Um grupo de 15 ex-ministros, escritores, juristas e representantes da sociedade civil assinou, neste sábado (17), uma carta de apoio à reeleição do presidente Lula (PT). O documento “pela democracia, pela estabilidade, pelo desenvolvimento com justiça social e ambiental e pelo Brasil” foi apresentado durante evento com o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), em São Paulo.
Na carta, figuras como o ex-tucano Aloysio Nunes, o jurista Miguel Reale Junior (um dos autores do pedido de impeachment de Dilma Rousseff), o diplomata Rubens Ricupero e economista Claudia Costin, todos ex-ministros do governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB), bem como a filha do ex-presidente, Beatriz Cardoso, afirmam que o Brasil “está diante de uma escolha que ultrapassa diferenças partidárias e preferências ideológicas” e que, neste segundo turno, “está em jogo a capacidade do país de preservar a estabilidade institucional, o equilíbrio entre os Poderes e as liberdades democráticas”.
Também assinam o documento as escritoras Beatriz Bracher e Rosismo Darcy de Oliveira, os juristas Oscar Vilhena e José Carlos Dias, o economista Eduardo Giannetti, o ambientalista e ex-deputado federal constituinte Fabio Feldmann, a ex-ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira e o ex-deputado federal Floriano Pesaro (PSDB), além de Monja Coen.
“Nós, que temos distintas origens, trajetórias e visões sobre muitos dos desafios nacionais, entendemos que, sobretudo nos momentos de maior polarização, a democracia é o nosso norte comum, e ela exige responsabilidade, respeito às instituições e compromisso inequívoco com a Constituição”, diz a carta, acrescentando que a reeleição de Lula “oferece ao país melhores condições para assegurar equilíbrio constitucional, preservar direitos e liberdades, e manter canais de diálogo entre os diferentes setores da sociedade”.
Os signatários afirmam que o projeto representado por Flávio Bolsonaro (PL) traz “ameaças a esses princípios, intenções de desarticular patamares de conquistas sociais já consolidados e riscos à interlocução internacional multilateral consagrada pelo Brasil”.
Divergências e concordâncias
Na reunião, da qual também participaram os ex-ministros Fernando Haddad (PT), Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede), ex-ministros e lideranças de diversos segmentos destacaram o trabalho do governo Lula na economia e na proteção ao meio ambiente, afirmaram que Flávio representa um risco para o país e insistiram na necessidade de seguir investindo no diálogo e na comunicação via redes sociais para tentar uma virada no segundo turno, que ocorre em 25 de outubro.
A carta repete um movimento que foi feito em 2022, quando intelectuais, artistas e políticos declararam apoio a Lula contra Jair Bolsonaro. Na ocasião, houve a união de tucanos, emedebistas e economistas de diversas vertentes a favor do petista.
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— Hoje aqui temos um encontro de várias lideranças da sociedade civil, religiosas. Queria destacar aqui a presença da filha do presidente Fernando Henrique Cardoso, a Bia Cardoso. Ontem tivemos a declaração de apoio do filho do Mário Covas, o Mário Covas Neto, conhecido como Zuzinha. Estão todos aí empenhados em defender a democracia, a Constituição brasileira, promover desenvolvimento. Nós não queremos o Brasil indo para recessão, para o desemprego, para o fechamento de empresas. Queremos economia crescendo, distribuindo renda — disse Alckmin a jornalistas antes do encontro com os signatários da carta.
Após a assinatura da carta, Marina Silva afirmou que o Brasil precisa ser governado por um “democrata”. Ela lembrou que, no governo FHC, a edição de uma medida provisória que aumentava a reserva legal da Amazônia de 50% para 80% gerou protestos, e que ela, que era senadora pelo PT do Acre, ficou ao lado do então presidente, apesar das divergências entre seu partido e o governo.
— Houve uma grande mobilização da sociedade brasileira e, eu nunca me esqueço de que, numa comissão composta por 14 parlamentares, só tinha eu e o (Fernando) Gabeira defendendo a medida provisória do Fernando Henrique. A base dele toda era contra. Isso é a democracia. Mesmo no governo Temer, quando quiseram tirar as unidades de conservação do Pará e do Amapá, a grande mobilização fez o Temer voltar atrás. Mas os autoritários, os antidemocratas, não ouvem a sociedade – falou.
Haddad também citou diferenças anteriores com parte dos presentes, mas disse que eles divergiam “em 30%, nos outros 70%, havia concordância”.
— E a gente disputava eleição por conta desses 30%. Em 1989, nós estivemos juntos para derrotar o Collor. Em 1998, para eleger o Mário Covas. Em 2000, para eleger a Marta (Suplicy, ex-prefeita de São Paulo). Em 2022, para eleger o Lula e o Alckmin. Nós estamos fazendo o que a gente sempre fez, a gente sabe quando o risco é grande. É uma tragédia para um país ser governado por um rapaz de tamanha desqualificação — falou o ex-ministro da Fazenda.
Antes do ato, na manhã deste sábado, Alckmin, Haddad e Tebet participaram de uma caminhada em Heliópolis, uma das maiores favelas de São Paulo, na Zona Sul, onde cumprimentaram moradores e comerciantes locais, tiraram fotos com apoiadores e tocaram bateria.
Leia na íntegra a carta pela democracia e em apoio à chapa Lula-Alckmin:
Pela democracia, pela estabilidade, pelo desenvolvimento com justiça social e ambiental e pelo Brasil.
Uma declaração de apoio à reeleição de Lula e Alckmin.
Neste segundo turno, o Brasil está diante de uma escolha que ultrapassa diferenças partidárias e preferências ideológicas. Está em jogo a capacidade do país de preservar a estabilidade institucional, o equilíbrio entre os Poderes, as liberdades democráticas; de enfrentar a crise climática, cuidar de nossos biomas, dos povos indígenas, das comunidades tradicionais e de toda a população sacrificada pela acentuada desigualdade social. Está em risco um caminho capaz de levar ao desenvolvimento econômico com justiça social, soberania e paz.
Nós, que temos distintas origens, trajetórias e visões sobre muitos dos desafios nacionais, entendemos que, sobretudo nos momentos de maior polarização, a democracia é o nosso norte comum, e ela exige responsabilidade, respeito às instituições e compromisso inequívoco com a Constituição.
Consideramos que a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva oferece ao país melhores condições para assegurar esse equilíbrio institucional, preservar direitos e liberdades, manter canais de diálogo entre diferentes setores da sociedade e com espaço geopolítico global, e evitar retrocessos institucionais, preservando conquistas sociais, trabalhistas, educacionais, na saúde pública e na proteção ambiental. Ao mesmo tempo vemos, no projeto representado por Flávio Bolsonaro, ameaças a esses princípios, intenções de desarticular patamares de conquistas sociais já consolidados e riscos à interlocução internacional multilateral consagrada pelo Brasil.
O Brasil precisa crescer, gerar empregos, estimular a inovação, recuperar sua capacidade industrial, estimular a agricultura de baixo carbono, avançar na educação, criar oportunidades para seus cidadãos e corrigir erros, onde isso se fizer necessário.
Esse desenvolvimento deve estar associado à estabilidade econômica, à ciência, à tecnologia e à responsabilidade ambiental, com a preservação de nossas riquezas naturais. Florestas, água, biodiversidade e minerais estratégicos são parte da soberania brasileira e devem contribuir para o desenvolvimento do país, com uso responsável desses recursos e compromisso com as futuras gerações.
Também consideramos indispensável que o próximo governo respeite a diversidade da sociedade brasileira, proteja direitos fundamentais, sem transformar adversários políticos, instituições públicas, universidades, imprensa ou organizações da sociedade civil em inimigos.
Muitos de nós temos diferenças com o presidente Lula e críticas a seu governo, e preservaremos nossa independência para expressá-las. É justamente por valorizarmos o pluralismo que fazemos esta escolha. Antes de apoio a um nome, esta manifestação é de apoio ao Brasil, ao nosso espaço nacional e aos seus valores fundamentais comuns.
Assinam este documento:
Aloysio Nunes Ferreira
Beatriz Bracher
Beatriz Cardoso
Carlos Nobre
Claudia Costin
Eduardo Giannetti
Fabio Feldman
Floriano Pesaro
José Carlos Carvalho
Izabella Teixeira
José Carlos Dias
Miguel Reale Jr.
Rosismo Darcy de Oliveira
Oscar Vilhena
Rubens Ricupero
*Com informações de O Globo

