Por Wagner Guerra
Em 19 de maio de 2018, falecia em Natal, em virtude de complicações causadas pelo diabetes, o delegado aposentado Maurílio Pinto de Medeiros. Conhecido por muitos como “Xerife” — título que ganhou, após receber uma homenagem no Texas (EUA) — ele deixou para filhos, netos e atém bisnetos um legado nobre de honestidade. Hoje, já na quarta geração, a família Medeiros conta com 13 integrantes que seguem a carreira policial.
Sua filha mais velha, Ana Cláudia, de 61 anos, decidiu se aposentar do serviço público na Prefeitura do Natal, logo após a morte do pai. A medida visava dedicar mais tempo aos cuidados com a mãe, Dona Clarissa Medeiros, que veio a falecer em 2020. Com a partida de Maurílio, o que ela mais sentiu foi a redução dos encontros familiares frequentes na casa dos pais, no bairro de Capim Macio, na Zona Sul da capital. Depois da perda da matriarca, essas reuniões se tornaram ainda mais raras.
A mesma sensação de distanciamento é compartilhada por sua irmã, Adriana Medeiros, de 59 anos, aposentada há nove anos da Polícia. Atualmente, ela cuida da vida pessoal, dos filhos e dos quatro netos. “Sinto muita falta das histórias sobre casos policiais que papai contava. Mesmo aposentado, permanecia muito ativo e sempre bem informado sobre tudo. Me entristece saber que meus netos não chegaram a conhecê-lo; ele estava tão animado com a chegada do primeiro bisneto menino — até então, só havia uma bisneta. Infelizmente, o menino nasceu poucos dias depois que ele se foi”, relembrou Adriana.


Após a venda da antiga residência da família, Ana Cláudia ficou responsável por todo o acervo particular do pai: fotografias, objetos pessoais e reportagens que registravam sua trajetória. No início, conseguiu manter tudo intacto em sua própria casa, como se tivesse transferido o escritório dele para lá. Hoje, ela divide o tempo entre os cuidados com as filhas e netos, além de viagens frequentes. Embora Maurílio sempre tenha insistido para que ela também seguisse a carreira policial, escolheu outro caminho. “Polícia nunca foi a minha praia. Tenho ótimas lembranças das nossas discussões, pois eu era a filha que mais discordava dele e defendia minhas ideias com firmeza. Mesmo assim, nossa ligação era de muito carinho e amor. Acho que era comigo que ele tinha ‘maior chamego’”, brinca, sorrindo.
Para Cláudia, a dedicação absoluta que o pai devotou à família e à profissão fez dele um homem respeitado e admirado por todos. “Na polícia, ele sempre defendia a união da equipe e não cansava de cobrar dos governantes mais investimentos para a categoria, especialmente na modernização de equipamentos, armas e viaturas”.
Adriana complementa, destacando os valores herdados: honestidade, disciplina, dedicação e amor — tanto na vida pessoal quanto na profissão que se escolhe. Uma lembrança que sempre lhe vem à mente é ver o pai chorar quando algum policial da sua equipe era ferido gravemente em serviço. “Isso mostrava o quanto ele se entregava de corpo e alma à profissão. Ele sempre dizia que o trabalho enobrece o ser humano e que quem faz o que gosta, não sofre com estresse”, lembra.

Facções Criminosas
Maurílio Pinto de Medeiros Júnior, que também se aposentou aos 53 anos como agente da Polícia Civil, exalta a postura firme do pai no combate ao crime organizado. “Ele acompanhava o crescimento das facções criminosas no país, especialmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, e garantia que, enquanto estivesse na ativa, esses grupos nunca se instalariam no Rio Grande do Norte. Durante os muitos anos em que comandou a Polícia Civil, jamais se deixou corromper.
Quando morreu, deixou apenas um Honda Civic, uma casa e um exemplo enorme de integridade”, ressalta.
Candidato
Mesmo com toda a intensidade da carreira policial, Maurílio resolveu, no final dos anos 1980, se candidatar ao cargo de deputado estadual. Com a campanha sob o slogan “O Xerife do Povo”, não obteve sucesso nas urnas, mas também não se abalou com o resultado: “Não esperávamos a derrota, pois sua votação foi muito expressiva aqui na capital. Se ele tivesse conseguido levar sua campanha para o interior do Estado, certamente teria vencido. Mas, no fundo, talvez não fosse feliz se tivesse sido eleito, pois não tinha vocação nenhuma para a política. Talvez por isso ele tenha se empenhado menos na campanha”, avalia Adriana.
Júnior concorda que o pai não teria se saído bem na como parlamentar, principalmente porque ele reprimia a ideia de “ficar devendo favores”. “Muitas pessoas diziam que bastava ele pedir um cargo ou uma indicação para ser Secretário de Segurança. Mas ele sempre respondia, sem hesitar, que jamais iria pedir nada a ninguém — fosse deputado, prefeito ou governador”, conta o filho caçula.
Como forma de reconhecer toda a sua trajetória e trabalho, foi instituída, por meio do Decreto Legislativo nº 453/2018, a Comenda Maurílio Pinto de Medeiros. A honraria tem como objetivo homenagear profissionais que se destacam por serviços relevantes prestados à segurança pública no estado.
Histórico

Nascido na cidade de Pau dos Ferros em 24 de Agosto de 1941, Maurilio Pinto de Medeiros entrou para a polícia em 1º de Julho de 1964. Filho do Coronel Bento Manuel de Medeiros, Maurílio herdou do pai a dedicação à Segurança Pública. Do seu início como motorista de viatura aos 16 anos, na cidade de Patu, antes mesmo de se tornar uma agente; depois se formando bacharel em Direito e passando em 1975 a exercer o cargo de coordenador de Polícia da Capital, se destacou na realização de operações até então inéditas na história da polícia potiguar. Uma das mais célebres foi o caso do assalto ao Banco do Nordeste de Assu, quando pela primeira vez no Estado houve uma perseguição aérea que terminou com a prisão do foragido em Belém/PA.
A trajetória de vida de Maurílio Pinto de Medeiros foi sempre marcada com êxito no seu trabalho de investigar e elucidar crimes diversos, desde assassinatos a sequestros. Apesar do caráter operacional, o Xerife atuou em funções administrativas de subsecretaria e secretaria adjunta de Segurança Pública, onde fazia questão de comandar e acompanhar, principalmente, as missões de captura de criminosos considerados e alta periculosidade. Ele aposentou em 2011, deixando a titularidade na Delegacia Especializada de Capturas (Decap). Foram 47 anos de serviços prestados ao Rio Grande do Norte.

