Por trás das telas de computadores, dos currículos enviados por aplicativos e das entrevistas feitas por videochamada, uma nova geração tenta encontrar lugar no mercado de trabalho brasileiro. Nascidos entre o fim dos anos 1990 e o início dos anos 2010, os jovens da chamada geração Z chegam ao emprego formal em meio a salários baixos, alta rotatividade e mudanças profundas na relação com o trabalho.
Apesar das dificuldades, os números mostram uma melhora recente. Dados divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego apontam que a taxa de desemprego entre jovens de 14 a 24 anos caiu de 25,2% em 2019 para 14,3% no fim de 2024. O número de jovens ocupados chegou a 14,5 milhões no país.
Ainda assim, entrar e permanecer no mercado continua sendo um desafio. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) destaca que a juventude brasileira enfrenta obstáculos como informalidade, salários menores e dificuldade para conciliar estudo e trabalho. Uma pesquisa do FGV IBRE baseada em microdados da PNAD Contínua mostra que metade dos jovens de 18 a 24 anos está concentrada em apenas 20 ocupações (balconistas, escriturários, auxiliares de limpeza, caixas, operadores de telemarketing). Funções de baixa complexidade, alta rotatividade e baixo salário. O rendimento médio mensal desse grupo é de R$1.815. A renda média nacional: R$3.315. Uma diferença de quase 45%.
A estudante de administração Larissa Ribeiro, de 22 anos, conhece bem essa realidade. Depois de passar quase um ano distribuindo currículos, conseguiu uma vaga de atendente em uma loja de roupas em Natal.
“Na entrevista pediam experiência, mas eu estava procurando justamente o primeiro emprego. Parece um ciclo impossível”, conta. Ela diz que muitos amigos desistiram de procurar vagas formais e passaram a trabalhar como freelancers na internet ou em aplicativos de entrega.
A busca por estabilidade divide espaço com a necessidade de flexibilidade. Muitos jovens preferem empregos híbridos, horários menos rígidos e ambientes que ofereçam equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. Para especialistas, essa mudança de comportamento é resultado tanto das transformações tecnológicas quanto das crises econômicas enfrentadas pela geração.
Já o estudante João Pedro Lima, de 21 anos, que trabalha como auxiliar de logística, afirma que o primeiro emprego ajudou, mas a instabilidade preocupa. “Entrar foi difícil, mas manter é outra história. Sempre tem alguém novo entrando no lugar de quem sai.”
A informalidade ainda aparece como um dos principais problemas. Mesmo com a redução do desemprego juvenil, o Ministério do Trabalho registrou que 44% dos jovens ocupados permanecem em trabalhos informais.
Para o estudante de tecnologia João Victor Ferreira, de 20 anos, trabalhar por aplicativo foi a saída encontrada enquanto tenta uma vaga na área em que estuda.
“Eu mando currículo quase todo dia. Enquanto não aparece oportunidade, faço entrega de moto. Dá para ganhar alguma coisa, mas não é seguro”, diz.
Além do desemprego, outra preocupação envolve os jovens que não estudam nem trabalham, conhecidos como “nem-nem”. Relatório da Organização Internacional do Trabalho alerta que esse grupo ainda representa um desafio global para governos e empresas.
Programas de aprendizagem, estágios e políticas públicas de qualificação profissional podem facilitar a entrada dos jovens no mercado formal. Ainda assim, a geração Z continua tentando equilibrar formação acadêmica, necessidade financeira e expectativas sobre qualidade de vida.

