Por Elane Nascimento
O jornalismo do Rio Grande do Norte perdeu um grande talento no domingo (23): jornalista Francisco Rodrigues de Carvalho Neto, conhecido como Rodrigues Neto. Diretor da TV Câmara Natal, ele morreu em Natal no dia em que completava 59 anos, deixando uma trajetória marcada pela televisão, pela gestão cultural e por relações de amizade que atravessaram décadas de profissão.
A morte foi confirmada pelo presidente da Câmara Municipal de Natal, Eriko Jácome, que publicou uma nota de pesar nas redes sociais.
“Grande jornalista, diretor da TV Câmara, que nos deixa uma história marcada pelo talento e pelo jeito extrovertido, divertido e leve de ser”, escreveu.
Rodrigues Neto comandava a TV Câmara Natal havia anos e, em 2023, foi citado pela própria Casa Legislativa durante a solenidade em comemoração aos 20 anos da emissora. Ao longo da carreira, também atuou na TV Ponta Negra e presidiu a Fundação Cultural Capitania das Artes (Funcarte).
Sindjorn destaca legado para a comunicação potiguar
Em nota de pesar, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Norte (Sindjorn) ressaltou a importância da trajetória de Rodrigues Neto para a comunicação do Estado.
“Profissional de reconhecida trajetória na comunicação potiguar, Rodrigues Neto construiu parte importante de sua carreira na TV Ponta Negra e também deixou sua contribuição à cultura e à gestão pública, tendo presidido a Fundação Cultural Capitania das Artes (Funcarte). Atualmente, estava à frente da TV Câmara de Natal”, destacou o sindicato.
A entidade também ressaltou a personalidade do jornalista.
“Mais do que sua trajetória profissional, Rodrigues deixa a lembrança de quem conviveu com sua irreverência, espontaneidade e, sobretudo, com a forma generosa com que cultivava amizades”, afirmou.
“Ele era meu ‘para-choque’”
Bosco Afonso, ex-diretor de jornalismo da TV Ponta Negra, onde os dois trabalharam juntos por muitos anos, emocionado, relembrou o início da trajetória de Neto na televisão e destacou a parceria construída ao longo da carreira.
Bosco recordou que ambos aprenderam e cresceram profissionalmente na emissora, ressaltando a rapidez com que Rodrigues Neto assimilou a rotina do telejornalismo. “Neto foi um desses, que chegou também sem conhecer o que era televisão, o que era jornalismo na televisão. E ele teve uma audácia, foi audacioso. Aprendeu rapidinho e a convivência com ele foi de uma forma muito irmanada. A minha relação com ele foi até uma relação de pai para filho”, lembrou.
Ao explicar por que costumava dizer que Rodrigues Neto era o seu “para-choque”, Bosco não conteve a emoção. “Isso me emociona muito. Quando eu falo que ele foi meu para-choque, é porque, na maioria das vezes, todos os problemas, os problemas que não são públicos diariamente em uma redação de televisão, de um jornal, passavam primeiro por ele. E ele, por algum tempo, foi meu para-choque. Era quem segurava muitas coisas para que não chegassem até a minha pessoa”, disse.
“Ele era amigo de verdade”

A jornalista Fernanda Souza falou ao Diário sobre a convivência diária durante os anos em que trabalhou na Câmara Municipal de Natal.
“Falar de Neto é lembrar daquele jeito que só ele tinha que misturava toda a elegância, era um homem muito cheiroso… era aquele abraço afetuoso sempre. Ríamos muito”, contou.
Fernanda destacou a lealdade do amigo.
“Ele é uma pessoa muito leal, ele é amigo de verdade, amigo dos amigos. Em defesa dos amigos, ele ia até o fim”, afirmou.
“Ríamos muito, somos conhecidos pelas nossas risadas e gargalhadas, mas mesmo com esse jeito dele, divertido, sempre alto-astral, um profissional de mão cheia, que marcou em sua época muito ligada às artes, foi presidente da Funcarte, e exerceu o seu trabalho com muita dignidade”, destacou ainda.
“Foi paixão mesmo. E foi recíproco”
Nas redes sociais, o jornalista Daniel Cabral, recordou o início da própria carreira ao lado de Rodrigues Neto.
“Conheci Nero em 1998. Eu estagiário e ele editor do programa de Toinho Silveira. Ele me ensinou muito. Teve papel fundamental na minha carreira”, lembrou.
Daniel contou que Rodrigues Neto foi quem insistiu para que ele tivesse oportunidade diante das câmeras.
“Dizia o grande Inaldo Farias que Neto havia se apaixonado por mim, pois nunca tinha visto uma vontade tão grande de que eu, ainda estagiário, fosse para o vídeo como repórter. E foi paixão mesmo. E foi recíproco”, recordou.
Ao falar sobre o jeito exigente do editor, destacou o cuidado que ele tinha com cada detalhe da reportagem.
“Neto era bom humor em pessoa, e assim ele também ensinava e exigia. Com ele, eu aprendi que o telespectador deveria assistir ao que havia de melhor, do texto à plástica: o cabelo, o blazer, a cor da camisa, o tom da voz, a luz. Tudo era composição da reportagem”, escreveu.
Ao encerrar a homenagem, resumiu a importância do amigo em sua vida.
“Meu amigo, obrigado por tudo que você foi para mim. Você sempre estará presente na minha vida”, escreveu.
“Foi meu primeiro chefe”

A jornalista Lídia Pace registrou o período em que trabalhou sob a direção de Rodrigues Neto.
“Neto foi meu primeiro chefe quando comecei no jornalismo profissional. Uma figura! Com ele não tinha meio termo, era passional, empolgado, divertido, engraçado… mestre em dar ‘bailes’ que também nos ajudaram a moldar quem somos hoje”, comentou.
Ela também agradeceu pelos ensinamentos.
“Obrigada por tudo, Netinho, sua alegria em viver fará falta aqui, mas vai alegrar o céu, com toda certeza. Fique em paz”, escreveu.
“Foi ele quem abriu as portas para mim”
A jornalista Angélica Hipólito também prestou homenagem ao ex-chefe, a quem atribuiu o início da carreira na televisão.
“Falar de Neto é falar de um profissional disposto a ensinar. Ele me abraçou no início da minha carreira. Foi exigente, carinhoso e bondoso ao mesmo tempo. Perfumado, deixava o cheiro onde tocava, caneta, mesa, cadeira… e com certeza deixa o rastro do legado como deixou seu cheiro por onde passou!”, disse.
Ela lembrou do cotidiano na redação ao homenagear Neto nas redes sociais.
“Eu nunca vou esquecer a cena dele chegando à redação. Dava bom dia, passava por cada pessoa, deixando o cheiro de perfume na gente. Beijava a cabeça de cada um, colocava apelido, brincava… E depois vinha a cobrança. Era assim o nosso Neto. Do jeito dele. Único”, recordou.
“Você vai fazer muita falta”

O jornalista Kleber Teixeira também lembrou que Rodrigues Neto foi responsável por sua primeira oportunidade na televisão.
“Foi ele quem me deu a primeira oportunidade no jornalismo na TV Ponta Negra e quem me acolheu novamente na TV Câmara Natal, quando precisei logo após a pandemia”, afirmou.
Ao se despedir, resumiu o sentimento compartilhado por muitos colegas de profissão.
“Que Deus te receba, meu amigo. Você vai fazer muita falta”, escreveu.
Ao longo das homenagens, um sentimento se repetiu entre colegas, amigos e ex-companheiros de redação: a lembrança de um profissional exigente, apaixonado pelo jornalismo, generoso na formação de novos talentos e reconhecido pela lealdade às pessoas com quem conviveu.

