Por Bruno Barros
Um homem percebe sangue na urina. O sinal desaparece e, com ele, também vai embora a preocupação. Sem dor e sem outros sintomas, decide esperar. Se voltar a acontecer, pensa, aí procura um médico. O exemplo, relatado pelo urologista Maryo Kempes, ajuda a ilustrar um comportamento ainda frequente entre homens: adiar o cuidado até que o organismo obrigue a interromper a rotina.
Para o especialista, o problema não está apenas na resistência a procurar um urologista. É uma relação mais ampla com a própria saúde, construída desde cedo e marcada pela ideia de que o homem precisa suportar dores, evitar demonstrar fragilidade e continuar trabalhando mesmo quando alguma coisa não vai bem.
“Ele foi criado com aquela ideia de que ele é super-herói, que não pode adoecer, não pode mostrar fraqueza”, afirma Kempes.
Um hábito que pode começar na adolescência
Na avaliação do urologista, a prevenção masculina começa antes da vida adulta. Enquanto as meninas costumam entrar em contato com o ginecologista ainda na adolescência, os meninos nem sempre recebem a mesma orientação sobre o próprio corpo, desenvolvimento sexual e infecções sexualmente transmissíveis.
Kempes considera que essa diferença ajuda a explicar por que muitos homens chegam à idade adulta sem uma rotina de acompanhamento médico.
“Do mesmo jeito que a menina pega as ISTs, o menino também pega. Do mesmo jeito que a menina tem dúvida do que é certo e errado, o menino também tem”, afirma.
A falta desse hábito pode se prolongar por décadas. Um dado informado pelo especialista chama atenção: 60% dos homens que procuraram pela primeira vez o urologista para avaliação da saúde prostática foram levados por terceiros, principalmente mulheres, entre filhas e parceiras.
O levantamento não representa todos os homens que procuram atendimento médico, mas evidencia a participação da família na decisão de buscar acompanhamento. Para Kempes, muitos homens chegam ao consultório porque alguém próximo tomou a iniciativa.
“Quando a gente pergunta para muitos homens por que eles vieram ao consultório, eles dizem: ‘Minha mulher marcou e me trouxe’”, relata.
Urologia vai muito além da próstata
A ideia de que o urologista seria apenas o “médico da próstata” também limita a compreensão sobre a especialidade. A urologia acompanha doenças do aparelho urinário de homens e mulheres e também do sistema reprodutor masculino.
“A urologia é uma especialidade médica e cirúrgica que trata do aparelho urinário feminino e masculino e do aparelho reprodutor masculino”, explica Kempes.
Na infância, podem aparecer situações como fimose, testículos que não desceram para a bolsa escrotal e alterações congênitas. Na adolescência, entram questões relacionadas à sexualidade, ISTs, ejaculação precoce e disfunção erétil.
“Temos urologia pediátrica, urologia feminina, uro-oncologia, tratamento de cálculos, reprodução e andrologia”, enumera o especialista.
Na vida adulta, cálculos renais, infecções urinárias e alterações da função sexual estão entre os motivos que podem levar ao consultório. Com o envelhecimento, problemas urinários relacionados ao crescimento benigno da próstata e disfunção erétil tornam-se mais frequentes, além da necessidade de avaliação individualizada para o câncer de próstata.
Os sinais que não devem ser ignorados
Não existe uma idade única para todos os homens começarem a procurar um urologista. A necessidade de acompanhamento depende da história familiar, dos fatores de risco, da idade e dos sintomas. O que não deve ser adiado é a investigação de alterações persistentes ou recorrentes.
Sangue na urina, dificuldade ou dor para urinar, mudança importante no fluxo urinário, necessidade frequente de levantar à noite para urinar, alterações nos testículos e problemas persistentes de ereção estão entre os sinais que justificam avaliação médica.
Para o urologista, um dos principais problemas é esperar que os sintomas desapareçam.
“Às vezes, o homem vê sangue na urina, aquilo para e ele pensa que está tudo bem. Mas o fato de ter parado não significa que a causa desapareceu”, alerta.
A consulta, porém, não precisa ser motivada por um sintoma. O acompanhamento preventivo permite avaliar fatores de risco e definir, junto ao médico, quais exames são indicados para cada pessoa.
O desafio de transformar prevenção em hábito
Para Kempes, mudar esse comportamento exige criar, desde a juventude, uma cultura em que o homem entenda que procurar atendimento não significa admitir fraqueza.
“O homem acha que precisa ser forte o tempo todo, que não pode parar para cuidar dele”, afirma.
A resistência, segundo o especialista, não se limita à urologia. Muitos homens também deixam de acompanhar outras áreas da saúde, fazendo com que a procura por atendimento aconteça apenas quando algum problema já interfere na rotina.
A mudança passa por deixar de associar cuidado à fragilidade e entender que a prevenção pode evitar complicações e preservar a qualidade de vida.
“Quem não cuida da saúde cuidará da doença”, resume Kempes.
O desafio, portanto, é fazer com que procurar um médico deixe de ser o último recurso e passe a fazer parte da rotina masculina.

