A proposta de corte de quase R$ 200 bilhões nos gastos públicos anunciada pelo candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) pode provocar a perda de 2,2 milhões de postos de trabalho, reduzir em R$ 68,7 bilhões a massa salarial e comprometer aposentadorias e benefícios sociais. O alerta foi feito pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), em estudo apresentado pelo portal Opera Mundi neste sábado (24).
Segundo a reportagem, assinada pela jornalista Adriana Amâncio, o chamado “tesouraço” prevê uma redução expressiva das despesas federais durante os primeiros 18 meses de um eventual governo Flávio Bolsonaro. A simulação do Dieese indica que o ajuste pode retirar R$ 203,1 bilhões da atividade econômica brasileira já em 2027.
O economista Leonardo Horie, técnico do Dieese e autor do levantamento, explicou ao Opera Mundi que a análise foi elaborada com base em dados públicos do Tesouro Nacional e nas informações disponíveis sobre a proposta econômica do candidato.
De acordo com o especialista, o ajuste considerado na simulação alcança R$ 194 bilhões, o equivalente a aproximadamente 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB).
Aposentadorias, BPC e seguro-desemprego podem ser atingidos
Uma das principais preocupações apontadas pelo Dieese é a possibilidade de que os cortes atinjam despesas sociais protegidas pela Constituição Federal.
Ao Opera Mundi, Leonardo Horie afirmou que, caso o governo não reduza incentivos e subsídios fiscais, o ajuste poderá exigir restrições em áreas como Previdência Social, saúde e assistência à população de baixa renda.
“Eles devem cortar das despesas primárias, ou seja, congelar a aposentadoria, gás, saúde, despesa com benefício social”, afirmou o economista.
Segundo ele, para implementar mudanças em despesas constitucionalmente protegidas, seria necessária a aprovação de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC).
Na distribuição simulada pelo Dieese, 51% dos cortes recairiam sobre transferências de renda, incluindo aposentadorias, Benefício de Prestação Continuada (BPC), seguro-desemprego e abono salarial.
Outros 17% atingiriam despesas com pessoal, enquanto os 32% restantes seriam distribuídos entre outras despesas públicas.
O congelamento das aposentadorias é uma possibilidade apontada pelo economista a partir da dimensão do ajuste, e não uma medida formalmente especificada pelo candidato.
Desemprego pode atingir 7% em 2027
O estudo também prevê consequências para o mercado de trabalho brasileiro.
Segundo o Dieese, a redução dos gastos públicos poderia resultar na eliminação de aproximadamente 2,2 milhões de postos de trabalho e em perdas de R$ 68,7 bilhões na massa salarial.
No cenário econômico mais pessimista, o PIB brasileiro poderia apresentar retração de 0,15% em 2027, caracterizando uma recessão.
A quantidade de desempregados subiria de aproximadamente 5,8 milhões para 7,4 milhões de pessoas, enquanto a taxa de desocupação passaria de 6,5% para 7%.
Mesmo no cenário mais otimista, o crescimento econômico seria limitado a 0,91%, percentual considerado insuficiente pelo Dieese para absorver a entrada de novos trabalhadores no mercado.
As estimativas representam cenários projetados pelo departamento e dependem da forma como o ajuste fiscal seria implementado.
Economista questiona economia com privatizações
Na entrevista ao Opera Mundi, Leonardo Horie também questionou a viabilidade de alcançar a economia prometida apenas com privatizações e redução do número de ministérios.
Segundo o economista, essas medidas não seriam capazes de produzir receitas e economias imediatas na dimensão anunciada pela campanha.
“Você não privatiza em menos de seis meses, não são ativos líquidos que vão gerar receita na hora”, afirmou.
O especialista também apontou uma contradição entre a promessa de redução dos gastos públicos e a defesa de incentivos fiscais para setores como eventos e turismo.
Para o Dieese, a ausência de detalhamento sobre quais despesas seriam efetivamente reduzidas aumenta a preocupação com possíveis impactos sobre políticas públicas e benefícios sociais.
Arrecadação pode cair R$ 46,8 bilhões
Outro efeito previsto pelo levantamento é a redução das receitas tributárias em consequência da desaceleração econômica.
Segundo o estudo, o país poderia deixar de arrecadar R$ 46,8 bilhões em impostos, valor equivalente a aproximadamente 40% da economia bruta inicialmente projetada com o ajuste.
Leonardo Horie explicou que a redução da renda das famílias afeta diretamente o consumo, que representa uma importante base de arrecadação tributária no Brasil.
O economista destacou que pessoas de menor renda tendem a utilizar praticamente todos os recursos recebidos para adquirir produtos e serviços, movimentando a economia.
“Tudo que ela [a pessoa que possui menor renda] recebe, ela gasta, daí a economia gira muito mais”, afirmou.
Na avaliação do especialista, reduzir a renda disponível para essas famílias pode provocar efeitos negativos em cadeia, atingindo o comércio, a produção e o mercado de trabalho.
Dieese alerta para aumento da desigualdade
O levantamento conclui que o ajuste fiscal proposto pode provocar uma combinação de baixo crescimento econômico, aumento do desemprego, redução da renda dos trabalhadores e aprofundamento das desigualdades sociais.
Segundo o Dieese, esses efeitos também poderiam comprometer o objetivo de melhorar as contas públicas, uma vez que a retração econômica reduziria a arrecadação do governo.
Ao Opera Mundi, Leonardo Horie defendeu que o debate sobre o equilíbrio fiscal considere o impacto dos juros sobre a dívida pública e a necessidade de mudanças na tributação brasileira.
O economista argumentou que uma reforma tributária deveria ampliar a cobrança sobre patrimônio e riqueza, reduzindo o peso dos tributos sobre salários, renda e consumo.

