Por Sidnesio Moura
Reconhecida como o principal destino de turismo religioso do Brasil, a cidade de Aparecida carrega, ao mesmo tempo, excelência e desafios estruturais que precisam ser enfrentados para consolidar sua posição como experiência turística completa. A avaliação é do turismólogo e especialista em turismo religioso Sidnesio Moura, que analisou o destino a partir de uma visita técnica.
No centro dessa dualidade está o Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, considerado por Moura um exemplo de organização e acolhimento. Para ele, a gestão do espaço demonstra como é possível integrar fé, estrutura e experiência do visitante de forma eficiente.
“O Santuário apresenta um padrão elevado de organização, limpeza e orientação. O peregrino encontra um ambiente preparado para recebê-lo, com segurança e conforto, o que contribui diretamente para a vivência espiritual”, observa.

No entanto, ao ultrapassar os limites do complexo religioso, a percepção muda. Segundo o especialista, a cidade ainda enfrenta dificuldades típicas de destinos que cresceram rapidamente impulsionados pelo turismo, mas sem o mesmo nível de planejamento urbano.
“Há uma dinâmica comercial intensa, mas ainda pouco organizada em alguns pontos. A comunicação visual é dispersa e existem áreas que demandam maior atenção em termos de limpeza e ordenamento”, avalia.
Outro ponto destacado por Moura é o crescimento de empreendimentos que nem sempre acompanham o ritmo de regulamentação. Para ele, esse cenário reforça a necessidade de maior articulação entre poder público e iniciativa privada.
“Esse crescimento é natural, mas precisa ser acompanhado de orientação e fiscalização para garantir qualidade na experiência do visitante e sustentabilidade do destino”, pontua.

A questão da segurança também aparece como um fator relevante. Embora haja presença policial, o especialista indica que parte dos visitantes relata sensação de menor tranquilidade fora do Santuário.
“O contraste é perceptível. Dentro do complexo, há uma sensação clara de segurança. Fora dele, ainda há um caminho a percorrer para que o visitante se sinta igualmente acolhido”, afirma.
Para Moura, o principal desafio de Aparecida está na integração entre o Santuário e a cidade. Ele defende que o destino precisa avançar de forma conjunta, alinhando gestão, serviços e experiência turística.
“O Santuário já é um modelo consolidado. A cidade precisa acompanhar esse padrão, fortalecendo a governança e promovendo uma atuação mais integrada entre os diferentes atores”, destaca.
O especialista também chama atenção para o papel do setor privado na qualificação do destino. Segundo ele, embora haja iniciativas positivas, ainda há espaço para melhorias no atendimento e na compreensão do perfil do peregrino.
“O turismo religioso exige sensibilidade. Não se trata apenas de oferecer serviços, mas de entender a jornada de fé do visitante e proporcionar uma experiência significativa”, explica.
Além disso, Moura aponta que Aparecida possui potencial para diversificar sua oferta turística, explorando melhor aspectos culturais e experiências locais.

“A cidade pode ampliar seu portfólio com turismo cultural e economia criativa, aumentando o tempo de permanência do visitante e fortalecendo a economia local”, sugere.
Na avaliação final, o especialista considera que o destino vive um momento estratégico. “Aparecida já é referência, mas pode ir além. Para isso, é fundamental que haja integração entre Santuário, cidade, poder público e iniciativa privada. O peregrino não vivencia apenas o Santuário — ele vivencia a cidade como um todo”, conclui.
Sidnesio Moura é CEO do Fórum Nacional de Turismo Religioso e autor de artigos publicados em veículos como Revista Qual Viagem e Diário do Turismo, além de atuar como colunista no Diário do RN e no portal Turismo em Alagoas.

