Por Fernanda Sabino
A eleição de 1994 abriu um novo capítulo na trajetória política de Garibaldi Alves Filho e recolocou frente a frente dois grupos que há décadas protagonizavam as principais disputas do Rio Grande do Norte. Depois de quatro mandatos como deputado estadual, uma passagem pela Prefeitura de Natal e a eleição para o Senado, Garibaldi chegou ao Governo do Estado ao derrotar o ex-governador Lavoisier Maia ainda no primeiro turno.
Realizada em 3 de outubro daquele ano, a eleição também trouxe uma particularidade em relação ao pleito anterior. Se em 1990 os primos José Agripino e Lavoisier Maia haviam disputado o Governo em lados opostos, dividindo politicamente a família, quatro anos depois estavam novamente juntos. Agripino, candidato ao Senado, apoiou Lavoisier, que tentava retornar ao Executivo estadual, cargo que ocupou até 1982. Do outro lado estava Garibaldi, representante de uma família que historicamente rivalizava com os Maia.
Nas urnas, Garibaldi, candidato do PMDB, recebeu 489.765 votos, equivalentes a 52,67% dos válidos, e encerrou a disputa no primeiro turno. Fernando Freire (PPR) foi eleito vice-governador.

Lavoisier (PDT), que tinha Rosalba Ciarlini (PFL) como vice, obteve 359.870 votos, ou 38,70%.
A composição das duas principais chapas guardava ainda uma curiosidade que ganharia significado nos anos seguintes: tanto Fernando Freire quanto Rosalba Ciarlini chegariam ao Governo do Estado. Freire assumiu o cargo em 2002, após a renúncia de Garibaldi para disputar o Senado, enquanto Rosalba foi eleita governadora em 2010 e tomou posse no ano seguinte.
A disputa contou ainda com Fernando Mineiro (PT), que recebeu 44.596 votos (4,80%), e Wilma de Faria (PSB), com 35.591 (3,83%). Garibaldi foi o mais votado em 111 dos 161 municípios existentes no Rio Grande do Norte à época, enquanto Lavoisier venceu em 50.
O resultado levou Garibaldi ao principal cargo do Executivo estadual após uma trajetória política que, segundo ele próprio, teve um ponto de inflexão quase uma década antes: a eleição para prefeito de Natal, em 1985.
Experiência na Prefeitura

Ao recordar a campanha de 1994, em entrevista ao Diário do RN, Garibaldi volta à experiência na Prefeitura para explicar o caminho que o levou ao Governo. Até chegar ao Palácio Felipe Camarão, havia exercido quatro mandatos de deputado estadual, mas ainda não tinha comandado uma administração pública. A eleição municipal, realizada após duas décadas de prefeitos nomeados na capital, deu a ele a primeira experiência no Executivo.
“A minha eleição para a Prefeitura de Natal em 1985 foi indispensável para essa minha escalada para cargos estaduais e federais, de senador, governador, ministro. Eu tinha sido deputado estadual quatro vezes, mas não sabia administrar”, relembrou.
A estreia, segundo ele, mostrou rapidamente o tamanho da responsabilidade. Garibaldi recorda que, no primeiro dia de expediente em 1986, encontrou uma fila de pessoas que saía da Prefeitura e se estendia pela rua. Não era uma mobilização para comemorar a posse, como ele próprio brinca ao relembrar o episódio, mas uma população que já chegava cobrando soluções do novo prefeito.
“Não era para me aclamar, não. Já era para cobrar”, contou. Diante da quantidade de pessoas, disse ter feito um discurso na porta da Prefeitura pedindo paciência e compreensão. “Eu estava chegando, subindo as escadas pela primeira vez. Fiz um apelo dramático. A coisa foi se normalizando, mas não foi fácil.”
A passagem pelo Executivo municipal seria determinante para os passos seguintes. Encerrado o mandato, Garibaldi atravessou um período de dois anos sem ocupar cargo eletivo, situação que admite ter provocado preocupação sobre o futuro político.
“Eu passei dois anos sem mandato e tive uma eleição surpreendente, para mim pelo menos, para senador”, recordou.
Em 1990, ele foi eleito para o Senado com 404.206 votos. Quatro anos depois, deixou a cadeira para disputar o Governo. A experiência acumulada na Prefeitura, segundo Garibaldi, deu a ele mais segurança para enfrentar o novo desafio.
“Foi uma campanha muito desafiadora”, definiu. Ao comparar a chegada à Prefeitura com a posse posterior no Governo, Garibaldi reconhece que a experiência administrativa adquirida em Natal fez diferença. “Quando assumi o Governo, já foi muito mais fácil. Já tinha a experiência do Executivo, já tinha enfrentado esses desafios. Aí realmente me senti muito mais à vontade, disse.”
Reencontro dos Maia
A disputa de 1994 retomou uma história de alianças e rupturas entre os principais grupos políticos do Estado. Em 1982, José Agripino derrotou Aluízio Alves na corrida pelo Governo, em um dos confrontos mais marcantes entre as famílias Maia e Alves. Quatro anos depois, em 1986, Agripino deixou o Governo para disputar o Senado e esteve no mesmo campo de João Faustino, candidato ao Executivo, e de Lavoisier Maia, também candidato ao Senado.
Naquele ano, João Faustino acabou derrotado por Geraldo Melo, mas Agripino e Lavoisier conquistaram juntos as duas vagas para o Senado. A união entre os primos, no entanto, seria rompida na eleição seguinte. Em 1990, os dois disputaram diretamente o Governo: Lavoisier recebeu o apoio do então governador Geraldo Melo e do grupo Alves, enquanto Agripino venceu a disputa no segundo turno.
Em 1994, houve uma nova reviravolta. Depois de terem sido aliados em 1986 e adversários em 1990, Agripino e Lavoisier voltaram ao mesmo campo político. Agripino buscava retornar ao Senado e apoiou o primo na tentativa de voltar ao Governo. A reaproximação dos Maia, porém, não impediu a vitória de Garibaldi Alves Filho no primeiro turno, recolocando as duas famílias em lados opostos na disputa pelo Executivo estadual.
Senado e proporcionais
Se Garibaldi venceu o Governo, José Agripino conquistou uma das duas vagas para o Senado. O mais votado foi Geraldo Melo (PSDB), ex-governador do Estado, com 441.707 votos, ou 27,75%.
Agripino (PFL) ficou com a segunda cadeira ao receber 387.935 votos, equivalentes a 24,37%.
Nas eleições proporcionais, o PFL saiu com a maior representação. Das oito vagas do Rio Grande do Norte na Câmara dos Deputados, o partido conquistou cinco, enquanto o PMDB elegeu dois representantes e o PSDB, um. Na Assembleia Legislativa, o PFL também formou a maior bancada, com dez das 24 cadeiras, seguido pelo PMDB, com oito.
A vitória levou Garibaldi, então com 47 anos, ao Governo do Rio Grande do Norte. Ele tomou posse ao lado de Fernando Freire em 1º de janeiro de 1995 e, quatro anos depois, seria novamente escolhido pelos potiguares para permanecer no cargo. A eleição de 1994 também reuniu nas duas principais chapas três nomes que chegariam ao comando do Estado: Garibaldi, Fernando Freire e Rosalba Ciarlini, personagens que permaneceriam por décadas no centro da política potiguar.

