A menos de duas semanas das eleições, o discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na abertura da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, na terça-feira (22), deve ganhar um tom eleitoral.
Em briefing à imprensa, o Itamaraty afirmou que o presidente deve defender a soberania nacional e o próprio presidente Lula disse que deve pedir que os EUA não interfiram nas eleições. Fontes do governo esperam que esse seja o eixo central do discurso.
Assim como em anos eleitorais anteriores, diplomatas esperam que a tribuna de mármore verde ganhe ar de palanque em Nova York quando Lula subir ao púlpito. Apesar da plateia formada por chefes de governo e Estado, o foco principal do presidente estará nos 154 milhões de eleitores brasileiros e em obter dividendos para a eleição, avalia uma das fontes.
Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Washington, observa que a tribuna da Assembleia Geral sempre foi usada para fins de política interna, com presidentes apresentando um resumo das ações do governo. “Este ano não vai ser diferente. Vai entrar no discurso do presidente a narrativa da soberania ao criticar, sem mencionar o nome, as políticas unilaterais de Trump, que afetam o Brasil, inclusive a questão de interferência externa na eleição”, afirma Barbosa.
O Itamaraty diz, porém, que o presidente apresentará iniciativas do país e sua visão sobre o cenário internacional, sem fazer um balanço da gestão.
Lula, em seus primeiros mandatos, e os ex-presidentes Dilma Rousseff e Jair Bolsonaro fizeram discursos destacando a política local e questões relacionadas às eleições durante seus discursos nos anos de pleito.
Em 2022, Jair Bolsonaro citou a recuperação da economia pós-pandemia e o “fim da corrupção sistêmica”. Em 2014, Dilma Rousseff destacou a proximidade das eleições, ressaltou a saída do Brasil do Mapa da Fome e avanços na educação com o programa Ciência Sem Fronteiras. Em 2006, Lula ressaltou a queda no desemprego, o aumento do poder aquisitivo e o programa Bolsa Família.
Encontro com Trump
O presidente Lula abrirá o debate geral da Assembleia Geral, mantendo a tradição desde 1955 de o Brasil iniciar os discursos.
Como o discurso do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sucede o de Lula, há possibilidade de encontro entre os mandatários. Na Assembleia Geral de 2025, os presidentes deram um abraço e conversaram por cerca de um minuto na antessala do plenário da ONU. Na sequência, Trump mencionou Lula em seu discurso e disse que eles tiveram uma “química excelente”.
Fontes do governo evitam fazer apostas sobre o possível esbarrão neste ano e dizem que não há nenhuma reunião marcada entre os presidentes por ora.
Na Assembleia de 2025, a diplomacia brasileira atuou para que o aperto de mãos acontecesse, mas os planos não foram revelados até que o objetivo fosse concretizado. Uma fonte afirma, porém, que o encontro na antessala aconteceu por uma vontade de ambos no momento e o mesmo pode se repetir ou não neste ano, sem que haja a necessidade de conversa prévia entre as diplomacias.
No ano passado, as tensões entre Brasília e Washington eram ligadas à aplicação da Lei Magnitsky ao ministro do STF, Alexandre de Moraes e à elevação das tarifas sobre o Brasil para 50%, com o governo Trump alegando que as medidas haviam sido tomadas diante do tratamento injusto dado ao ex-presidente Jair Bolsonaro no curso de seu julgamento.
Desde então, Lula e Trump se encontraram na Malásia, tiveram uma reunião em Washington que se estendeu por três horas, e conversaram por telefone algumas vezes, a mais recente em agosto. Houve recuos sobre tarifas e a Lei Magnitsky. Mas novas tarifas de 25% surgiram em julho, ambos os governos negaram vistos para entradas de autoridades e as trocas de farpas ressurgiram, com Trump acusando o Brasil de ineficácia no combate ao crime organizado.
Em meio aos ataques e recuos dos EUA e às dúvidas sobre quanto da hostilidade com o Brasil parte do próprio Trump ou da ala ideológica do Departamento de Estado, diplomatas dizem que é impossível antecipar o que pode acontecer.
Mas um interlocutor avalia que a expectativa é positiva de qualquer forma: se houver alguma reação negativa do presidente americano, o governo reforçará a defesa da soberania; se houver alguma aproximação do lado positivo, o governo destacará será que Lula tem um forte traquejo como líder internacional.
Soberania e crime organizado
Lula disse na semana passada que vai reforçar a Donald Trump na ONU que não aceita interferência dos EUA nas eleições do Brasil. “Eu vou dizer: ‘eu não me meto nas eleições americanas porque é uma coisa que interessa ao povo americano, você foi eleito e eu respeito o resultado das eleições. Por favor, não mexa com filho da dona Lindu porque eu gosto de todo mundo, de respeitar e gosto de ser respeitado”, disse Lula no último dia (11) em um comício em Porto Alegre.
Ao defender a soberania do Brasil sobre assuntos internos, Lula deve destacar os esforços do governo contra o crime organizado, segundo antecipou o Itamaraty durante o briefing à imprensa. O tema deve ser evocado diante de novas acusações de Trump, que disse que o Brasil falhou ao confrontar o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho).
Os temas de sempre também devem aparecer, como o combate à fome e à insegurança alimentar, a luta contra a desigualdade e a defesa do multilateralismo, bandeira defendida por Celso Amorim, aliado de longa data de Lula e seu principal assessor política externa. Esse último assunto casa com o tema do debate geral deste ano “Restaurando a confiança, administrando transformações: uma ONU que produza resultados para todos”.
As guerras no Irã, em Gaza, na Ucrânia também devem ser citadas, com a tradicional defesa da resolução de conflitos por meio do diálogo. Lula deve reforçar ainda a negociação de um protocolo na convenção da ONU pra combater crimes ambientais.
Já a Venezuela, em ano de eleição, é vista comoum tema delicado. Diplomatas lembram que o assunto é bastante impopular no Brasil e que uma defesa de Nicolás Maduro pode acarretar perda de votos. Em 2025, Lula afirmou que a via do diálogo não deve estar fechada na Venezuela, antes da invasão americana. Algo nessa linha pode ser repetido, avalia um diplomata.
Em junho, a Missão Permanente do Brasil na ONU enviou uma “minuta zero” com sugestões para o pronunciamento de Lula, mas o texto é modificado até o ultimo momento. Segundo um diplomata com conhecimento das discussões, apenas na segunda-feira (21), véspera do debate geral, a versão final do texto é fechada.
Viagem curta
A eleição também deve moldar a extensão da estadia de Lula em Nova York neste ano. A expectativa é de que seja uma viagem curta, quase um bate-volta. Ao mesmo tempo em que não faria sentido perder a oportunidade de discursar em um palco global a duas semanas do pleito, o presidente precisa voltar o quanto antes para retomar os compromissos de campanha
A comitiva que acompanhará o presidente será enxuta. Entre as autoridades presentes, estarão o chanceler Mauro Vieira, a ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara e a ministra da Igualdade Racial, Rachel Barros.
Bilateral com Guterres e reuniões com Brics e China
Segundo o Itamaraty, cerca de 30 pedidos de reuniões bilaterais com o Brasil foram recebidos, mas o único encontro do presidente confirmado até o momento é com o Secretário Geral das Nações Unidas, António Guterres.
Já Mauro Vieira tem reuniões previstas com outros chanceleres e participará de encontros de diferentes grupos internacionais. Entre eles estão: o BRICS, grupo que reunia inicialmente Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul e foi ampliado para incluir outros países; o IBAS, fórum de diálogo entre Índia, Brasil e África do Sul; e o G77/China, o maior bloco de países em desenvolvimento dentro da ONU.
A agenda inclui ainda reuniões: do G4, formado por Brasil, Alemanha, Índia e Japão, que defendem a ampliação do Conselho de Segurança da ONU; do L.69, grupo de países em desenvolvimento que também reivindicam reformas na ONU; da Celac, formado por países da América Latina e Caribe; e do Consenso de Brasília, iniciativa para cooperação entre países da América do Sul.
O chanceler presidirá também dois eventos organizados pelo Brasil: da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, em 23 de setembro; e a reunião ministerial da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (Zopacas), em 24 de setembro. A Zopacas reúne países da América do Sul e da África banhados pelo Atlântico Sul para promover o diálogo na região.
Reunião com prefeito de Nova York
Na segunda-feira pela manhã, Lula deve se encontrar com o prefeito Zohran Mamdani.
Segundo uma fonte a par das tratativas, a equipe de Mamdani convidou Lula para um encontro com líderes progressistas em Nova York, mas o convite foi recusado pelo lado brasileiro por uma questão de hierarquia diplomática – prefeitos normalmente vão ao encontro de presidentes e não o contrário. Os assessores do prefeito propuseram, então, que Lula o recebesse, e a resposta foi positiva.
Na avaliação desse interlocutor, o encontro daria a Mamdani a projeção que ele busca no movimento progressista internacional, no qual Lula é bastante reconhecido. Já setores do petismo veem no prefeito uma liderança jovem, que governa a capital do mundo, e com potencial para renovar a esquerda em nível global. Mas a fonte ressaltou que há um temor dentro do governo de que uma aproximação gere atritos com Donald Trump em um momento de negociações comerciais entre o Brasil e os Estados Unidos.
*Com informações de CNN

