Por Elane Nascimento
“É maravilhoso você abrir os olhos e enxergar. É quando você descobre que realmente tudo que você viu até então não era nada.” A frase de Rosilene Moreira Bezerra Fernandes, de 43 anos, resume a transformação vivida após um transplante de córnea. Durante 23 anos, ela acreditou que enxergar o mundo de forma turva era simplesmente a sua realidade. Só depois da cirurgia descobriu que existia outra forma de ver a vida.
A história ganha ainda mais significado durante o Setembro Verde, campanha dedicada à conscientização sobre a importância da doação de órgãos e tecidos. Celebrado em torno do Dia Nacional da Doação de Órgãos, em 27 de setembro, o movimento busca incentivar as pessoas a manifestarem, ainda em vida, o desejo de serem doadoras às suas famílias. Atualmente, mais de 49,5 mil brasileiros aguardam por um transplante, segundo o Ministério da Saúde.
No Rio Grande do Norte, a maior fila é justamente para transplante de córnea. Dados da Central de Transplantes apontam que 612 pessoas aguardam por uma córnea compatível. Outras 372 esperam por um rim e 33 por medula óssea.
Rosilene conta que os problemas com a visão começaram ainda na infância.
“Aos seis anos de idade, quando eu fazia a alfabetização, as crianças nessa fase escrevem do quadro para o caderno e a minha professora e a minha mãe notaram que faltavam letras no que eu estava escrevendo. Então, procurando o oftalmologista, ele disse que eu precisava usar óculos e que eu não podia tirar em nenhum momento, só para tomar banho e para dormir, e que ficasse acompanhando. Então, ao longo dos anos, eu fui sempre no oftalmologista, renovando, e sempre a lente, o grau ficava mais alto, sempre mais alto, e mesmo assim eu continuava cada vez mais enxergando mais embaçado”, recordou.
A mãe dela, Elionilce Moreira Bezerra, lembra que os primeiros indícios surgiram antes mesmo da escola.
“Ela assistia televisão de muito perto e eu sempre disciplinava, dizendo que não era para assistir perto, que estragava a vista e ela dizia que não conseguia ver as pessoas direito. Mas quando ela começou a estudar, começou a fazer alfabetização, fui procurada pela professora, dizendo que ela dizia que não enxergava certas letras no quadro, e eu fui observar nos cadernos dela, e na verdade faltava sempre algumas letras. Então fui orientada pela professora para que eu procurasse um oftalmologista, e procuramos”, lembrou.
As consultas passaram a fazer parte da rotina da família. Apesar do acompanhamento constante, o diagnóstico definitivo só veio aos 18 anos.
“Fiz vários exames e bateu o diagnóstico que era ceratocone, e que de 10 anos a 15 anos para frente, eu precisaria fazer o transplante”, contou Rosilene.

O que é o ceratocone?
O médico oftalmologista e responsável técnico pelo Banco de Olhos do Hospital Universitário Onofre Lopes (Huol), Uchoandro Bezerra Costa Uchôa, explica que a doença provoca uma deformação progressiva da córnea.
“Quanto mais avançada for a doença, mais ela atrapalha a visão, dificultando ao paciente enxergar os objetos mesmo com o uso de óculos”, esclareceu.
Com a progressão do ceratocone, Rosilene passou a enfrentar dificuldades que interferiam diretamente em sua rotina.
“No trabalho, as fontes do computador sempre precisavam estar em negrito e em tamanho muito grande para que eu pudesse enxergar, mesmo assim era uma dificuldade, ainda estava muito embaçado. Eu também tinha dificuldade para enxergar o destino do ônibus. Então passava ônibus e eu não via, então eu chegava atrasada no trabalho. Já cheguei a correr risco de atropelamento várias vezes, buzinada de carro, porque eu não enxergava”, contou.
Em uma consulta de rotina, o oftalmologista que acompanhava Rosilene a encaminhou ao Banco de Olhos.
“Ele viu que um olho estava pior do que o outro, então eu precisava com urgência do primeiro transplante. E para isso, ele me inscreveu em duas filas de transplante, tanto no Rio Grande do Norte quanto em João Pessoa, na Paraíba, para ver qual dos dois chamaria primeiro. E quando foi em 2006, eu fui chamada pela primeira vez para realizar o transplante em João Pessoa”, comentou.
A cirurgia foi realizada com sucesso. Vinte e quatro horas depois, veio um dos momentos mais marcantes da sua vida.
“Com 24 horas após o transplante, quando tira o curativo, a sensação, quando você abre o olho e vê as cores muito nítidas, o rosto das pessoas com perfeição é, inclusive, uma confusão mental, porque é muita informação, dá uma dor de cabeça, mas é maravilhoso você abrir os olhos e enxergar, e ver o quanto você está enxergando, é quando você descobre que realmente tudo que você viu não era nada, porque você passa a enxergar com muita clareza”, recordou emocionada.
Para a mãe, aquele momento permanece inesquecível.
“Ela foi transplantada, e a minha felicidade foi enorme. Quando ela ainda com tampão, ela passou o dedo no curativo e disse: ‘mãe, eu estou vendo uma sombra, eu creio que eu vou ver bastante quando eu tirar o tampão’. E no outro dia, quando tiramos, ela esboçou um sorriso de felicidade, dizendo que estava vendo tudo. Isso para mim foi de uma alegria imensa, eu não sei nem transmitir como foi a minha felicidade, minha e do pai”, disse Elionilce.
Seis anos depois, Rosilene recebeu uma nova córnea para o outro olho. A segunda cirurgia foi realizada em Natal.
“Foi melhor ainda, porque aí agora eu já enxergava com clareza com os dois olhos”, disse.
Quando o transplante é necessário?
Apesar de ser uma das principais causas de transplante de córnea, o ceratocone nem sempre evolui para cirurgia.
“Ceratocone é uma doença que tem uma relação muito estreita com o esfregar dos olhos. Quanto mais cedo na vida o ceratocone aparece e quanto mais o paciente esfrega os olhos, mais o ceratocone pode evoluir e o paciente tem mais chance de necessitar de um transplante de córnea.
Importante salientar que a maior parte dos pacientes portadores de ceratocone não vai precisar de um transplante de córnea. Esse tipo de cirurgia só é indicada para os casos muito avançados, onde não existe outra opção terapêutica”, explicou o médico.
Segundo o especialista, o sucesso do procedimento depende de uma série de etapas.
“Eu considero não somente a cirurgia complexa, mas também todo o processo pré-operatório, desde a doação da córnea, a sua avaliação e também o acompanhamento pós-operatório. Todas as etapas do processo de doação/transplante são importantes para o sucesso cirúrgico”, esclareceu.
Para quem aguarda na fila, a ligação informando que existe um doador compatível representa muito mais do que uma oportunidade de cirurgia.
“Receber a ligação é como se você sentisse a esperança vindo. É uma mistura de sentimento, mas a felicidade de saber que existe uma luz no fim do túnel é muito grande. Então na hora a surpresa é muito grande, o choque é grande, você fica com medo, fica com receio, porque é uma coisa muito nova para você, mas a felicidade é muito grande e a gratidão também, pelas famílias que se sensibilizam. E em um momento de dor, ainda pensa, ainda tem empatia pelo próximo e doa os órgãos daquele seu ente tão querido para outra pessoa. Então eu só tenho a agradecer a quem fez isso por mim e, no que eu puder, quando for a minha vez, eu também quero ser doadora, porque é muito gratificante você saber que uma pessoa está enxergando melhor, o coração está batendo melhor, enfim, você pode trazer a vida de volta de uma forma saudável para a pessoa”, conclui Rosilene.

