UMA PINTURA ONDE MEMÓRIA, IDENTIDADE E IMAGINAÇÃO SE ENCONTRAM
As informações desta coluna têm como base a pesquisa da professora Ilka Pimenta, Mestre em História pela UFRN, e os registros do próprio artista.
Nascido em Currais Novos (RN), em 3 de janeiro de 1977, Francisco de Assis Batista da Costa, conhecido como Assis Costa, é filho de Damião Pedro da Costa e Maria de Fátima Batista da Costa.
Ingressou no curso de Letras, mas interrompeu a graduação para dedicar-se integralmente às artes visuais. A formação começou ainda na infância, com Iran Dantas, sendo aprofundada sob orientação do artista João Antônio, cuja influência aproximou o jovem pintor das linguagens do modernismo europeu e da reflexão social proposta pela arte.
A CONSTRUÇÃO DE UMA TRAJETÓRIA
Entre 1991 e 1993 integrou o Grupo Pau a Pique de Histórias em Quadrinhos, ao lado de Jennerson Fernandes e João Antônio, participando das publicações Estórias de Vaqueiros, considerada a primeira revista em quadrinhos editada no Seridó, e Caos nas Tetas. A partir de 2002 passou a atuar também no Rio Grande do Sul, desenvolvendo esculturas, cenografias e projetos artísticos para eventos como NATAL LUZ, CHOCO FEST, MAGIA DA PÁSCOA E FENADOCE, ampliando sua atuação para além da pintura.
UMA PRODUÇÃO DE MÚLTIPLAS LINGUAGENS
Há mais de trinta anos Assis Costa dedica-se à pintura, escultura, fotografia, poesia e música. Trabalha com óleo, acrílica e desenvolveu uma técnica própria utilizando vinho como pigmento, denominada Vinarela, apresentada nas exposições Dom Quixote de La Manchas de Vinho (Natal, 2013) e A Vindima em Vinho Tinta (Bento Gonçalves, 2014). Entre suas principais mostras individuais destacam-se ainda Nacor da Terra, Fêmeas e Flora, Veia-Sacra, Seridós, Caixa de Lápis, Pedra D’Água – do Sertão ao Mar, Justapostos e Galados. Participou igualmente de importantes exposições coletivas na Pinacoteca do Estado, Capitania das Artes, Solar Bela Vista, Galeria Newton Navarro e NAC/UFRN, conquistando o Prêmio Chico Santeiro de Arte Popular 2014, na categoria Pintura.
A LINGUAGEM PICTÓRICA

Sua pintura estabelece diálogo com o expressionismo e o cubismo, sem abandonar a narrativa figurativa. Paisagens do Seridó, procissões, reisados, mamulengos, vaqueiros e cenas do cotidiano convivem com personagens universais, como São Francisco de Assis e Dom Quixote, revelando um artista que transforma referências locais em temas de alcance universal.
MINHA LEITURA SOBRE AS OBRAS
Na primeira tela, a composição organiza diferentes fragmentos do universo sertanejo em uma estrutura quase mosaical. Pedras, açudes, animais, casas e personagens unem-se numa narrativa visual em que cada plano representa uma lembrança. A geometrização dos volumes aproxima-se discretamente do cubismo, enquanto as cores luminosas conferem vitalidade às cenas, aproximando a obra da tradição modernista brasileira.
Já a segunda pintura retrata Currais Novos sob uma atmosfera noturna marcada por intensa poesia visual. A lua domina o horizonte, iluminando casario, igreja, coreto e a fogueira que reúne a comunidade. A composição, de forte caráter narrativo, aproxima-se da pintura ingênua brasileira, mas revela sólido domínio da perspectiva, da luz e da construção cromática.
UM PATRIMÔNIO DA ARTE POTIGUAR
A obra de Assis Costa reafirma o Seridó como território de criação artística. Sem romper com a tradição da pintura de cavalete, incorpora experiências contemporâneas e transforma memória, religiosidade e cultura popular em patrimônio visual. Sua produção demonstra que o regional pode alcançar dimensão universal quando nasce de uma identidade autêntica, construída pela sensibilidade, pelo conhecimento técnico e pelo permanente compromisso com a cultura de sua terra.

