O Dia de Finados, celebrado na próxima segunda-feira (2), costuma trazer à tona lembranças, saudades e emoções para quem perdeu alguém importante. Para muitas pessoas, a data representa um momento de homenagem. Para outras, no entanto, pode despertar sentimentos intensos que ainda não encontraram espaço para serem elaborados. Diante desse cenário, especialistas alertam que o luto não deve ser tratado como uma situação a ser superada rapidamente, mas como um processo natural que exige tempo, acolhimento e, em alguns casos, acompanhamento profissional.
Em Natal, esse cuidado é oferecido gratuitamente pelo Centro de Referência em Luto (CRLuto), serviço da Secretaria Municipal de Saúde voltado ao atendimento de pessoas que enfrentam perdas por morte, especialmente aquelas consideradas de maior risco para o adoecimento psíquico, como suicídios, homicídios, mortes violentas e perdas perinatais.
Segundo a psicóloga clínica Milena Câmara, mestre em Psicologia, especialista em Psicologia do Luto e responsável pelo CRLuto, cada pessoa vivencia esse processo de maneira única.
“O luto é um processo natural, necessário diante do rompimento de um vínculo significativo. É um processo de adaptação às mudanças decorrentes de uma perda. Ele afeta o sujeito como um todo e exige uma reorganização da vida interna e externa”, explicou.
A especialista destaca que não existe uma fórmula capaz de determinar quem sofrerá mais ou menos diante da perda de alguém. O que pesa é o significado daquela relação.
“Um dos fatores principais é o vínculo. Não tem a ver apenas com ser pai, mãe ou irmão, mas com o significado que aquela pessoa tinha. Às vezes, um amigo representa um vínculo afetivo muito mais forte do que um parente. O que avaliamos é o vínculo de significado”, esclareceu.
Além da intensidade desse vínculo, fatores como o tipo de morte, a rede de apoio, a personalidade do enlutado e suas crenças também influenciam a forma como o luto será vivido.
Em uma sociedade que frequentemente estimula a retomada rápida da rotina, Milena chama atenção para o risco de impor prazos à dor.
“O luto é um processo de aprendizado. A pessoa precisa aprender a viver sem alguém que fazia parte da sua história. Não existe um jeito certo nem um tempo determinado para isso”, disse.
A psicóloga explica que a tristeza costuma ser a emoção mais lembrada, mas está longe de ser a única manifestação do luto.
“Pessoas enlutadas também podem sentir medo, ansiedade, angústia de separação, raiva e até alívio. Muitos sentimentos são possíveis diante da perda, e todos eles precisam ser acolhidos, sem julgamento”, comentou.
Embora o luto seja um processo esperado, há situações em que o sofrimento deixa de ser apenas uma reação natural e passa a comprometer a qualidade de vida.
O CRLuto atende justamente pessoas que enfrentam dificuldades para reorganizar a vida após uma perda.
“O Centro acolhe pessoas em sofrimento diante da perda de alguém significativo. Se você identifica que está difícil lidar com o luto sozinho, que isso está interferindo na qualidade de vida e na reconstrução da sua vida, é importante buscar ajuda”, orientou.
Segundo Milena, o acompanhamento psicológico pode começar com um acolhimento inicial, suficiente para alguns pacientes, ou evoluir para uma psicoterapia quando o sofrimento é intenso e persistente.
“A gente ajuda essa pessoa a vivenciar essa dor para que, aos poucos e dentro do tempo possível para ela, consiga retomar a própria vida. Esse é um processo que exige atenção, cuidado e respeito”, explicou.
A psicóloga reforça que o objetivo da terapia não é apagar a dor, mas ajudar a construir novas formas de conviver com ela.
“A morte não apaga quem amamos. Essa relação se transforma. O outro deixa de estar presente fisicamente, mas permanece dentro da gente. A dor não se arranca. A dor se cuida”, afirmou.
Como acolher quem está vivendo o luto
Familiares e amigos também desempenham papel importante nesse processo, mas a especialista alerta que acolher não significa oferecer respostas prontas.
“Para acolher verdadeiramente uma pessoa enlutada, a primeira coisa é não julgar. Evite dizer o que ela deve fazer ou impor suas próprias crenças. Pergunte como pode ajudar”, disse.
Ela ressalta que, muitas vezes, o silêncio é mais acolhedor do que discursos de incentivo para que a pessoa “reaja”.
“Às vezes, não falar ajuda mais do que sair falando. A gente precisa entender que não vai arrancar o sofrimento do outro. A dor se cuida. Aos poucos, ela vai dando espaço para outros sentimentos”, explicou.
Para quem enfrentará o primeiro Dia de Finados após uma perda, Milena orienta que não existe obrigação de seguir tradições ou convenções.
“Cada um pode encontrar uma forma de honrar quem partiu. Se faz sentido ir ao cemitério, que vá. Se não faz, tudo bem também. O importante é respeitar o próprio tempo e a própria forma de viver essa saudade”, afirmou.
Ela conclui lembrando que o legado deixado por quem morreu permanece vivo na memória e na história de quem ficou.
“Essas pessoas não deixam de existir para quem ama. Elas passam a existir de outra forma. O mais importante é que cada um encontre uma maneira significativa de honrar essa história, respeitando seus sentimentos e buscando ajuda quando sentir necessidade”, concluiu.
Centro de Referência em Luto oferece atendimento gratuito em Natal
O Centro de Referência em Luto (CRLuto), vinculado à Secretaria Municipal de Saúde de Natal, funciona na Unidade Básica de Saúde de Candelária, de segunda a sexta-feira, das 8h às 13h. O atendimento é gratuito, não exige encaminhamento médico e pode ser procurado diretamente pelo cidadão.
Atualmente, o serviço oferece atendimentos individuais, para casais e famílias, além de preparar a implantação de grupos de apoio para pessoas enlutadas.

