim na dificuldade de encontrar alguém que possa mantê-la sem pedir licença ao seu proprietário. O PT construiu uma coalizão, mas frequentemente se comporta como se os aliados fossem hóspedes de uma casa cuja escritura pertence ao partido. Distribui-se o espaço, desde que ninguém se esqueça de quem manda. É uma concepção curiosa de aliança: todos participam, contanto que a participação não crie qualquer desconforto ao anfitrião.
Em 2030, sem Lula na cabeça ou na retaguarda da chapa presidencial, a esquerda terá de enfrentar uma pergunta que vem adiando há décadas: quem existe politicamente além de Lula?
Vários nomes foram obrigados, em diferentes circunstâncias, a gravitar em torno da liderança lulista. Alguns se afastaram, outros permaneceram, mas nenhum conseguiu alterar a lei da gravidade. Lula tornou-se, na esquerda brasileira, um buraco negro político: atrai forças, concentra luzes e, ao mesmo tempo, dificulta a sobrevivência de astros concorrentes.
O bolsonarismo pode estar indo pelo mesmo caminho. Descobriu lideranças, mas insiste em investir n’algumas que são simples extensões de um sobrenome. Não basta substituir um chefe por seu herdeiro de sangue, como se a política fosse um cartório de registro de propriedades.
O que ocorre me lembra Machado de Assis. Se o bruxo do Comes Velho, como a ele se refere o jornalista e professor Vicente Serejo, convocasse os habitantes da sua Sereníssima República para estudar as instituições nacionais, talvez descobrisse que nossos partidos inventaram uma nova forma de representação: o eleitor escolhe o presidente, o presidente escolhe o sucessor e o sucessor, se houver, precisa demonstrar que não pretende sucedê-lo.
Um dos maiores defeitos de um líder não é permanecer tempo demais no poder, mas convencer-se de que, sem ele, nada poderá existir. Para se manter forte, é necessário criar, forjar e ascender novas lideranças. A esquerda precisa aprender a sobreviver sem Lula; a direita, a existir sem Bolsonaro. Ambas terão de compreender que liderar não é impedir o nascimento de sucessores.
A democracia é uma senhora pouco sentimental. Ela costuma responder a tal pretensão de maneira bastante desagradável: vai embora o homem, fica o vazio. E o eleitor, que nunca recebeu procuração para ser eternamente fiel, acaba procurando outro endereço.
Historiador
