Alfredo R. Neves (Cientista Social, Vice-presidente da Academia Macauense de Letras e Artes e Membro do Instituto Histórico e Geográfico do RN)
Há livros que se oferecem ao leitor como uma sucessão de histórias; outros, porém, exigem que entremos neles como quem atravessa uma paisagem de símbolos, sombras, espelhos e reincidências. Contos Monocromáticos, de João Andrade, pertence claramente à segunda categoria. Embora estruturado em contos, o livro não se deixa reduzir à autonomia tradicional de cada narrativa. Há nele uma espécie de continuidade subterrânea, imagens retornam, personagens parecem renascer, situações reaparecem transformadas, e determinadas palavras, tais quais, primavera, verme, azul, árvore, abismo, luz, morte, desejo, funcionam quase como sinais espalhados ao longo de uma mesma experiência literária.
A própria dedicatória já estabelece o território humano escolhido pelo autor. João Andrade entrega seu livro “aos mudos, aos imundos, aos inválidos, aos que não sabem quem são”, aos párias e aos que vivem no medo. Não me parece um gesto meramente retórico. Essa escolha anuncia uma literatura interessada menos nos homens reconciliados consigo mesmos do que nos desajustados, nos feridos, naqueles que carregam alguma espécie de inadequação diante do mundo. É nesse espaço da fissura humana que os contos encontram sua matéria.
O prefácio de Alexsandro Alves, significativamente intitulado O Evangelho Segundo João, oferece uma chave importante de leitura. Sua tese central aproxima a obra do Evangelho de João, não pela reprodução da doutrina cristã, mas por uma revisitação literária, filosófica e até herética da figura de Cristo. O prefaciador percebe que o livro parte de uma origem quase cosmogônica, na qual a existência de um verme, nos confins do universo, antecede uma longa sucessão de nascimentos, mortes e ressurreições. Para ele, Jesus atravessa os contos em “várias metempsicoses”, assumindo uma presença que não corresponde necessariamente ao Cristo convencional das igrejas.
Essa leitura é particularmente fecunda porque ilumina a intenção mais ambiciosa da obra, João Andrade parece interessado em retirar o sagrado de seus lugares protegidos. Seu Cristo não permanece imóvel no altar. Ele passa pelo corpo, pelo sofrimento, pelo sexo, pelo grotesco, pela loucura, pela dúvida e pela morte. Em vez de separar radicalmente o sagrado do profano, o autor frequentemente os coloca em contato. Daí nasce uma das tensões mais interessantes do livro, a redenção pode aparecer ao lado da decomposição; a luz pode emergir do abismo; o erotismo pode assumir a forma de ritual; a existência humana pode ser sublime e, ao mesmo tempo, reduzida à condição primordial de um verme.
O conto inicial: Um Minúsculo Verme, é decisivo para compreender essa arquitetura. A criatura surge como a forma mais elementar da vida, perdida num universo aparentemente sem finalidade. Depois, atravessada por uma energia luminosa, adquire consciência e imagina sua própria transformação, vê a humanidade, as cidades, os impérios, as guerras, a destruição e, finalmente, a possibilidade de ser princípio e fundamento. O movimento é extraordinário porque vai da pequenez absoluta à pretensão de grandeza absoluta. O homem nasce do verme, mas nunca deixa inteiramente de sê-lo. A consciência, nesse sentido, é bênção e condenação. Quanto mais o ser humano compreende sua existência, mais percebe o abismo que o separa da certeza.
Essa contradição percorre todo o livro. O homem de João Andrade deseja transcender sua matéria, mas é continuamente devolvido ao corpo. Quer tornar-se espírito, mas sangra; quer alcançar a verdade, mas encontra vertigem; procura Deus, mas esbarra no silêncio; busca o amor, mas o amor frequentemente se converte em obsessão, erotismo, perda, violência ou impossibilidade.
O prefácio acerta ao destacar também a estrutura fragmentária do conjunto. Alexsandro Alves compara os contos a “estilhaços de um espelho”, afirmando que a unidade narrativa nasce menos de uma progressão linear do que da repetição e transformação de determinadas células e imagens. Essa talvez seja uma das características mais pessoais de Contos Monocromáticos. João Andrade não parece preocupado em conduzir o leitor por uma estrada reta. Sua narrativa avança por círculos, retornos e ressonâncias.
A primavera é um dos exemplos mais evidentes. Ela volta inúmeras vezes, mas raramente como uma primavera triunfal. É a estação das flores que nascem em terrenos abandonados, nas frestas, nas ruas esquecidas. É uma primavera precária e insistente. Em uma das passagens, flores amarelas teimam em nascer onde a vida parece haver recuado. Em outra, a própria condição de florescer adquire a força de uma “desobediência ontológica”. Há aí uma bela metáfora da existência: permanecer vivo talvez seja menos uma vitória do que uma teimosia.
Também a cor azul percorre a obra de maneira insistente. É céu, água, clarão, fogo, memória, flor, transcendência. Curiosamente, um livro chamado Contos Monocromáticos é, como observa o prefácio, intensamente visual e cromático. João Andrade, também artista plástico, escreve muitas vezes como quem pinta. Alexsandro Alves percebe justamente isso ao dizer que a imagética do autor transforma páginas em uma verdadeira tapeçaria, na qual o visual chega a se sobrepor à ação narrativa. O título, assim, ganha algo de provocação, o monocromático não significa ausência de cor. Talvez signifique antes a tentativa de submeter infinitas tonalidades a uma mesma atmosfera interior.
Outro aspecto inevitável é o corpo. E o corpo aqui raramente aparece pacificado. Há desejo, nudez, sexualidade, mutilação, sangue, vísceras e decomposição. Em alguns contos, sobretudo quando erotismo e horror se aproximam, a leitura se torna deliberadamente desconfortável. O prefácio assinala essa passagem do existencialismo para um hedonismo mais permissivo e percebe, em determinadas cenas, uma tonalidade próxima do horror grotesco. Esse exagero corporal não me parece gratuito. Se o autor pretende investigar a possibilidade de transcendência, ele o faz justamente a partir daquilo de que não podemos escapar, somos matéria. Amar ocorre no corpo; sofrer ocorre no corpo; morrer é a dissolução do corpo.
Por isso, talvez a imagem mais persistente de Contos Monocromáticos não seja propriamente a morte, mas a transformação. Tudo parece destinado a tornar-se outra coisa. O verme imagina tornar-se homem; o homem deseja tornar-se espírito; a morte pode gerar renascimento; masculino e feminino buscam fundir-se; personagens reaparecem como se estivessem vivendo outras possibilidades de uma mesma existência. Em determinada passagem, a união entre homem e mulher dissolve a oposição entre carne e espírito e aponta para a recomposição de um “uno” perdido. Essa busca pela unidade é uma das forças metafísicas do livro.
Ao mesmo tempo, não há reconciliação fácil. O autor insiste no sofrimento, na solidão e na insuficiência das respostas humanas. Um dos personagens chega a afirmar que o indivíduo encontra o mundo já organizado por valores que o precedem, sendo resultado de herança e circunstâncias que não escolheu. É uma visão severamente existencial. A liberdade, tão celebrada por parte da filosofia moderna, aqui aparece comprometida pela contingência. O ser humano deseja escolher-se, mas chega tarde à própria existência.
Talvez por isso o livro dialogue com tantos escritores e pensadores. Nietzsche, Camus, Hermann Hesse, Ferreira Gullar, Vinícius de Moraes, Murakami, Franz Kafka e tantos outros não entram apenas como ornamento erudito. As epígrafes, referências e apropriações compõem uma biblioteca interior do autor. O prefácio percebe que essas presenças participam da própria arquitetura dos contos e que cada narrativa, em muitos casos, parece ressuscitar alguma voz anterior, devolvendo-a modificada. João Andrade lê esses autores para incorporá-los à própria imaginação, não para simplesmente reproduzi-los.
Essa intenção alcança seu momento mais explícito no conto final, A Casa Verde. Ali, a literatura, a filosofia, a religião, a história e a loucura são colocadas no mesmo espaço. Napoleão, Átila, Alexandre, Nero, Hitler, filósofos gregos, poetas, profetas, psicanalistas e figuras bíblicas passam a coexistir numa espécie de grande teatro da consciência humana. É como se todas as vozes espalhadas pelo livro fossem convocadas para uma última cena.
E então Jesus, antes percebido por alusões e renascimentos, aparece finalmente nomeado. Não surge, entretanto, como representação convencional, possui aparência que rompe a iconografia europeia e é descrito como figura de traços africanos. Esse Cristo continua contraditório, capaz de falar em amor e em juízo, de anunciar paz e espada, de aparecer simultaneamente como redentor e como homem percebido pelos outros como louco. A ambiguidade é fundamental.
Nas páginas finais, as imagens do início retornam, a árvore, o fruto, a luz azul, a convulsão do corpo, o Verbo, os impérios, a guerra, o poder e o clarão cósmico. O livro fecha o círculo sem propriamente encerrá-lo. O próprio prefácio chama atenção para essa abertura, não sabemos definitivamente se estamos diante do fim ou de um novo princípio.
É nessa indefinição que encontro a força maior de Contos Monocromáticos. João Andrade não parece querer oferecer respostas, mas produzir deslocamentos. Sua literatura pergunta o que resta do homem quando retiramos dele suas certezas. Pergunta o que resta de Deus quando retiramos a instituição religiosa. Pergunta o que resta do amor quando o afastamos da idealização. Pergunta, sobretudo, quem somos quando encaramos nossa origem, nossa matéria, nossa violência, nosso desejo e nossa inevitável mortalidade.
Ao terminar a leitura, fica a impressão de que aquele minúsculo verme das primeiras páginas nunca desapareceu. Ele continua dentro de todas as personagens e talvez dentro de todos nós, criatura insignificante diante do universo e, paradoxalmente, capaz de perguntar pelo universo inteiro.
João Andrade constrói, assim, um livro inquieto, excessivo em alguns momentos, lírico em outros, deliberadamente sombrio, filosófico e profundamente imagético. Não pretende oferecer conforto. Pretende perturbar a superfície. E a literatura, quando consegue nos obrigar a olhar outra vez para aquilo que julgávamos conhecer, Deus, o corpo, a morte, o desejo, a loucura e nós mesmos, cumpre uma de suas tarefas mais antigas.
Contos Monocromáticos faz precisamente isso, transforma a leitura em espelho. O problema é que, diante desse espelho, nem sempre reconhecemos o rosto que aparece.

