A RENÚNCIA DE FÁTIMA
No tabuleiro político do Rio Grande do Norte, o xeque-mestre não veio de um adversário externo, mas das próprias engrenagens do poder estadual. O anúncio de que a governadora Fátima Bezerra (PT) desistiu de renunciar ao cargo para disputar o Senado Federal marca o que podemos chamar de sua renúncia à candidatura ao Senado — uma decisão que, embora revestida de retórica institucional, exala o pragmatismo de quem compreendeu que o risco de perder o controle da máquina era maior do que a promessa de uma cadeira em Brasília.
A legislação eleitoral é inexorável: para buscar o Legislativo, a renúncia deveria ocorrer até 4 de abril. Contudo, o que parecia um caminho natural de ascensão política transformou-se em um labirinto jurídico e político. Com o vice-governador Walter Alves (MDB) declinando da missão de assumir o Executivo — preferindo o conforto e a segurança das bases legislativas —, o Estado seria lançado ao território incerto de uma eleição indireta.
A análise dos bastidores revela que Fátima Bezerra agiu sob o signo da cautela. Ao projetar a eleição de um sucessor para o “mandato-tampão”, a governadora buscou viabilizar o nome de Cadu Xavier. No entanto, o cálculo aritmético na Assembleia Legislativa não fechou. Sem a garantia de eleger um aliado de estrita confiança, Fátima viu-se diante de um abismo: entregar as chaves da Governadoria a um potencial adversário em pleno ano eleitoral.
A palavra que ecoa nos corredores é sobrevivência. Manter a caneta é a única forma de evitar uma “devassa” administrativa que poderia municiar a oposição com dossiês e auditorias oportunistas durante a campanha. Se Fátima julgou falta de coragem em Walter Alves para assumir o ônus do governo, ela própria demonstrou que não possui o desprendimento necessário para soltar as rédeas do Estado sem um sucessor “puro-sangue”.
O recuo de Fátima cria um vácuo imediato na chapa majoritária. A tentativa de transferir o espólio da candidatura ao Senado para a deputada federal Natália Bonavides (PT) esbarrou no pragmatismo da própria parlamentar. Natália, ciente do desgaste natural que a gestão estadual impõe e focada em consolidar seu próprio caminho, manteve-se irredutível na busca pela reeleição na Câmara.
Dessa forma, o PT potiguar vê-se forçado a recalcular a rota. Ao decidir completar o mandato até 31 de dezembro de 2026, Fátima Bezerra prioriza a preservação de seu legado administrativo sob sua vigilância direta, ainda que isso signifique sacrificar uma eleição para o Senado que muitos davam como certa.
A renúncia de Fátima Bezerra à candidatura ao Senado Federal é um reconhecimento de limites.
Ao permanecer no cargo, a governadora garante o controle da narrativa oficial, mas carrega o peso de um governo que terá de enfrentar o desgaste natural de um fim de ciclo sem a renovação que uma candidatura ao Senado proporcionaria. No fim, a governadora escolheu o certo pelo duvidoso, preferindo o abrigo do Palácio ao risco da planície.
CULPA
Ao desistir de consolidar sua candidatura ao Senado Federal e assim concluir o seu mandato até 31 de dezembro, a governadora Fátima Bezerra (PT) apontou o “bode expiatório”: Walter Alves.
CULPA 2
Deve, realmente, ter acontecido compromissos – como disse a governadora – de Walter Alves, na condição de vice-governador, assumir a governadoria e viabilizar a candidatura de Fátima ao Senado. Mas nesses três anos de mandato, Walter foi tratado a “pão e água” pela gestão petista. Nada que lhe proporcionasse visibilidade.
SITUAÇÃO
O vice-governador Walter Alves só veio ser reconhecido com algum cargo de relevância no segundo semestre do terceiro ano de mandato de Fátima.
SITUAÇÃO 2
Mesmo assim, Walter viu nomeado o presidente da CAERN, sem direito a indicar qualquer um dos diretores. E mais as Secretarias de Assuntos Extraordinários e de Desenvolvimento Econômico.
Sem orçamento. Só.
TROCO
No momento oportuno e com um relatório na mão em que lhe mostrava a situação fiscal calamitosa do estado, Walter Alves saiu do governo. Saiu pela porta da frente. Conversou com Fátima e explicou os motivos.
REARRUMAÇÃO
Com a renúncia da governadora Fátima Bezerra (PT) à candidatura ao Senado Federal, a cúpula do Partido dos Trabalhadores vai ter que fazer uma rearrumação na chapa.
CHAPA
De imediato, se faz necessária a definição do companheiro de chapa de Cadu Xavier (PT) na majoritária para o governo.
SENADO
Também carece de definições imediatas quem irá substituir Fátima e seus respectivos suplentes na disputa pelo Senado, como também ouvir coligados sobre o nome para a segunda vaga da Câmara Alta e seus suplentes.
MUDANÇAS
Falta pouco mais de 15 dias para fechar a “janela” a quem desejar mudar de partido e disputar o pleito de 4 de outubro.

