Por Elane Nascimento
A ocupação Luiz Beltrame, localizada no conjunto Parque dos Coqueiros, na Zona Norte de Natal, guarda histórias de sobrevivência marcadas pela extrema vulnerabilidade social. Quatro anos após a primeira visita do Diário do RN, em 2022, quando Simone, Josiana, Jarlene e Tereza enfrentavam diariamente a incerteza de ter o que comer, a realidade local passou por transformações silenciosas. Embora a fome extrema tenha recuado no cotidiano das 70 famílias da comunidade graças à atuação assistencial das igrejas Assembleia de Deus e Batista e aos recursos do programa Bolsa Família, garantir as três refeições diárias, principalmente ao final de cada mês, ainda é um equilíbrio delicado sobre o chão de terra batida.
No interior dos barracos erguidos com tapumes de madeira, compensado e coberturas improvisadas de lona, a batalha agora se concentra em conquistar autonomia financeira e segurança alimentar.
Josiana: “A gente só passa bem quando tem”
Josiana Cláudia do Nascimento Silva, de 32 anos, que vive com o filho adotivo Enzo, de 4 anos, vê no horizonte a chance de mudar de vida. Ela acaba de concluir um curso gratuito de Corte e Costura oferecido pelo SENAI e já tem como garantia uma vaga na indústria têxtil do Rio Grande do Norte.
“Lá (no curso) elas entregavam a peça e a gente montava tudo. Agora vai mudar, vai melhorar bastante”, projeta Josiana, com o certificado em mãos.
Apesar da expectativa de emprego, as dificuldades materiais persistem no armário de Josiana, onde panelas vazias dividem espaço com pequenas porções de alimentos básicos. O preço elevado das proteínas continua sendo o maior obstáculo para a nutrição de sua família.
“A mistura (proteína) é difícil, mas o grosso (feijão, arroz, flocão de milho, sal, óleo de cozinha) graças a Deus hoje tem”, afirma ela.
A renda restrita do auxílio governamental exige um esforço mútuo e constante de solidariedade e empréstimos comunitários para que as famílias não fiquem desamparadas no fim do mês.
Josiana descreve esse malabarismo diário:
“A gente sobrevive assim, porque o dinheiro sai hoje e no final do mês já estamos aí sem nada. A gente só passa bem quando tem. Cada uma tem sempre uma dívida. Acaba aqui a gente pede: ei, me empresta R$ 100, quando receber, te passo. E assim a gente vai sempre buscando ajuda. Deus foi fazendo o sobrenatural. Para pior a gente não pode ir, tem que ir para o melhor”.


Simone: “Eu continuo na reciclagem e sempre ali na balança, no limite”
A alguns passos do barraco de Josiana, Simone dos Santos, de 53 anos, compartilha do mesmo sentimento de luta contínua, mas celebra as pequenas conquistas com um sorriso largo. O acesso ao Programa do Leite trouxe um alívio tangível para o sustento de suas quatro filhas, uma sobrinha e um neto.
“Eu engordei mais”, diverte-se Simone ao falar sobre as mudanças recentes. “E a sorte da gente também é porque agora tem esse programa do leite, que a gente recebe. A gente não recebia antes. Com o leite, aí come um cuscuzinho regado, é bom demais”, comenta com um sorriso que sai dos lábios e transborda no olhar.
Cuidando do sustento da casa por meio da coleta de materiais recicláveis, Simone reconhece que a estabilidade ainda é parcial e depende de doações de cestas básicas. No entanto, a dignidade na mesa é defendida dia após dia.
“Já foi mais difícil. Eu continuo na reciclagem e sempre ali na balança, no limite. Graças a Deus tem também pessoas de bom coração que ajuda com uma cesta básica, às vezes, principalmente as igrejas evangélicas”, relata.
Com otimismo, ela completa: “Às vezes não tem para o café da manhã, mas a gente tem no almoço. No jantar eu vou comer cuscuz com leite!”, referindo-se ao “cuscuz do jantar que às vezes sobra e a gente come no café da manhã”.
No armário improvisado, Simone aponta para os alimentos armazenados que irão garantir as refeições da família ao longo dos próximos dias: dois quilos de feijão preto, mais dois de feijão carioca, um saco com aproximadamente um quilo de feijão da terra, três quilos de arroz, quatro de açúcar e oito pacotes de flocão de milho.
Enquanto isso na geladeira, restavam apenas uma panela com água, dois sacos de leite e um pouco de sardinha congelada.
Horta comunitária
Há dois anos, a alimentação de Luiz Beltrame ganhou o reforço de uma horta comunitária gerenciada pelos próprios moradores, que produz hortaliças, tubérculos, frutas e ervas medicinais. Simone, uma das responsáveis pelo plantio, orgulha-se da qualidade do que colhem na terra da ocupação: “Tudo natural, sem agrotóxico! ”.
Apesar do avanço na segurança alimentar, a barreira da escolaridade e a idade limitam o acesso dessas mulheres ao mercado de trabalho formal, perpetuando a dependência do trabalho autônomo na reciclagem.
“Não é que a gente não queira trabalhar. A realidade é o trabalho para a mãe de família que não tem estudo é muito difícil e também pela idade. Eu, por exemplo, já estou com 53 anos, e não estou trabalhando não é porque não quero, mas porque muito trabalho pede estudo e eu não chego nem na porta”, reflete Simone.
A baixa escolaridade, porém, não é um fardo que pretendem levar para seus filhos. Todas as crianças estão matriculadas e frequentam regularmente a rede pública de ensino.
Abandonadas pelos companheiros, essas mulheres sustentam suas casas sozinhas e projetam no futuro o sonho coletivo de uma moradia que lhes garanta segurança física e social. Cadastradas em programas habitacionais do município de Natal desde 2016, elas aguardam a conclusão dessa promessa.
“O sonho de toda mãe de família é ter uma moradia digna. Daqui a quatro anos, a gente imagina isso e evoluir cada vez mais”, resume Simone. Josiana completa com o mesmo anseio por estabilidade: “Que chegue coisas boas para nós, a gente ainda precisa no dia a dia, porque não é todo dia que a gente tem. É pela nossa família que a gente sobrevive”.
“Sem a fé a gente não chega a lugar nenhum. É Deus primeiramente”, conclui Simone, sintetizando o sentimento de resiliência.

