Ana Beatryz Fernandes
Repórter
Sob o sol forte de Natal, uma camisa de manga longa pode parecer um contrassenso. Mas, para milhares de brasileiros, ela se tornou uma aliada da saúde. Produzida com tecidos capazes de bloquear até 98,5% da radiação ultravioleta, a peça faz parte de uma nova geração de roupas que não apenas vestem, mas protegem, regulam a temperatura do corpo, reduzem impactos ambientais e ajudam a redefinir uma das indústrias mais tradicionais do mundo.
O fenômeno já movimenta bilhões de reais, influencia hábitos de consumo e impulsiona negócios em todo o país. Enquanto a indústria da moda responde por até 8% das emissões globais de gases de efeito estufa e descarta cerca de 170 mil toneladas de resíduos têxteis por ano no Brasil, empresas, pesquisadores e empreendedores investem em inovação para tornar o setor mais eficiente, sustentável e conectado às novas demandas do consumidor.
No Rio Grande do Norte, onde a cadeia de moda e confecção reúne 4.972 empresas ativas, sendo 98,9% pequenos negócios, essa transformação acontece em ritmo acelerado. Dos ateliês de moda autoral às indústrias de confecção, tecidos tecnológicos, softwares de modelagem tridimensional, inteligência artificial e novos materiais vêm mudando a forma de criar, produzir e comercializar roupas.
Mais do que acompanhar uma tendência global, o setor potiguar encontrou na inovação uma estratégia para agregar valor, ampliar mercados e fortalecer a economia criativa. A moda que nasce no estado continua carregando identidade cultural, mas agora incorpora ciência, tecnologia e sustentabilidade como parte do próprio processo de criação.
Para a estilista potiguar Patrícia Vankoke, a inovação nem sempre aparece de forma evidente aos olhos do consumidor, mas já está presente em diversas etapas da cadeia produtiva. Em seu ateliê, resíduos que antes seriam descartados ganham novos usos e ajudam a construir um modelo mais sustentável de produção.

“Os papéis descartados da indústria são transformados em acessórios. Os retalhos ganham novos usos em roupas, bolsas e até projetos de estudantes de moda. Tudo o que sobra encontra um novo destino. A moda precisa ser sustentável”, afirma.
Segundo ela, tecnologia e tradição caminham juntas: “O crochê é um exemplo. Existe o trabalho manual, mas também existe a tecnologia que permite industrializar processos e ampliar o alcance dessa produção. O importante é que a identidade cultural permaneça.”
O resultado é um setor que já não vende apenas roupas, mas experiências, funcionalidade e propósito.

Quando a ciência veste o corpo
Poucas áreas mostram de forma tão evidente a aproximação entre ciência e cotidiano quanto a moda. Aquilo que antes era percebido apenas como vestuário passou a incorporar pesquisas avançadas em engenharia têxtil, nanotecnologia e desenvolvimento de materiais.
Entre os exemplos mais presentes está a proteção ultravioleta incorporada aos tecidos. Em um país tropical como o Brasil, onde a exposição solar intensa faz parte da rotina, roupas com Fator de Proteção Ultravioleta (FPU 50+) vêm conquistando espaço não apenas entre atletas e praticantes de atividades ao ar livre, mas também no uso cotidiano.
Essas peças conseguem bloquear até 98,5% dos raios UVA e UVB graças à utilização de fibras especiais, como fios de poliamida modificados ou compostos com dióxido de titânio. Diferentemente de tratamentos superficiais, essa proteção permanece durante toda a vida útil da roupa.
Para a dermatologista Daniela Maia, o crescimento desse mercado acompanha uma mudança importante de comportamento.

“Os tecidos com proteção UV têm um papel muito importante na rotina, principalmente aqui no Brasil, onde a exposição solar é alta o ano inteiro. Eles funcionam como uma barreira física contínua contra a radiação, o que ajuda tanto na prevenção do câncer de pele quanto no controle do envelhecimento e de manchas, como o melasma”, explica.
Segundo ela, a procura por esse tipo de vestimenta cresce à medida que as pessoas passam a enxergar a fotoproteção de forma mais ampla. “Existe um aumento claro na procura. As pessoas estão mais conscientes e buscando formas mais práticas de se proteger. Mas é importante deixar claro que as roupas complementam a proteção. O filtro solar continua sendo essencial nas áreas expostas”, diz.
Durante muito tempo, tecidos tecnológicos estiveram restritos ao universo esportivo. Hoje, a lógica é outra. Peças leves, que não amassam, secam rapidamente e ajudam a regular a temperatura corporal passaram a integrar coleções destinadas ao cotidiano. A chamada moda funcional se consolidou como uma resposta a um consumidor que busca mais do que aparência.
Essa mudança é percebida pela estrategista de imagem Mariana Desirée. “Quando falamos em funcionalidade na moda, não estamos apenas falando de conforto ou praticidade. Estamos falando de coerência entre a imagem e a vida real daquela pessoa. Roupas funcionais são pensadas para acompanhar a rotina, respeitar o corpo e facilitar o dia a dia”, relata.

Segundo ela, a tecnologia tem contribuído para uma transformação mais profunda do comportamento de consumo.
“Hoje existe um movimento crescente em direção à intenção. As pessoas estão mais criteriosas, mais conscientes e mais interessadas em entender o porquê daquela compra. A escolha deixa de ser apenas estética e passa a ser estratégica”, afirma.
A mudança também reflete uma reação ao modelo da fast fashion. Se antes a velocidade das tendências estimulava compras impulsivas, agora fatores como durabilidade, propósito e impacto ambiental entram na equação.
“Quando uma roupa entrega funcionalidade, conforto, resistência e ainda dialoga com os valores do consumidor, ela passa a ter um significado diferente. Isso muda a forma de consumir moda”, acrescenta.
O algoritmo entra no ateliê

Se a inovação transformou os tecidos, ela também mudou a forma de criar moda.
Hoje, softwares especializados permitem visualizar uma peça antes mesmo de sua produção. Ferramentas como CLO 3D e plataformas de modelagem virtual conseguem simular caimentos, texturas e movimentos com alto grau de precisão.

A designer de moda, professora do Senai-RN e pesquisadora Jéssica Cerejeira acompanha essa transformação diretamente na formação de novos profissionais.
“Precisamos estar sempre atentos ao que existe de mais novo. Quando falamos tecnologia, precisamos falar também de sustentabilidade, porque uma coisa está associada à outra.”
Segundo ela, a inteligência artificial tornou-se uma aliada importante no processo criativo.
“Às vezes o designer quer visualizar o caimento de um tecido ou testar um bordado antes da produção. Com essas ferramentas, ele consegue enxergar o resultado sem precisar confeccionar diversas amostras físicas.”

Além de acelerar processos, a tecnologia reduz custos e desperdícios.
“Você pode apresentar um produto para o cliente ainda na fase de projeto. Isso otimiza o desenvolvimento e amplia as possibilidades criativas.”
Para Jéssica, a transformação tecnológica também exige uma nova formação profissional. “Os futuros profissionais da moda precisam compreender tanto os processos criativos quanto as ferramentas digitais. O mercado exige cada vez mais essa integração.”
O consumidor mudou. A moda também.
Se antes bastava gostar da peça, hoje o consumidor quer entender sua história.
Origem da matéria-prima, impacto ambiental, condições de produção, durabilidade e propósito passaram a influenciar diretamente a decisão de compra. Para a analista técnica do Sebrae-RN, Camilla Ruama, essa mudança se intensificou após a pandemia e vem alterando profundamente a forma como as empresas pensam seus produtos.

Segundo ela, a busca por informações sobre origem dos materiais e processos produtivos tornou-se uma realidade cada vez mais presente. O consumidor está mais atento, mais informado e mais disposto a valorizar empresas que demonstram compromisso com qualidade, transparência e sustentabilidade.
“O consumidor quer saber de onde veio o produto, qual foi a matéria-prima utilizada e como ele foi produzido. Essa preocupação com rastreabilidade já é uma realidade em mercados internacionais e chega com força ao Brasil”, afirma.
A resposta das empresas tem sido investir em diferenciação. Para Camilla, tecidos tecnológicos, materiais mais duráveis e processos produtivos mais eficientes deixaram de ser apenas tendências para se tornarem ferramentas de competitividade.
“Quando falamos em moda do Rio Grande do Norte, estamos falando de empresas que querem competir nacionalmente. E a qualidade do produto passa diretamente pelo conforto, pela durabilidade e pela experiência que ele oferece ao consumidor”, diz.
Ela destaca que ferramentas como inteligência artificial, softwares de modelagem e sistemas de corte automatizado já fazem parte da rotina de muitas confecções potiguares. O desafio agora é ampliar esse acesso para pequenos empreendedores da moda autoral.
“Nosso papel é mostrar que a tecnologia deve potencializar a identidade criativa das marcas, e não substituí-la. A inovação precisa servir para ampliar aquilo que cada marca tem de único”, complementa.
Entre 2021 e 2026, o Rio Grande do Norte registrou uma média de 194 novas empresas de moda e confecção abertas por ano, crescimento de 4,9%. O setor é formado quase integralmente por pequenos negócios, responsáveis por movimentar empregos, renda e oportunidades em diversas regiões do estado.

Somente por meio do Sebrae-RN, centenas de empresas recebem consultorias, capacitações e acompanhamento especializado anualmente. Em 2024, foram 734 empresas atendidas e 2.783 atendimentos realizados.
A aposta em tecnologia e diferenciação tem ajudado marcas locais a ampliar mercados, acessar novos consumidores e conquistar espaço fora do estado.
Ginga Moda RN: uma vitrine para o futuro

Essa estratégia ganhou um novo capítulo com a criação do Ginga Moda RN, iniciativa que busca posicionar a moda potiguar no cenário nacional.
O projeto reunirá empresários, compradores, especialistas e marcas em um showroom inédito concebido para conectar produção, inovação e mercado. Ao todo, serão 40 estandes, rodadas de negócios, desfiles, palestras e capacitações voltadas ao fortalecimento do setor.
Antes de chegar ao evento, os participantes passaram por uma jornada de seis meses de mentorias, consultorias e capacitações voltadas ao desenvolvimento de produtos, posicionamento de marca e competitividade.
Para João Hélio Cavalcanti, diretor técnico do Sebrae-RN, o Ginga nasce para mostrar ao país a força criativa da moda produzida no estado.
“A proposta é que o Ginga seja uma grande vitrine para demonstrar todo o potencial criativo, a identidade, a cultura e o design do nosso estado, atraindo compradores nacionais para conhecer a moda do Rio Grande do Norte”, afirma.

Segundo ele, o fortalecimento do setor passa pela valorização de atributos cada vez mais demandados pelo mercado, como inovação, sustentabilidade, autenticidade e capacidade de transformar criatividade em negócios.
Mais do que um evento, o Ginga representa uma síntese do momento vivido pela moda potiguar: criatividade local aliada a ferramentas capazes de ampliar alcance, eficiência e valor agregado.
Moda, cultura e economia criativa
A moda integra um dos setores mais dinâmicos da economia criativa no Rio Grande do Norte, ao transformar cultura, identidade e inovação em geração de renda e oportunidades de negócio.
Há mais de 10 anos, o Edital de Economia Criativa do Sebrae-RN atua no fortalecimento de pequenos negócios criativos. O programa já contemplou cerca de 600 projetos e investiu mais de R$ 5 milhões em iniciativas ligadas à moda, artesanato, música, audiovisual e outras expressões culturais.

“O edital surgiu da necessidade de fortalecer os pequenos negócios criativos do Rio Grande do Norte e de reconhecer a cultura, o artesanato, a música, o audiovisual e outras expressões como motores importantes de desenvolvimento econômico. Ele foi criado justamente para apoiar esse ecossistema e transformá-lo em oportunidade real de geração de renda e fortalecimento dos territórios”, explica Maézia Teodora, do Sebrae-RN. –
Na última edição, foram 486 propostas inscritas e 67 contempladas. Em 2026, mais de 400 iniciativas participaram da seleção, com 70 projetos aprovados em nove categorias.
Segundo Maézia, além do apoio financeiro, o programa também atua na formação dos empreendedores. “O edital não é só fomento financeiro. Os contemplados participam de uma jornada formativa que envolve gestão, finanças e o fortalecimento do perfil empreendedor, para que esses projetos tenham sustentabilidade e continuidade no mercado”, destaca.
A seleção considera critérios como impacto cultural, viabilidade, inovação e conexão com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), priorizando projetos com capacidade de gerar impacto real nos territórios.
“São avaliados aspectos como coerência da proposta, impacto cultural, potencial empreendedor e também a capacidade de gerar transformação no território onde o projeto está inserido. Valorizamos iniciativas que promovam identidade, inovação e inclusão”, afirma.
Entre os projetos apoiados estão iniciativas como Bye Bye Natal, Mulheres em Rede e Burburinho, que ampliaram a visibilidade da produção cultural e fortaleceram redes colaborativas de empreendedores criativos.
“Muitos dos projetos mais marcantes são aqueles que conseguem transformar saberes tradicionais em oportunidades reais de geração de renda. Eles não apenas fortalecem a cultura local, mas também geram impacto econômico e social nos territórios onde atuam”, diz Maézia.
A edição de 2026 trouxe como novidade a categoria Feiras, que reúne diferentes expressões criativas em um mesmo espaço, como moda, artesanato e música, ampliando conexões entre empreendedores.
Em um cenário de transformação digital e avanço da inteligência artificial, a economia criativa se consolida como estratégia de desenvolvimento. No Rio Grande do Norte, ela conecta cultura, inovação e empreendedorismo em um mesmo movimento de fortalecimento dos pequenos negócios.


