Brasil e Estados Unidos vão retomar as negociações sobre o tarifaço imposto pelo governo de Donald Trump após uma conversa telefônica entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump. O contato, realizado nesta sexta-feira (21), durou cerca de 1h20 e abriu um novo canal de diálogo entre os dois governos.
Segundo o governo brasileiro, Lula defendeu a retomada das negociações e classificou como “infundadas” as justificativas apresentadas pelos Estados Unidos para a aplicação das tarifas. A ligação foi descrita pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência como amistosa e cordial.
Durante a conversa, os presidentes trataram das novas tarifas norte-americanas sobre produtos brasileiros, do combate ao crime organizado e de conflitos internacionais. Lula também defendeu a manutenção dos Estados Unidos como um dos principais parceiros comerciais do Brasil.
Negociações serão retomadas
O primeiro movimento concreto após a ligação ocorreu ainda nesta sexta-feira. O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, recebeu contato de Jamieson Greer, representante comercial dos Estados Unidos, para marcar uma nova reunião entre os negociadores.
De acordo com nota oficial do MDIC, o ministro e representantes do Ministério das Relações Exteriores deverão se reunir na próxima semana com integrantes do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR). A data ainda será definida pelas equipes dos dois países.
Para o governo brasileiro, a iniciativa representa uma oportunidade de reabrir as negociações e buscar uma solução para o impasse comercial. O MDIC afirmou que a conversa entre Lula e Trump e a sinalização pela retomada das tratativas “abrem um novo canal de diálogo” e reforçam a possibilidade de uma solução negociada.
Quais são as tarifas
O Brasil foi atingido por duas tarifas aplicadas pelo governo norte-americano: uma alíquota específica de 25% e outra de 12,5%, que também alcança outros países. As taxas são cumulativas, embora existam exceções para determinados produtos da pauta de exportações brasileiras.
O governo brasileiro contesta as justificativas apresentadas pelos Estados Unidos para a adoção das medidas. Entre os temas citados estão desmatamento, acordos preferenciais de comércio, propriedade intelectual, combate à corrupção, Pix, etanol e importações de produtos relacionados a trabalho forçado.
A estratégia brasileira tem sido manter o diálogo com Washington enquanto avalia mecanismos de proteção para setores afetados pelas medidas.
Lula diz que tarifas prejudicam os dois países
Na conversa, Lula argumentou que a manutenção das tarifas produz efeitos negativos tanto para o Brasil quanto para os Estados Unidos. Segundo a comunicação oficial do governo, o presidente defendeu que os dois países continuem trabalhando para preservar relações comerciais fortes.
Trump concordou com a necessidade de manter vínculos comerciais entre Brasil e Estados Unidos e propôs que as equipes dos dois governos voltassem a se reunir o mais rapidamente possível.
O governo brasileiro considera a retomada das conversas um avanço depois de semanas de tensão provocadas pelas medidas comerciais de Washington.
Processo de reciprocidade
Na semana passada, o governo brasileiro informou aos Estados Unidos o início do processo de reciprocidade em resposta às tarifas aplicadas sobre produtos nacionais. A medida representa uma das alternativas avaliadas pelo Brasil diante das barreiras comerciais norte-americanas.
Apesar disso, a prioridade declarada pelo governo continua sendo a negociação. A retomada do diálogo entre Lula e Trump ocorreu justamente após o início desse processo, criando uma nova oportunidade para que os dois países busquem uma saída negociada.
O histórico recente mostra que o Brasil já vinha mantendo conversas técnicas com representantes do governo norte-americano. Em julho, o MDIC informou que equipes brasileiras e americanas haviam discutido temas como comércio digital, tarifas preferenciais, combate à corrupção, propriedade intelectual, etanol e desmatamento ilegal.
Combate ao crime organizado
Outro tema tratado pelos presidentes foi a cooperação no combate ao crime organizado internacional. Lula apresentou as ações brasileiras para asfixiar financeiramente organizações criminosas e manifestou interesse em ampliar a cooperação com os Estados Unidos.
O presidente brasileiro, entretanto, rejeitou a possibilidade de classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. A avaliação do governo é que o combate às organizações criminosas deve ocorrer por meio de cooperação policial, financeira e de inteligência.
Eleições também foram mencionadas
A conversa também teve uma breve referência ao processo eleitoral brasileiro. Segundo relatos sobre a ligação, Trump perguntou de maneira informal sobre a situação política no Brasil. Lula respondeu que o sistema eleitoral brasileiro é confiável e que há diversos candidatos na disputa.
O tema, porém, não avançou para uma discussão sobre eventual reconhecimento do resultado das eleições.
O que acontece agora
A próxima etapa será a reunião entre os negociadores dos dois países. O encontro deverá colocar novamente na mesa as questões comerciais que levaram à aplicação das tarifas e buscar alternativas para reduzir os impactos sobre as exportações brasileiras.
O governo brasileiro considera positiva a retomada do contato direto entre Lula e Trump, mas ainda não existe acordo para suspender ou reduzir as tarifas. Qualquer alteração dependerá do resultado das negociações entre as equipes técnicas e comerciais dos dois países.
Fonte: O Globo

