O atacante Richarlison, que já atuou na seleção brasileira, divulgou um vídeo nas redes sociais neste sábado (17) em que explica a disputa com Flávio Bolsonaro e o advogado Willer Tomaz em torno de uma mansão situada em uma ilha de Angra dos Reis. No vídeo, o jogador diz que “os caras me tomaram na mão grande”, pede ajuda à PF e sinaliza que o advogado teria agido em parceria com o filho de Jair Bolsonaro (PL).
“Pediram para eu falar um pouco sobre a ilha aí, né, que os caras me tomaram na mão grande lá”, diz Richarlison, iniciando o vídeo de quase 3 minutos.
O jogador conta que adquiriu a posse da ilha entre 2020 e 2021 em parceria com o ex-deputado Alencar da Silveira Júnior, atual conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE-MG) e ex-presidente do Atlético Mineiro, e o empresário Renato Velasco, com quem rompeu e classifica como “pilantra”.
“Daí apareceram compradores querendo comprar a ilha de mim lá e eu não quis vender. Entre eles estava o Flávio Bolsonaro. Na época ele foi até com um dronezinho lá, filmou a ilha de cima, tem um vídeo no Instagram dele”, diz o atacante, sobre um vídeo divulgado pelo senador à época, que mostrava a cobiça em torno da mansão na ilha.
“E aí eu não quis vender, mano. Não quis vender a ilha para ele, e aí que pegou, né? Como eu não quis vender, os caras pegaram na mão grande lá na justiça, né. A gente estava resolvendo a papelada na justiça, e eles falaram para a gente lá que demorava meses ou até ano para resolver essa papelada. E aí o que que pegou? Flávio Bolsonaro e o tal do Willer Toomaz foram lá e, em 24 horas, pegaram a posse lá da ilha”, diz.
O jogador revela uma manobra, já contestada na justiça, de Tomaz dentro da Secretaria Patrimônio da União (SPU), que teria contado com um indicado de Flávio Bolsonaro durante o governo do pai, Jair Bolsonaro.
“Aí a justiça falhou. Os caras tomaram a ilha sem gastar um tostão, até onde eu sei. Eu não recebi nada. Gastei em torno de R$ 10 milhões lá e não recebi nada. E, nesse caso, a justiça foi falha, tá ligado? Porque para a gente foi uma coisa e para os caras foi outra, sabe?”, afirma.
Em seguida, o jogador pede ajuda à Polícia Federal para abrir investigação sobre o caso e promete doar parte do dinheiro investido na ilha para um hospital de Nova Venécia, no estado do Espírito Santo, cidade onde nasceu.
“Aproveitando que voltou a circular nas redes sociais, estou aqui pedindo ajuda à Polícia Federal. Agradecer ao povo, meus fãs, ao povo aí que tem me ajudado aí também nas redes sociais. Então, vamos tentar recuperar esse dinheiro aí. E deixando bem claro aqui também: se eu recuperar esse dinheiro, parte do dinheiro estarei doando para o hospital lá da minha cidade, né, de Nova Venécia”.
“E vamos embora. Aproveitando o gancho aí, amanhã, domingo, o Flávio vai estar aí no Espírito Santo, e eu, como capixaba, peço a vocês que estejam cobrando ele aí também para que ele possa estar devolvendo aí minha ilha”, concluiu Richarlison.
O desejo por uma mansão de luxo que acabou na Justiça
O caso que aproxima o senador Flávio Bolsonaro do advogado Willer Tomaz tem como pano de fundo uma das propriedades mais cobiçadas de Angra dos Reis: uma mansão avaliada em cerca de R$ 10 milhões, localizada na Ilha Comprida, com 11 suítes, praia privativa, cachoeira, heliponto, piscina e quadra de tênis.
Segundo documentos judiciais e relatos reunidos pela reportagem, Flávio conheceu o imóvel em 2020 e demonstrou interesse imediato pela propriedade. Na ocasião, porém, o então proprietário informou que a venda já havia sido fechada com a empresa Sport 70, pertencente ao atacante Richarlison e ao empresário Renato Velasco. Mesmo assim, o senador e Willer Tomaz voltaram posteriormente ao local em uma lancha para visitar a mansão, e Flávio chegou a registrar imagens aéreas do imóvel.
Pouco depois, Willer Tomaz iniciou uma ofensiva judicial para obter a posse da propriedade. A disputa ganhou contornos dramáticos: uma idosa afirmou ter sido induzida a assinar documentos relacionados ao imóvel, enquanto uma mulher grávida — esposa do empresário de Richarlison — acabou retirada da residência durante o cumprimento de uma ordem de reintegração de posse, episódio que, segundo relatos, levou à antecipação de seu parto.
Embora Flávio Bolsonaro negue participação na disputa e sustente que apenas mantém amizade com Willer Tomaz, seu nome foi arrolado como testemunha na ação judicial movida pelo advogado. O caso reforçou os questionamentos sobre a proximidade entre ambos e sobre o interesse do senador pelo imóvel desde antes do litígio.
A disputa também chamou atenção porque ocorreu paralelamente à defesa, por Flávio Bolsonaro, de projetos voltados à transformação da Costa Verde em um grande polo turístico privado. Antes mesmo do atual debate nacional sobre a privatização das praias, o senador já patrocinava propostas para criar uma região administrativa especial destinada a impulsionar empreendimentos turísticos de alto padrão em Angra dos Reis e municípios vizinhos — área onde está localizada justamente a mansão objeto da disputa judicial.
Quem é Willer Tomaz
Muito antes da disputa pela mansão de Angra dos Reis, Willer Tomaz já havia se tornado personagem de um dos episódios mais rumorosos envolvendo pessoas próximas ao clã Bolsonaro.
Em 2019, o advogado e Flávio Bolsonaro sacaram cerca de R$ 1,5 milhão em espécie nos caixas de um cassino em Las Vegas, nos Estados Unidos. A operação chamou atenção porque os recursos foram retirados em dinheiro vivo, procedimento incomum para valores dessa magnitude. À época, ambos afirmaram que o saque tinha como objetivo permitir apostas no estabelecimento, prática comum em cassinos americanos. O episódio ganhou repercussão em meio às investigações sobre movimentações financeiras envolvendo o gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
Criminalista conhecido em Brasília, Willer Tomaz construiu influência nos bastidores do Judiciário ao atuar em processos de grande repercussão e representar empresários, políticos e investigados em operações de corrupção. Sua trajetória, contudo, também é marcada por controvérsias.
Em 2017, foi preso preventivamente na Operação Patmos, acusado de atuar para comprar decisões judiciais em favor do empresário Joesley Batista. O advogado sempre negou as acusações e foi posteriormente colocado em liberdade, continuando a exercer a advocacia.
A amizade com Flávio Bolsonaro atravessou os anos. Além de aparecer ao lado do senador em viagens internacionais e no episódio do cassino em Las Vegas, Tomaz tornou-se uma figura recorrente em episódios que envolvem interesses patrimoniais ligados ao entorno do parlamentar. A disputa pela mansão de Richarlison, na qual Flávio figura como testemunha e cuja origem remonta ao interesse manifestado pelo senador pelo imóvel, tornou-se um dos exemplos mais emblemáticos dessa relação.
*Com informações de Revista Fórum

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