A Rockbridge Network, rede trumpista norte-americana ligada à campanha de Flávio Bolsonaro, não está apenas formulando propostas para entregar aos Estados Unidos acesso privilegiado às terras raras brasileiras em um eventual governo do senador do PL. Empresários ligados ao grupo já estão investindo numa cadeia produtiva do setor que chega a ativos minerais no sul da Bahia.
O elo passa pelo fundo 1789 Capital, criado por integrantes da Rockbridge Network, grupo que reúne empresários americanos financiadores de políticos conservadores nos EUA. O 1789 tem como sócio Donald Trump Jr., filho mais velho de Donald Trump. Em agosto de 2025, o fundo investiu na Vulcan Elements, fabricante norte-americana de ímãs de terras raras voltados principalmente aos setores de tecnologia e defesa.
A Vulcan, por sua vez, tem um acordo de fornecimento com a Energy Fuels, mineradora norte-americana que comprou, por US$ 27,5 milhões, um projeto de exploração de minerais pesados entre os municípios de Prado e Caravelas, no sul da Bahia. Segundo levantamento em registros da Agência Nacional de Mineração (ANM), a Energy Fuels tem atualmente 19 processos minerários ativos em Alcobaça, Caravelas e Prado.
Os processos na ANM envolvem substâncias como ilmenita, rutilo, zircão e monazita. Esta última contém elementos de terras raras usados na fabricação de ímãs para veículos elétricos, turbinas, celulares, computadores, satélites, drones e equipamentos militares.
A conexão empresarial ajuda a dimensionar o interesse da Rockbridge pelas reservas brasileiras. Como revelou o Amado Mundo, o candidato ao governo do Rio de Janeiro André Marinho, aliado de Flávio Bolsonaro que admitiu ter discutido a instalação de uma célula da Rockbridge no Brasil, elaborou um memorando sobre a exploração de minerais críticos num eventual governo do senador.
O documento defendia o alinhamento do Brasil aos Estados Unidos na criação de um “sistema de abastecimento paralelo” de minerais estratégicos, com o objetivo de reduzir a dependência norte-americana da China. A formulação coincide com os interesses das empresas que receberam investimentos do braço financeiro ligado à Rockbridge.
Conforme também revelou o Amado Mundo, o empresário carioca Pedro Sang, articulador da Rockbridge no Brasil, montou a estrutura do comitê de Flávio Bolsonaro em São Paulo, com tarefas que iam desde providenciar móveis até tratar de questões de infraestrutura do local, como internet. No comitê, segundo uma fonte ouvida pela reportagem, Sang se apresentava como “Pedro da Rockbridge” e despachou em diferentes situações de uma sala pequena no segundo andar do imóvel, uma casa de dois andares nas imediações do Parque do Ibirapuera.

Pedro Sang foi apresentado ao grupo americano exatamente por André Marinho, seu amigo dos tempos de colégio no Rio. A família de Marinho tem ligações com o trumpismo: a irmã dele, a cantora Giulia Be, é casada com Conor Kennedy, filho de Robert Kennedy Jr., secretário de Saúde do governo Donald Trump.
Fundo de Trump Jr. investiu na Vulcan
Criada em 2019 pelo atual vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance, e pelo empresário Chris Buskirk, a Rockbridge Network reúne investidores conservadores interessados em financiar iniciativas alinhadas à agenda da direita norte-americana.
Buskirk mantém relações com o bolsonarismo desde pelo menos 2019. Em março daquele ano, participou de um jantar oferecido a Jair Bolsonaro na residência oficial do então embaixador brasileiro em Washington. Três meses depois, esteve em Brasília para o seminário “Globalismo”, promovido pelo Itamaraty durante a gestão de Ernesto Araújo.
Buskirk também é um dos fundadores da 1789 Capital, ao lado de Omeed Malik e Rebekah Mercer. Donald Trump Jr. tornou-se sócio da gestora logo depois da eleição presidencial de 2024 nos EUA, que levou seu pai de volta à Casa Branca.
A empresa define sua estratégia como “capitalismo patriótico” e promete financiar negócios considerados importantes para a autonomia econômica e militar dos Estados Unidos. Sua página oficial afirma que o fundo busca financiar “o próximo capítulo do excepcionalismo americano”.
Em agosto de 2025, a 1789 participou de uma rodada de US$ 65 milhões na Vulcan Elements. Três meses depois, a fabricante de ímãs anunciou uma parceria de US$ 1,4 bilhão com o governo dos Estados Unidos e a ReElement Technologies.

O pacote prevê um empréstimo de US$ 620 milhões do Departamento de Guerra, US$ 50 milhões em incentivos do Departamento de Comércio e US$ 550 milhões em capital privado para expandir a Vulcan. O governo norte-americano também deverá receber participação acionária e direitos de aquisição de ações das empresas beneficiadas.
A proximidade entre o investimento da 1789 Capital e a liberação dos recursos públicos já provocou questionamentos nos Estados Unidos sobre um possível conflito de interesses. A Vulcan, o governo norte-americano e a 1789 negaram que Donald Trump Jr. tenha interferido na operação.
A conexão com a Bahia
Dias depois do investimento da 1789, a Vulcan assinou um memorando com a Energy Fuels para desenvolver uma cadeia de fornecimento de terras raras independente da China.
O acordo anunciado pelas empresas estabeleceu o envio inicial de óxidos de neodímio-praseodímio e disprósio, produzidos nos Estados Unidos, para testes na fábrica da Vulcan. Depois da validação, as companhias pretendem negociar contratos de fornecimento de longo prazo.
O documento não determina que os minerais extraídos na Bahia serão vendidos diretamente à Vulcan. Mas conecta a fabricante financiada pelo grupo de Donald Trump Jr. a uma mineradora que declara ter comprado o projeto baiano justamente para abastecer sua cadeia produtiva nos Estados Unidos.
A própria Energy Fuels afirma que o Projeto Bahia poderá fornecer monazita durante décadas para sua unidade industrial de White Mesa, no estado americano de Utah. Ali, o minério deverá ser processado e transformado nos óxidos de terras raras utilizados por fabricantes de ímãs como a Vulcan.
Em fevereiro de 2023, a Energy Fuels anunciou ter concluído a compra de 17 concessões minerais localizadas entre Prado (BA) e Caravelas (BA). As áreas somam 15.089 hectares.
Segundo a empresa, o projeto poderá produzir de 3 mil a 10 mil toneladas de concentrado de monazita por ano. O material seria suficiente, nos cálculos divulgados pela própria companhia, para fornecer terras raras destinadas à fabricação de componentes para até 1 milhão de veículos elétricos anualmente.
Os dados da ANM mostram que a presença da Energy Fuels na região é ainda mais ampla. Além dos 17 processos informados aos investidores norte-americanos, a empresa apresentou outros dois pedidos em 2023. As áreas alcançam os municípios de Prado, Caravelas e Alcobaça.
Nenhum dos processos consultados, porém, possui concessão de lavra, etapa que autoriza a exploração comercial do minério. A empresa ainda depende de licenças e autorizações brasileiras para transformar o projeto em uma mina em operação.
Em documentos apresentados à Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos, a Energy Fuels reconhece como fator de risco a possibilidade de governos brasileiros adotarem medidas — ou deixarem de adotar medidas — que afetem o licenciamento do empreendimento.
Discurso de Flávio coincide com estratégia empresarial
A cadeia empresarial ganha relevância política porque coincide com as propostas apresentadas por pessoas próximas à campanha de Flávio Bolsonaro.
Em março, durante um discurso na Conferência de Ação Política Conservadora, a CPAC, Flávio afirmou que o Brasil seria “a solução para os Estados Unidos quebrarem a dependência da China por minerais críticos, especialmente terras raras”.
Um mês depois, o empresário Tallis Gomes afirmou integrar a Rockbridge, assessorar candidatos à Presidência e trabalhar para “vender o Brasil”. Ao mencionar as terras raras, defendeu a aproximação com investidores estrangeiros. Em maio, Tallis participou de um evento em Nova York ao lado de Chris Buskirk.

O memorando elaborado por André Marinho foi ainda mais explícito. O texto projetava que, num governo Flávio Bolsonaro, o Brasil se alinharia aos Estados Unidos para formar uma cadeia alternativa à chinesa e aceleraria reformas na legislação minerária e de licenciamento.
É exatamente a estratégia adotada pela Vulcan e pela Energy Fuels. Ao anunciarem sua parceria, as empresas afirmaram que pretendiam construir uma cadeia norte-americana de ímãs de terras raras “independente da China”.
Não há evidências de que Flávio Bolsonaro, Marinho ou integrantes de sua campanha tenham participado da aquisição das áreas minerais na Bahia, concluída em 2023. Tampouco há, até agora, um contrato que obrigue a Energy Fuels a fornecer à Vulcan minerais provenientes do projeto brasileiro.
Os documentos revelam, no entanto, que a rede envolvida na elaboração de propostas sobre terras raras para um eventual governo Flávio tem interesses econômicos concretos no setor. E que essa cadeia chega a direitos minerários adquiridos no Brasil por uma empresa que pretende usar a matéria-prima baiana para abastecer a indústria estratégica dos Estados Unidos.
Fonte: Amadomundo

