Por Elane Nascimento
Pagar contas, marcar consultas, acessar serviços públicos e realizar transações bancárias. Atividades que passaram a ser resolvidas pelo celular prometem praticidade, mas têm se tornado motivo de ansiedade e frustração para muitos idosos. A dificuldade em acompanhar as constantes mudanças dos aplicativos, o medo de golpes e a falta de familiaridade com as ferramentas digitais acabam criando uma nova forma de exclusão: a digital.
A aposentada Maria de Fátima, de 72 anos, relata que, apesar do esforço para aprender a utilizar os aplicativos, as frequentes atualizações dificultam o processo de adaptação.
“Eu acho difícil, acho complicado. Eles estão mudando muito, estão sempre configurando. Quando a gente vai começando a aprender, muda tudo. Eu sempre tenho muita dificuldade, principalmente quando preciso resolver qualquer coisa”, conta.
Neste mês, ela precisou recorrer à ajuda da filha até mesmo para pagar as contas. “Ela fez tudo para mim porque eu não conseguia. Não estava abrindo o código de barras”, relata.
Além das mudanças nas plataformas, a instabilidade dos sistemas também aumenta a sensação de impotência. Maria diz que já chegou a pensar em desistir de tentar resolver sozinha as pendências.
“Eu sou muito resolutiva, gosto de resolver minhas coisas. Quando não consigo, fico angustiada, me acho impotente, fracassada. Me dá dor de cabeça insistir muito. É muito frustrante”, afirma.
O psicólogo Renato Rosa explica que a rápida digitalização dos serviços não foi acompanhada pelo mesmo ritmo de adaptação da população idosa.
“Essa população não cresceu utilizando smartphones, aplicativos e serviços digitais. Quando atividades que antes eram resolvidas presencialmente passam a ser feitas exclusivamente por aplicativos, isso pode gerar sentimento de insegurança, ansiedade e frustração”, explica.
Segundo ele, outro fator que pesa é o receio constante de cometer erros ou ser vítima de golpes virtuais.
“Os idosos têm medo de clicar no lugar errado, perder dinheiro ou fornecer informações indevidas. Esse medo aumenta a ansiedade e faz com que muitos evitem ainda mais o contato com a tecnologia”, afirma.
Francisco Fernandes, de 67 anos, confirma essa preocupação. Sempre que precisa utilizar algum serviço digital, procura ajuda.
“Sempre procuro auxílio porque temo mexer naquilo e fazer alguma coisa errada que me traga prejuízo”, diz.
Ele admite sentir até inveja da facilidade com que outras pessoas utilizam os aplicativos.
“Eu vejo as pessoas fazendo tudo muito rápido. Eu não tenho essa habilidade”, comenta.
Para Renato Rosa, o apoio dos familiares é importante, mas deve ser oferecido de forma que incentive a autonomia do idoso.
“Essa ajuda precisa ser feita com paciência e, principalmente, sem infantilizar o idoso. O ideal é acompanhar e permitir que ele próprio realize cada etapa no seu ritmo de aprendizagem”, orienta.
O psicólogo recomenda evitar frases como “isso é fácil”, “eu já ensinei” ou “como você ainda não aprendeu?”, pois esse tipo de comportamento reforça sentimentos de incapacidade.
Na avaliação do especialista, a inclusão digital deve ir além do simples acesso aos aparelhos eletrônicos.
“A inclusão digital precisa ser um processo gradual, seguro e acolhedor. Quando isso não acontece, a digitalização dos serviços acaba produzindo exclusão social e sofrimento para muitos idosos”, afirma.
Projeto da UFRN oferece cursos gratuitos
Como forma de reduzir essa barreira, o Instituto Metrópole Digital (IMD), da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), mantém o Projeto de Extensão de Inclusão Digital para Pessoas Idosas (ProEIDI), voltado para pessoas com mais de 60 anos.
A coordenadora do projeto, professora Isabel Dillmann Nunes, destaca que dominar as ferramentas digitais deixou de ser apenas uma questão de conforto e passou a ser uma necessidade.
“A tecnologia já faz parte do nosso dia a dia. Pessoas que não conseguem utilizá-la ficam à mercê da disponibilidade e da honestidade de outras pessoas. A exclusão digital gera também uma exclusão social”, afirma.
O curso de Smartphone Básico ensina configurações do celular, uso de QR Code, acesso à internet e aplicativos como o WhatsApp. Já o curso de Computador aborda utilização de teclado e mouse, manipulação de arquivos, navegação na internet e envio de e-mails.
Neste ano, o projeto atendeu 180 idosos no primeiro semestre e deverá oferecer outras 180 vagas no segundo semestre de 2026. Em setembro, o IMD pretende convocar os candidatos que permaneceram na lista de espera da seleção realizada no início do ano.

