Por Elane Nascimento
A violência contra a mulher nem sempre começa com uma agressão física. Muitas vezes, ela surge de forma silenciosa, por meio de comportamentos que acabam sendo naturalizados dentro dos relacionamentos, como controle excessivo, humilhações, ameaças e restrição da liberdade.
Durante o Agosto Lilás, campanha de conscientização e enfrentamento à violência contra a mulher, a psicóloga Camilla Maia alerta para a importância do acolhimento adequado e da escuta qualificada para ajudar vítimas a romperem esse ciclo.
Segundo a profissional, o primeiro contato com a mulher vítima de violência precisa ser conduzido com sensibilidade, respeito e sem julgamentos. Para ela, é fundamental compreender a realidade de cada pessoa e oferecer suporte de acordo com suas necessidades.
“Enquanto psicóloga, nesse primeiro atendimento, meu papel é oferecer uma escuta qualificada, acolher essa mulher sem julgamentos e compreender os impactos que essa vivência está trazendo para sua vida emocional. A partir disso, junto com a equipe, pensamos nos caminhos que podem oferecer maior suporte para ela”, afirmou.
Atendimento respeita o tempo de cada mulher
Camilla Maia explica que mulheres vítimas de violência podem chegar ao atendimento fragilizadas, com medo, insegurança, sentimento de culpa ou até mesmo sem conseguir identificar que estão vivendo uma situação de violência.
“Nós não partimos de uma postura de julgamento e também não dizemos simplesmente o que ela deve fazer. O nosso papel é acolher, escutar, orientar e fortalecer essa mulher, respeitando sua autonomia e seu tempo”, esclareceu.
A psicóloga ressalta que cada história precisa ser analisada individualmente, já que fatores emocionais, familiares, sociais e econômicos podem influenciar a decisão de buscar ajuda.
“Cada mulher tem uma história e uma forma diferente de vivenciar e reconhecer a violência. A faixa etária pode estar relacionada a algumas barreiras específicas para a busca de ajuda, mas não podemos dizer que uma mulher é mais ou menos resistente ao atendimento simplesmente por pertencer a uma determinada faixa etária”, pontuou.
Segundo ela, em algumas situações, comportamentos abusivos são percebidos como algo comum dentro da relação, dificultando o reconhecimento da violência.
“Em alguns casos, principalmente quando determinados comportamentos foram naturalizados ao longo da vida, pode existir uma dificuldade maior para reconhecer que aquilo também é uma forma de violência ou até mesmo para buscar ajuda”, afirmou.
A violência pode causar impactos profundos na saúde emocional da mulher, afetando a autoestima, a confiança e a capacidade de tomar decisões. Nesse processo, o acompanhamento psicológico pode contribuir para a reconstrução da identidade e da autonomia.
“A psicoterapia pode ter um papel muito importante nesse processo de reconstrução. A violência pode afetar profundamente a autoestima, a autonomia, a confiança e a forma como essa mulher se percebe e toma decisões”, explicou. De acordo com Camilla Maia, o processo terapêutico auxilia na elaboração das experiências vividas e no fortalecimento emocional.
“O processo terapêutico pode ajudá-la a elaborar essas experiências, trabalhar as consequências emocionais da violência, fortalecer sua autoestima e autonomia e reconstruir projetos de vida”, comentou.
Sinais de violência podem estar escondidos em atitudes consideradas normais

A psicóloga alerta que nem sempre a violência aparece de forma evidente. Muitas vezes, ela começa com atitudes que são interpretadas como cuidado ou preocupação, mas que podem representar controle e abuso.
“Às vezes, a violência não começa com uma agressão física. Ela pode aparecer em comportamentos que foram naturalizados dentro dos relacionamentos”, afirmou.
Entre os sinais que merecem atenção estão o ciúme excessivo, o controle sobre amizades, roupas, celular e senhas, a tentativa de impedir que a mulher trabalhe ou tenha autonomia financeira, além de humilhações, ameaças e desvalorização.
“Um sinal importante, quando estamos falando de uma possível situação de violência, é perceber se aquela relação está fazendo a mulher abrir mão da própria liberdade para evitar a reação do parceiro”, esclareceu.
A profissional reforça que a forma como a mulher se sente dentro da relação deve ser observada.
“Quando ela começa a pensar muito antes de falar ou agir porque tem medo da reação dele, quando vai se afastando de pessoas importantes ou deixa de fazer coisas que gosta para evitar conflitos, são situações que merecem bastante atenção”, alertou.
Rede de apoio é fundamental para romper o ciclo
Familiares e amigos têm papel importante no processo de busca por ajuda, mas esse apoio precisa acontecer com acolhimento e respeito. Para a psicóloga, julgamentos e cobranças podem afastar ainda mais a vítima.
“O primeiro passo é acolher sem julgamento. Muitas vezes, a mulher já está vivendo sentimentos de culpa, vergonha, medo e insegurança”, afirmou.
Segundo Camilla Maia, a vítima precisa encontrar pessoas com quem se sinta segura para compartilhar o que está vivendo.
“Ter alguém que escute, que respeite seu tempo e que demonstre disponibilidade pode fazer muita diferença”, comentou.
A orientação é que familiares e amigos ofereçam apoio, ajudem a mulher a conhecer os caminhos disponíveis e respeitem sua autonomia.
“A família e os amigos podem oferecer apoio, ajudá-la a compreender as possibilidades e a acessar a rede de proteção, sempre respeitando suas escolhas e considerando a situação de cada caso”, esclareceu.
No Instituto Social de Saúde e Educação do Rio Grande do Norte (ISSERN), localizado na Rua Paulo Pinto de Abreu, 1997, Lagoa Nova, esse acolhimento é realizado por uma equipe multidisciplinar formada por Coordenação, Psicologia, Serviço Social e Orientação Jurídica. O atendimento começa desde a chegada da mulher ao serviço, com uma abordagem humanizada e sem julgamentos, buscando compreender suas necessidades e oferecer suporte emocional, social e, quando necessário, orientações e encaminhamentos para a rede de proteção. O objetivo é contribuir para o fortalecimento emocional, a autonomia e a reconstrução da vida dessas mulheres.

