ZÉ DE NEUZA E A HERANÇA DE CHICO SANTEIRO
A MADEIRA, A MEMÓRIA E O HOMEM SIMPLES
Há artistas que nascem do estudo acadêmico, das escolas de belas-artes e dos grandes centros culturais. Outros surgem do chão áspero da vida, da sobrevivência diária e do aprendizado silencioso transmitido entre gerações. Assim é José Nicácio Nunes, de nome artístico Zé de Neuza, escultor popular de Taipu, homem simples que transformou a madeira em expressão de fé, identidade e resistência cultural.
Numa reportagem publicada pelo pesquisador e memorialista Gustavo de Castro Praxedes, ele revela exatamente esse universo humano e artístico que muitas vezes permaneceu invisível no interior potiguar. O texto não apenas registra a trajetória de Zé de Neuza, mas preserva um fragmento importante da memória cultural de Taipu e região, trabalho que Gustavo Praxedes vem realizando ao longo dos anos ao pesquisar, catalogar e dar visibilidade aos artistas populares do Mato Grande Potiguar.
O GENRO DE CHICO SANTEIRO
Mais do que um escultor popular, Zé de Neuza carrega uma herança simbólica rara, é genro do mestre Chico Santeiro, figura lendária da arte em madeira na região. Foi justamente ao conviver com Chico Santeiro que Zé de Neuza aprendeu a talhar a madeira e a compreender a dimensão espiritual e estética da escultura popular nordestina.
Nascido em Estivas, no município de Extremoz, Zé de Neuza teve uma vida marcada pela dureza do trabalho. Viveu entre Estivas e Taipu, passando também pela praia de Areia Preta, onde trabalhou na pesca. Segundo o próprio relato reproduzido na matéria de Gustavo Praxedes, foi o sogro quem o incentivou a abandonar parcialmente a vida sofrida do mar para dedicar-se à escultura. O aprendizado, contudo, não foi fácil. Entre cortes profundos nas mãos e o esforço de dominar a madeira bruta, nasceu o escultor que mais tarde produziria dezenas de peças por mês.
A presença de Chico Santeiro em sua formação não foi mero detalhe biográfico. Ela representa a continuidade de uma tradição artística popular transmitida oralmente e manualmente, quase sempre distante dos registros oficiais da arte brasileira.
A ARTE SACRA E O COTIDIANO NORDESTINO


As obras de Zé de Neuza transitam entre o sagrado e o cotidiano. Suas esculturas retratam agricultores, pescadores, mulheres rendeiras, carros de boi, burros carregando água e figuras religiosas profundamente presentes na cultura nordestina. Padre Cícero, São Francisco, Santo Antônio, São Pedro e o Sagrado Coração de Jesus aparecem como símbolos de devoção popular e pertencimento cultural.
Sua produção traz a simplicidade do sertão e, ao mesmo tempo, uma profunda elaboração estética intuitiva. Cada peça parece nascer da própria madeira, como se o artista apenas libertasse as formas escondidas no tronco bruto.
GUSTAVO PRAXEDES E A PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA CULTURAL
Ao escrever sobre Zé de Neuza, Gustavo de Castro Praxedes realizou um trabalho que ultrapassa o jornalismo cultural. Sua pesquisa funciona como documentação histórica de artistas que, muitas vezes, permaneceriam esquecidos pelo tempo.
Em cidades pequenas, onde a memória popular frequentemente desaparece sem registros, pesquisadores como Gustavo Praxedes assumem um papel essencial, tornam-se guardiões da cultura regional. Seu trabalho de investigação sobre artistas de Taipu e do entorno ajuda a preservar identidades, trajetórias humanas e manifestações artísticas que constituem parte fundamental da história cultural do Rio Grande do Norte.
Zé de Neuza é um homem humilde, como descreve a reportagem original, mas sua arte permanece como testemunho vivo da força criadora do povo nordestino e em particular norte-rio-grandense.

