O DIA MAIOR DA DEMOCRACIA
Faltam escassas horas para o primeiro turno da eleição mais surreal das nossas vidas. No próximo domingo, milhões de brasileiros marcharão solenemente até as urnas eletrônicas para cumprir aquele que os manuais de cívica chamam de “o ato mais sublime da democracia”.
Contudo, a julgar pelo espetáculo patético encenado pela nossa distinta classe política, o domingo promete ser tratado como um estorvo burocrático, uma mera formalidade entre um cafezinho com ministros e a próxima negociata de bastidor.
No andar de cima, a disputa pelo Palácio do Planalto atingiu o ápice da pantomima. Em vez de projetos para resgatar a combalida nação, o cardápio eleitoral foi servido à base de escândalos financeiros de fazer inveja a roteirista de máfia. A grande atração da temporada atende pelo nome de Banco Master, sob a batuta de Daniel Vorcaro, numa ciranda que cruzou partidos de todos os matizes ideológicos — porque quando o assunto é cifra bilionária, o pluripartidarismo brasileiro vira um comovente abraço fraterno. Pior: a roubalheira descarada das aposentadorias e pensões do INSS sangrou os bolsos dos velhinhos e velhinhas do país com consignados e descontos fantasmas, transformando o sustento da terceira idade em banquete de banqueiro esperto com aval da burocracia estatal.
Enquanto a fumaça se espalha, até as togas da Suprema Corte — de Alexandre de Moraes a Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques — parecem flutuar nos murmúrios de bastidores em Brasília, entre silêncios tácitos e presenças que dispensam bula. Para coroar o descalabro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, obcecado por seu quarto mandato, além de oferecer cardápio de bondades de última hora, resolveu rasgar o manual de boas maneiras e apelar para a velha cartilha do populismo desbragado. O jornal O Estado de S. Paulo foi cirúrgico em editorial recente: “Lula avacalha a liturgia do cargo”. De fato, quando o mandatário da nação liga do palanque para o ministro Flávio Dino no meio da militância como quem convida um parça para o churrasco de domingo, não é apenas a liturgia que vai para o ralo; é o decoro republicano que pede arrego.
E por aqui, sob o sol escaldante do Rio Grande do Norte? Por terras potiguares, a indigência do debate beira o insulto. Nossos dignos candidatos a governador, senador e parlamentares preferiram o conforto das platitudes vazias e das dancinhas de rede social. Quase nada de substancial foi debatido sobre o verdadeiro potencial de desenvolvimento do estado. O tão propalado Porto-Industrial Verde — projeto de representatividade ímpar para o futuro econômico, logístico e energético dos norte-rio-grandenses — foi simplesmente varrido para debaixo do tapete dos palanques. Falar de infraestrutura e geração real de riqueza dá trabalho; melhor é trocar acusações de gabinete ou distribuir abraços cenográficos nas feiras livres.
Domingo, portanto, iremos às urnas. Não por entusiasmo com os atores dessa tragicomédia, mas para lembrar aos coronéis de toga, de palanque e de colarinho branco que o voto ainda é a única arma que lhes causa insônia. Domingo, iremos viver o dia maior da democracia, mas que o eleitor use a sua memória antes que tentem consigná-la no banco mais próximo.
EDITORIAL
Em um de seus editoriais dessa quinta-feira, 01/10, o jornal Folha de São Paulo abriu a chamada: “País pagará o preço de debate eleitoral indigente”.
ESCOLHA
A Folha resume: “O país está diante de uma escolha difícil entre um duro reajuste dos gastos públicos, que envolverá medidas potencialmente impopulares, e o risco de agravamento do estresse financeiro que já sufoca famílias, empresas e o próprio governo”.
ESTADÃO
Já editorial do Estado de São Paulo, de ontem, “Lula avacalha a liturgia do cargo” e sintetiza: “O telefonema a Flávio Dino durante um comício no Pará diz menos sobre o ministro do STF do que sobre um presidente que desmoraliza a institucionalidade que sustenta a República”.
FINALIZAÇÃO
O editorial do Estadão diz: “O Supremo chegou ao rés do chão nesta que já pode ser interpretada como a mais profunda crise de legitimidade de sua história”.
FINALIZAÇÃO 2
E diz mais: “O estrago provocado por Lula, vai além do desrespeito à institucionalidade do cargo. A encenação ocorreu um dia após Dino ter liberado, em decisão monocrática, postagens falsas nas mídias sociais contra o principal adversário do incumbente na corrida eleitoral, Flávio Bolsonaro”.
FINALIZAÇÃO 3
E conclui: “O mínimo que se esperava de um presidente da República cioso das implicações dos fatos é que, pelo menos, não agravasse, sobretudo a menos de uma semana de eleições gerais cujos resultados podem ser determinantes para o futuro não de um, mas de alguns ministros da Corte – e, principalmente para o futuro do Brasil”.

