A Arquidiocese de Natal tem sua história marcada por uma presença missionária que remonta aos primeiros tempos da colonização do Brasil. A atuação dos jesuítas junto aos povos originários, somada a episódios emblemáticos como os martírios de Cunhaú e Uruaçu, ajudou a moldar uma identidade religiosa profundamente enraizada na fé e na cultura do Rio Grande do Norte. Ao longo dos séculos, essa trajetória também foi fortalecida pela devoção popular, especialmente à Nossa Senhora da Apresentação, padroeira da capital.
Elevada à condição de Arquidiocese em 1952, a Igreja de Natal expandiu sua atuação ao longo das décadas, acompanhando o crescimento populacional e os desafios sociais do Rio Grande do Norte. Com mais de uma centena de paróquias e presença em grande parte do território estadual, a instituição segue desempenhando papel central na vida religiosa e comunitária.
Após mais de três décadas sem a presença de um bispo auxiliar, a Arquidiocese de Natal passou a contar novamente com esse reforço em sua estrutura. A posse do novo bispo auxiliar, Dom José Sílvio de Brito, ocorreu no último 1º de maio, após sua ordenação episcopal na Catedral Metropolitana, em celebração presidida pelo arcebispo Dom João Santos Cardoso e cocelebrada por arcebispos e bispos eméritos.
Natural de Cruzeta, na região do Seridó, Dom Sílvio nasceu em 26 de dezembro de 1970 e iniciou sua caminhada vocacional no Seminário de São Pedro, em Natal, em 1993. Ordenado sacerdote em 30 de junho de 2000, por Dom Heitor de Araújo Sales, construiu uma trajetória marcada pela atuação pastoral em diversas paróquias da capital e da região metropolitana, além de funções estratégicas na administração arquidiocesana, como coordenador de zonal, mestre de cerimônias, coordenador do Setor de Leigos, vigário episcopal para o clero e vigário geral. Com mais de 25 anos de ministério, foi escolhido pelo Papa Leão XIV como bispo auxiliar da Arquidiocese de Natal em 12 de fevereiro de 2026.
A nomeação inaugura um novo momento para a Arquidiocese, ampliando a capacidade de acompanhamento pastoral e administrativo. Em entrevista para o Diário do RN, o arcebispo Dom João Cardoso detalhou os impactos dessa mudança e os rumos da Igreja local.
Após mais de três décadas sem bispo auxiliar na Arquidiocese de Natal, o que motivou o senhor a solicitar essa nomeação após assumir em outubro de 2023?
Dom João Cardoso: De fato, a Arquidiocese de Natal permaneceu por mais de três décadas sem bispo auxiliar. Em sua história, contou com dois auxiliares, Dom Eugênio de Araújo Sales e Dom Antônio Soares Costa, e agora acolhe o terceiro, Dom José Silvio de Brito. A motivação principal foi a necessidade de contar com um colaborador mais direto e estável no exercício do ministério episcopal. Trata-se de uma Arquidiocese extensa, que abrange 89 municípios, cerca de 125 paróquias e mais de dois terços da população do Estado. Diante desse crescimento, a presença de um bispo auxiliar permitirá maior proximidade pastoral, melhor acompanhamento do clero, das comunidades e mais agilidade na resposta aos desafios da missão evangelizadora.
Qual a principal diferença, na prática, entre ter um bispo auxiliar e o modelo anterior mais descentralizado com os vigários episcopais?
Dom João: Os vicariatos episcopais continuarão exercendo um papel fundamental, com seus vigários territoriais e setoriais. Esse modelo permanece válido e necessário. A diferença é que o bispo auxiliar participa de forma mais direta e estável do ministério episcopal, colaborando no governo da Arquidiocese em comunhão com o arcebispo, conforme o Direito Canônico. No caso concreto, o bispo auxiliar também assumirá a função de Vigário Geral ad territorium no território da futura Diocese de Santa Cruz, contribuindo diretamente na sua organização pastoral e estrutural. Trata-se, portanto, de uma colaboração mais abrangente e integrada.
Como funciona a divisão de responsabilidades entre o senhor, o bispo auxiliar e os vigários episcopais nas diferentes regiões?
Dom João: O bispo auxiliar, os vigários gerais e os vigários episcopais são colaboradores diretos do arcebispo e participam do governo pastoral da Arquidiocese. Os vigários episcopais têm a missão de coordenar regiões ou áreas específicas da ação pastoral, garantindo a unidade e a organicidade da evangelização. Os vigários gerais exercem jurisdição em toda a Arquidiocese, auxiliando no governo ordinário. Já o bispo auxiliar coopera diretamente com o arcebispo em tarefas de maior abrangência e, no caso atual, assume responsabilidade específica sobre o território da futura Diocese de Santa Cruz, com potestade executiva vicária, sempre em comunhão hierárquica com o arcebispo. Tudo isso se realiza preservando a unidade do governo pastoral.
Quais critérios foram levados em consideração na escolha do Monsenhor José Silvio de Brito como bispo auxiliar?
Dom João: Como é próprio da Igreja, foi apresentada à Santa Sé, por meio da Nunciatura Apostólica, uma lista de presbíteros considerados idôneos para o ministério episcopal. Foram levados em conta critérios eclesiais, pastorais, espirituais e missionários, além da capacidade de governo, equilíbrio humano e comunhão com a Igreja. A Nunciatura realizou o processo de consulta e discernimento e apresentou ao Santo Padre uma lista tríplice, da qual ele escolheu o nome do Monsenhor José Silvio de Brito.
Em dois anos e meio à frente da Arquidiocese de Natal, quais foram os principais avanços e desafios administrativos da sua gestão até aqui?
Dom João: Tivemos avanços significativos. Destaco a criação do Fundo Solidário para a manutenção do clero, garantindo a justa côngrua aos presbíteros e assegurando assistência pastoral, sobretudo nas paróquias mais carentes. Implantamos também o Plano Solidário para Aquisição de Veículos, fortalecendo a mobilidade pastoral. Ampliamos a organização dos vicariatos episcopais, demos continuidade à causa de beatificação do Padre João Maria, atualmente em fase romana, e iniciamos o processo de criação de duas novas dioceses no Estado.
No campo formativo, reabrimos a Casa Sacerdotal Dom Nivaldo Monte em Emaús, restauramos a casa do propedêutico e reorganizamos os cursos de Filosofia e Teologia, fortalecendo a formação integral dos futuros sacerdotes. Também renovamos a programação da Rádio Rural com perfil religioso e evangelizador. Entre os desafios, destacam-se as transformações culturais, a realidade urbana, a mudança no perfil religioso da sociedade e a atenção às pessoas em situação de vulnerabilidade. Esses desafios estão sendo enfrentados à luz do Sínodo Arquidiocesano e do novo Plano de Pastoral.
Quais são as prioridades e projetos para os próximos anos, e de que forma a chegada de um bispo auxiliar tem contribuído para esses planos?
Dom João: As prioridades estão centradas na implementação do Plano de Pastoral 2026–2029, estruturado em três eixos: missão e evangelização, Igreja e sinodalidade, e ação profético-transformadora, com ênfase na caridade e no compromisso social. Também estamos empenhados na realização das assembleias sinodais, na elaboração e publicação do novo Diretório Arquidiocesano, litúrgico, sacramental, pastoral e administrativo, e na sua efetiva aplicação. Outro projeto importante é a construção de uma casa de apoio para presbíteros idosos e enfermos. Nesse contexto, a presença do bispo auxiliar tem sido decisiva, pois permite maior proximidade com as comunidades, melhor acompanhamento do clero e maior eficácia na organização pastoral, especialmente no processo de preparação da futura Diocese de Santa Cruz.
Seguimos, assim, em atitude de escuta ao Espírito Santo, discernindo os sinais dos tempos e buscando responder com fidelidade à missão que nos foi confiada.
“A presença de um bispo auxiliar permitirá maior proximidade pastoral, melhor acompanhamento do clero, das comunidades e mais agilidade na resposta aos desafios da missão evangelizadora”

