ANTONIO ROSENO: O ARTISTA QUE PINTOU A DIGNIDADE DO INVISÍVEL
A ARTE NASCE ONDE NINGUÉM PROCURA
A história da arte costuma privilegiar os ateliês, as academias e os grandes centros. Antonio Roseno de Lima subverte essa lógica. Nasceu em Alexandria-RN, em 1926 e faleceu em Campinas-SP, em 1988.
Sua pintura nasceu no improviso, entre restos de madeira, chapas metálicas, papelões e latas recolhidas do lixo. Não havia iluminação adequada, cavalete ou tintas nobres. Havia, antes de tudo, uma necessidade visceral de criar.
Nascido em Alexandria, no Rio Grande do Norte, Roseno carregou consigo a experiência do sertão e da migração nordestina. Como milhões de brasileiros, partiu para São Paulo em busca de sobrevivência. O que ninguém poderia imaginar era que aquele retirante construiria um dos imaginários mais singulares da arte brasileira do século XX.
O COTIDIANO ELEVADO À POESIA VISUAL
Antonio Roseno nunca pintou heróis. Pintou aquilo que conhecia. Pessoas comuns, pássaros, flores, frutas, cachorros, casas e pequenos objetos transformam-se em protagonistas de uma narrativa profundamente humana.
Seu universo pictórico é marcado pela ocupação integral do espaço. Não existem vazios gratuitos. Cada centímetro da superfície recebe sinais, figuras, palavras ou ornamentos. A repetição dos elementos não revela limitação criativa; ao contrário, constitui um método de investigação visual, quase meditativo, no qual o artista recria incessantemente o próprio mundo.
Sua assinatura, A.R.L., aparece como afirmação de existência. Em um artista semianalfabeto, escrever o próprio nome era também reivindicar autoria.


ENTRE A ARTE BRUTA E A ARTE POPULAR CONTEMPORÂNEA
É comum aproximar Antonio Roseno da Arte Bruta, conceito formulado por Jean Dubuffet para designar artistas autodidatas afastados das convenções acadêmicas. A aproximação é pertinente, mas sua produção ultrapassa essa classificação.
Sua pintura apresenta desenho frontal, figuras bidimensionais, cromatismo intenso e forte organização ornamental. A estética decorativa jamais elimina o rigor compositivo. Ao contrário, estabelece um delicado equilíbrio entre memória, ritmo e invenção.
Roseno não reproduz o folclore nordestino nem dialoga diretamente com escolas modernistas. Sua linguagem nasce da própria experiência, tornando-o um artista absolutamente inconfundível.
O RECONHECIMENTO QUE VENCEU O ESQUECIMENTO
Foi somente em 1988, quando o professor e artista Geraldo Porto descobriu suas obras, que o circuito artístico passou a enxergar aquele criador silencioso da favela Três Marias, em Campinas.
Vieram então exposições fundamentais, como a individual da Casa Triângulo (1991), outra mostra na mesma galeria em 1993, a exposição na Calvin Morris Gallery, em Nova York (1995), além da participação em Pop Brasil, no CCBB, e nas importantes mostras do Collection de l’Art Brut, em Lausanne, na Suíça. Décadas após sua morte, a retrospectiva A.R.L. Vida e Obra, apresentada em Campinas, Natal e posteriormente no circuito do CCBB, consolidou definitivamente sua relevância para a arte brasileira.
UM LEGADO MAIOR QUE A BIOGRAFIA
Antonio Roseno nunca pintou para ilustrar a pobreza. Pintou para afirmar a vida. Sua obra não desperta compaixão, mas admiração. Ela demonstra que a criação artística independe do reconhecimento institucional e pode florescer mesmo nas condições mais adversas.
Seu legado pertence hoje não apenas ao Rio Grande do Norte, mas à história da arte contemporânea brasileira. Antonio Roseno transformou materiais descartados em patrimônio cultural e fez da simplicidade uma sofisticada linguagem estética. Talvez sua maior obra tenha sido exatamente esta, provar que a imaginação é capaz de vencer qualquer forma de invisibilidade.
Fontes:
Enciclopédia Itaú Cultural – Antonio Roseno de Lima.
Geraldo Porto (curadoria), A.R.L. Vida e Obra, MACC, CCBB e Instituto de Artes da UNICAMP.
O Globo, “Artista autodidata revelado em favela de Campinas, Antônio Roseno de Lima ganha mostra no CCBB do Rio”, 2024.

