Por Jairton Medeiros
Dados do Estado não identificam diretamente a cifra apresentada pelo pré-candidato; investimentos também mostram diferença proporcional pequena entre Governo do Estado e Mossoró.
O principal número apresentado pelo ex-prefeito de Mossoró e pré-candidato ao Governo do Estado, Allyson Bezerra (União Brasil), durante sabatina realizada na Casa da Indústria, promovida em parceria pela Midiacom/RN e pela Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte (FIERN), exige uma explicação objetiva: de onde vêm os R$ 3,5 bilhões que ele classificou como “débito orçamentário” deixado de 2025 para 2026?
A afirmação, feita ao criticar a situação fiscal do Governo do Estado, não aparece diretamente nos principais números do Relatório Resumido da Execução Orçamentária (RREO) de 2025.
No 6º bimestre de 2025, o Estado registrou aproximadamente R$ 23,8 bilhões em despesas empenhadas, R$ 23,3 bilhões liquidadas e R$ 21,9 bilhões pagas. A diferença entre empenhado e liquidado foi de cerca de R$ 512,9 milhões. Entre o liquidado e o pago, aproximadamente R$ 1,4 bilhão. Já a diferença entre o total empenhado e o efetivamente pago ficou em torno de R$ 1,9 bilhão.
Nenhuma dessas diferenças corresponde diretamente aos R$ 3,5 bilhões citados por Allyson e a questão, portanto, não é apenas o tamanho do número, mas sua origem.
INVESTIMENTOS: DIFERENÇA PROPORCIONAL É DE 0,50 PONTO
Outro ponto central do discurso de Allyson foi a crítica ao volume de investimentos realizados pelo Governo do Estado.
Os dados de 2025 mostram que Mossoró liquidou R$ 39,19 milhões em investimentos, diante de uma Receita Corrente Líquida (RCL) de R$ 1,4 bilhão. O volume corresponde a aproximadamente 2,77% da receita.
No Governo do Estado, os investimentos liquidados chegaram a R$ 605,19 milhões, enquanto a RCL alcançou R$ 26,656 bilhões. Proporcionalmente, os investimentos representaram cerca de 2,27% da receita.
A diferença entre os dois percentuais é de aproximadamente 0,50 ponto percentual.
Em valores absolutos, a distância é enorme: R$ 605 milhões no Estado contra R$ 39 milhões em Mossoró. Mas a comparação proporcional muda a leitura. A receita corrente líquida estadual foi quase 19 vezes maior que a de Mossoró em 2025, e os dois governos destinaram pouco mais de 2% da RCL aos investimentos.
Mossoró apresenta percentual superior, mas os números não indicam, por si só, uma diferença tão ampla quanto aquela sugerida pelo discurso político.
FOLHA DE PESSOAL: ALLYSON CRITICA LIMITE, MAS OMITE O CENÁRIO QUE FÁTIMA RECEBEU DE ROBINSON
Na crítica à situação fiscal do Rio Grande do Norte, Allyson Bezerra também deixou de mencionar um dado importante sobre a despesa com pessoal, embora tenha razão dos números que apresentou do Estado onde ainda esteja acima do limite legal, o percentual atual é inferior ao cenário encontrado pela governadora Fátima Bezerra ao assumir o Governo em 2019
Fátima recebeu o Estado das mãos do então governador Robinson Faria e atual aliado no palanque político do ex-prefeito e candidato a governador Allyson Bezerra, com a despesa de pessoal consumindo 63,64% da Receita Corrente Líquida Ajustada.
Naquele momento, a RCL ajustada era de R$ 8,826 bilhões e a Despesa Total com Pessoal chegava a R$ 5,617 bilhões. O limite máximo estabelecido pela Lei de Responsabilidade Fiscal era de 49%.
Ou seja, o Estado começou a gestão Fátima 14,64 pontos percentuais acima do limite máximo permitido.
No dado mais recente extraídos da RGF do 1º quadrimestre de 2026, a despesa total com pessoal alcança R$ 11,28 bilhões, equivalente a 56,12% da RCL Ajustada. O Estado continua acima do limite legal, mas o percentual caiu 7,52 pontos percentuais em relação ao cenário recebido em 2019.
O debate pode e deve cobrar da atual administração uma solução definitiva para o excesso de pessoal. Mas uma análise fiscal responsável precisa considerar a trajetória completa: o Estado saiu de 63,64% da RCL ajustada para 56,12%.
A folha continua acima do limite. Isso é fato.
Mas também é fato que o Estado não está no mesmo ponto em que foi recebido por Fátima Bezerra.
No discurso eleitoral, entretanto, esse detalhe pode fazer diferença: a crise fiscal não começou agora, e os números mostram uma redução do comprometimento da receita com pessoal, ainda que insuficiente para recolocar o Estado dentro do limite legal.
A RÉGUA DOS NÚMEROS
Os três temas, suposto “rombo”, investimentos e folha de pessoal, estarão no centro do debate eleitoral sobre as contas do Rio Grande do Norte.
Os números oficiais mostram que o Estado enfrenta dificuldades fiscais, especialmente no gasto com pessoal, que permanece acima do limite legal. Mas também mostram que, na comparação proporcional dos investimentos, a diferença entre Mossoró e o Governo do Estado é de aproximadamente meio ponto percentual da RCL.
Já a cifra de R$ 3,5 bilhões permanece como o principal ponto a ser esclarecido.
Se o valor representa um conjunto de obrigações, restos a pagar, déficit ou outro indicador fiscal, é preciso demonstrar a composição. Sem a memória de cálculo, o número fica no campo da afirmação política, e não de uma conclusão diretamente extraída dos dados apresentados no RREO.
Em uma eleição na qual a situação financeira do Estado será usada como argumento central, a pergunta é simples: qual é a conta que chega aos R$ 3,5 bilhões?
É essa conta que precisa ser apresentada.

