A campanha do candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) decidiu restringir as declarações públicas de seus auxiliares sobre propostas de governo e temas estratégicos até domingo (25), data do segundo turno das eleições. Segundo reportagem publicada pelo jornal O Globo na quarta-feira (21), a orientação foi definida após a repercussão de declarações da coordenadora econômica Daniella Marques sobre o Bolsa Família e em meio à divulgação de informações sobre investigações envolvendo o senador.
A decisão foi tomada na terça-feira (20), após discussões internas sobre os episódios recentes. De acordo com interlocutores ouvidos pelo jornal, a campanha avaliou que manifestações de integrantes da equipe sobre propostas ainda em elaboração poderiam provocar novas controvérsias e exigir esclarecimentos do candidato nos últimos dias antes da votação.
Com a medida, Flávio passa a concentrar as manifestações públicas sobre o programa de governo. A orientação não prevê o afastamento de integrantes da equipe, mas estabelece o candidato como principal porta-voz da campanha.
O episódio que motivou a mudança ocorreu na segunda-feira (19), quando Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal, defendeu, em entrevista à CBN Bahia, uma regra de transição de dois anos para beneficiários do Bolsa Família que conseguissem emprego ou abrissem um negócio.
A declaração provocou questionamentos sobre a possibilidade de interrupção do benefício após esse período. Diante da repercussão, a campanha esclareceu que a proposta se referia à ampliação da proteção temporária para famílias que aumentassem sua renda, e não ao estabelecimento de um prazo máximo de permanência no programa para todos os beneficiários.
Flávio também voltou a afirmar que pretende manter e reajustar o Bolsa Família em um eventual governo.
Segundo O Globo, integrantes da campanha afirmam que a decisão não representa uma punição a Daniella, que permanece nas discussões sobre o programa de governo e mantém a confiança do candidato e de sua esposa, Fernanda Bolsonaro.
Nos bastidores, entretanto, a avaliação relatada pelo jornal é de que a coordenadora econômica não conseguiu explicar adequadamente a proposta, provocando uma controvérsia que passou a ser explorada pela campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), adversário de Flávio no segundo turno.
Investigações da PF também repercutem na campanha
A orientação ocorre ainda em meio à divulgação de informações sobre investigações da Polícia Federal envolvendo Flávio Bolsonaro e o advogado Willer Tomaz, apontado como amigo do senador.
No domingo (18), veio a público que a PF encaminhou ao Supremo Tribunal Federal (STF) um inquérito para apurar suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo os dois. O procedimento foi distribuído ao ministro Alexandre de Moraes.
Na terça-feira (20), O Globo publicou informações de um relatório policial que detalha possíveis vínculos econômicos entre Flávio e Tomaz. Entre os elementos mencionados estão viagens em aeronaves particulares custeadas por uma empresa controlada pelo advogado, uma possível relação societária e o registro do contato do senador em um aplicativo de mensagens que permite apagar conteúdos após a leitura.
De acordo com o relatório citado pelo jornal, Flávio aparece como “usuário mestre” de uma conta bancária da Alcazar Holding, empresa controlada por Tomaz, com poderes de gerenciamento até maio de 2025.
A investigação também aponta que uma empresa ligada ao advogado teria custeado deslocamentos de Flávio e familiares entre Portugal e França, em 2025. A Polícia Federal identificou ainda viagens conjuntas do senador e do advogado para outros destinos, incluindo um safári na África do Sul.
Segundo a reportagem, os investigadores consideram que esses elementos sustentam a hipótese de uma relação econômica entre os dois. Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz negam a existência desse vínculo. As suspeitas são objeto de investigação e não representam comprovação de irregularidades.

