Três anos e cinco meses depois de receber o primeiro paciente com suspeita de Covid-19 no RN, no dia 12 de março de 2020, o Hospital Giselda Trigueiro (HGT) comemora a alta do último paciente internado em decorrência da doença. O anúncio feito pelo diretor-geral, o médico André Prudente, marca um novo momento na saúde pública do Rio Grande do Norte.
“O Giselda Trigueiro foi o primeiro hospital a receber casos da doença e desde então a gente não tinha ficado nem um dia sequer sem pacientes internados, então, isso nos traz uma alegria muito grande, esperança de um futuro bem melhor. Ficar sem nenhum paciente é uma alegria imensa para a gente devido a todo o esforço, todo trabalho que nós tivemos, inclusive recordando das pessoas que vimos morrer, das famílias que perderam seus entes queridos, muitas vezes jovens, pessoas com toda uma vida pela frente e a pandemia ceifou. Então, para a gente é uma alegria, mas sabendo que a doença não acabou e que possivelmente ainda receberemos outros casos para internação, mas realmente é bastante simbólico ficar pelo menos um dia sem novos casos de Covid -19”.
Desde o primeiro paciente, o HGT recebeu 2.503 pessoas em estado crítico devido à Covid-19: “Lembrando que o nosso hospital é de referência, então, os casos graves eram drenados para cá, os casos mais leves acabavam ficando em outros hospitais”.
O último paciente a deixar a unidade hospitalar foi um idoso de 73 anos: “Ele apresentava uma comorbidade – doença cardíaca – e estava com o esquema vacinal incompleto. Foi internado em uma situação considerada grave, onde precisou de ventilação mecânica, mas conseguiu se recuperar bem e retornar para o convívio familiar”, explicou o médico infectologista e diretor-geral do hospital, André Prudente.
A Secretaria de Estado da Saúde Pública do Rio Grande do Norte confirmou ainda que, além do HGT, em toda rede pública não há registro de mais nenhum paciente aguardando por leito e com a altar hospitalar deste paciente, não se tem mais internações provocadas pelo vírus da Covid-19. A secretária Lyane Ramalho comemorou e reforçou a importância da vacinação para que este momento se tornasse realidade: “Hoje é dia de alegria! Hoje é de dia gratidão aos muitos trabalhadores que estão e estiveram no enfrentamento da COVID-19. Lembremos do período que não se tinha vacina no nosso estado, em que criamos o RN+Vacina para poder distribuir igualitariamente as vacinas e hoje não falta vacina para ninguém. E hoje vemos como as vacinas salvam vidas. ” A Secretaria de Saúde de Natal, por meio de nota, também confirmou que na capital não tem nenhum caso de internação por Covid-19.
Infectologista relembra os desafios e o medo que acompanhava os profissionais da saúde no enfrentamento à Covid
Como diretor de uma unidade referência em infectologia, o médico André Prudente viveu muito intensamente cada fase da pandemia. Para garantir a saúde dos pacientes, os profissionais tiveram que encarar muitas incertezas e angustias: “Recebemos o primeiro paciente com Covid-19 em março de 2020, são praticamente três anos e meio em que a gente ficou todos os dias com pelo menos uma pessoa internada com Covid-19. Foi um período sem comparação em toda a história da nossa geração, foi a maior crise sanitária da nossa época. Nós recebemos muita pressão, tivemos muita angústia, uma doença desconhecida que matava muita gente”.
Dr. André lembra que, por vezes, o medo foi um difícil adversário a ser superado: “o próprio setor de saúde tinha medo de lidar com essa doença, mas tivemos que enfrentar o medo para poder atender a população, foi um período bastante complicado também por diversas questões políticas que tudo que acontecia durante a pandemia tinha um grupo a favor e um grupo contra e isso muito mais relacionado à política do que a ciência e tudo isso refletia em nós – profissionais da saúde”.
O excesso de trabalho e a rotina intensa sem ter folgas também foram marcos desse período, como retoma o diretor: “A sobrecarga de trabalho foi imensa, eu por exemplo fiquei dois anos trabalhando de domingo a domingo de manhã, à tarde e um bom pedaço da noite, sem tirar um dia sequer de folga, o que levou muita gente a desenvolver estresse por conta do trabalho, depressão e doenças psiquiátricas de uma maneira geral, principalmente a síndrome de Burnout que é o esgotamento físico e mental por conta do excesso de trabalho”.

