A RESSACA DOS SOBERBOS E O MILAGRE DO NEÓFITO
Se a política brasileira fosse um roteiro de comédia pastelão, os roteiristas de plantão seriam acusados de exagero. O primeiro turno passou e deixou pelo caminho um rastro de profetas desmoralizados, marqueteiros atônitos e lideranças que já mandavam passar o terno da posse antes de combinar com os donos dos votos.
Em Brasília, o figurino do “já ganhou” desmanchou no ar. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva operou todo o arsenal de mágicas de última hora: multiplicou promessas fiscais, esticou programas de crédito, turbinou anúncios de benefícios e invocou todo o carisma acumulado em meio século de palanque. Não bastou. Diante do desgaste acumulado, viu o eleitorado empurrar a disputa presidencial para a prorrogação, ficando atrás de Flávio Bolsonaro, cuja principal credencial foi justamente encarnar o manto e a fidelidade da trincheira bolsonarista para frear o lulismo e o petismo. A apoteose triunfal virou dor de cabeça logística e proporcionou mais três semanas de campanha corpo a corpo.
Mas foi em solo potiguar que o teatro do absurdo atingiu o seu ápice dramático.
Em Mossoró e adjacências, o clima era de contagem regressiva para a glória. Alysson Bezerra desfilava pelo estado com a certeza olímpica de quem liquidaria a fatura sem escala, convicto de que o chapéu de couro e a máquina de comunicação bastariam para ungir seu nome em 4 de outubro. Enquanto isso, Álvaro Dias alardeava nos quatro cantos que controlava um império de prefeitos e a chave dos grotões do Rio Grande do Norte, pronto para ditar as regras do jogo.
Eis que a realidade, sempre debochada, resolveu contrariar os oráculos.
Direto dos gabinetes técnicos e sem qualquer rodagem nas urnas, despontou Carlos Eduardo Xavier, o Cadu de Lula. Carregando nas costas a blindagem de um padrinho federal e a herança indigesta de uma governadora reprovada por mais de 60% da população potiguar, o estreante não apenas implodiu a suposta invencibilidade dos prefeitos de Álvaro — varrendo o ex-prefeito do páreo —, como encostou milimetricamente no retrovisor de Alysson, terminando praticamente empatado e arrastando a eleição para o segundo turno. O favoritismo mossoroense, que parecia blindado a ferro e fogo, descobriu que o eleitorado adora pregar peças nos apressados.
Agora, na esfera federal como na estadual, abre-se a temporada do mata-mata. Quem sonha com a cadeira do Planalto ou com a do Centro Administrativo precisará mostrar substância e equilíbrio técnico para além dos slogans fáceis. Mas não nos enganemos: no Brasil profundo e no Rio Grande do Norte das promessas, o populismo de raiz e a guerra de narrativas ainda cobrarão o seu pedágio até o último minuto de votação.
CADU
Na disputa com Alysson Bezerra no segundo turno para governo do estado Cadu Xavier vai contar com o mesmo aliado que proporcionou seu sucesso no primeiro turno: Luiz Inácio Lula da Silva.
VANTAGEM
Vale lembrar que Lula obteve quase 60% de votos perante o eleitorado potiguar. A vantagem de Cadu de Lula é tentar capitalizar os votos que o presidente Lula obter no RN.
FEDERAL
Se o então presidente Jair Bolsonaro utilizou a Policia Federal nas eleições de 2022 para impedir que eleitores nordestinos – em sua maioria lulistas – chegassem às urnas, nestas eleições Lula soube usar a Policia Federal com sutileza.
SUTILEZA
Sem qualquer assunto de relevância que justificasse ocupar a Rede Nacional de Televisão e Rádio, o diretor-geral da Policia Federal, Andrei Rodrigues, anunciou, em pleno processo eleitoral, “investigações” sobre supostas interferências internacionais nas eleições, quando o Tribunal Superior Eleitoral – TSE já havia descartado.
SUTILEZA 2
Na verdade, como Lula vinha batendo na tecla da “soberania nacional” como forma de desgastar Flávio Bolsonaro, se entende que o diretor da Policia Federal queria mesmo era “reascender a chama”, com a votação em marcha. Pegou mal.
ACORDOS
Quem não lembra que o ministro Alexandre de Moraes, do STF, serviu de anfitrião em jantar na sua residência para celebrar a reconciliação entre o presidente Lula e o presidente do Senado David Alcolumbre?
DERROTA
Ao que parece, os acordos de apoios políticos do presidente Lula aos candidatos do senador Alcolumbre e do deputado Hugo Motta em seus respectivos estados não funcionaram como projetados.
ALCOLUMBRE
O presidente do Senado, David Alcolumbre, sofreu derrota esmagadora com o seu candidato Clécio Luiz, que tentava a reeleição, derrotado sem direito a ir para o segundo turno, mesmo contando com o apoio de Lula.
PARAÍBA
Já o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, que queria eleger seu pai Nabor Wanderley a uma das vagas para o Senado Federal, também não obteve êxito. Nabor também contou com o apoio de Lula, mas ficou em terceiro lugar.

