Mensagens de WhatsApp enviadas pelo ex-presidente do Banco de Brasília (BRB) Paulo Henrique Costa, preso na semana passada pela Polícia Federal, indicam que ele intercedeu de forma fraudulenta junto aos seus subordinados com o objetivo de favorecer os interesses do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, dentro do banco estatal. A conclusão faz parte de relatório de auditoria externa contratada pelo BRB enviado à Polícia Federal.
Os diálogos de Paulo Henrique Costa tratam de um processo de aumento de capital do BRB realizado em maio de 2024, que captou R$ 290 milhões de investidores privados por meio de aportes realizados por fundos de investimentos ligados a Vorcaro e à gestora Reag, também vinculada ao Master. Foram detectadas suspeitas de fraudes nesse procedimento, que virou alvo de um inquérito específico da Polícia Federal.
Procurada, a defesa de Costa negou irregularidades. “O Banco Central examinou toda a documentação e aprovou o aumento de capital”, afirmou o advogado Cléber Lopes. A defesa de Vorcaro não se manifestou.
A PF suspeita que os processos de aumento de capital feitos por Paulo Henrique, que totalizaram R$ 1 bilhão, serviram para dar lastro às aquisições bilionárias de carteiras de crédito fraudulentas do Master. Ao final desses processos, acionistas com vínculos com o Banco Master passaram a deter 23,5% de participação acionária no BRB.
Costa foi preso por ordem do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça sob suspeita de ter aceitado uma oferta de R$ 146 milhões de propina em imóveis de luxo em troca de favorecer o Master durante sua gestão no BRB. A Segunda Turma do STF deve julgar a partir desta quinta-feira, 22, em sessão virtual, a manutenção da prisão.
Mensagens mostram participação direta
De acordo com as investigações, Paulo Henrique Costa definiu por conta própria quais fundos de investimento iriam injetar recursos na participação acionária no BRB, todos com ligações com o Banco Master, sem transparência nem critérios objetivos.
Nas mensagens obtidas pelo Estadão, ele informa a um subordinado os nomes dos fundos e os valores que seriam aportados. “Vai dividir em três veículos. Por favor, faça uma nova de 250 mm (milhões)”, escreveu.



Pela regra estabelecida, esses fundos ligados ao Master não poderiam fazer diretamente aportes no BRB, porque esse processo de aumento de capital era aberto apenas aos acionistas do banco.
Entretanto, as investigações apontam que Paulo Henrique Costa montou um processo fraudulento para que os fundos aportassem recursos indiretamente por meio de acionistas, que apareceram apenas como intermediários para a passagem do dinheiro.
Esses diálogos foram obtidos pela auditoria externa contratada pela atual gestão do BRB e compartilhados com a Polícia Federal.
“As comunicações internas registram que os nomes dos fundos e os quantitativos de ações a subscrever foram informados diretamente pelo então presidente do BRB à equipe técnica. Essa centralização decisória, anômala para operações dessa envergadura, sugere coordenação prévia entre os veículos subscritores e reduz a transparência típica das alocações em aumentos privados”, diz trecho de relatório produzido pela auditoria externa contratada pelo BRB.
A auditoria detectou que Costa solicitou a seus subordinados a lista dos acionistas do BRB que poderiam investir no aumento de capital para usá-los como intermediários para a injeção de recursos dos fundos ligados ao Master.
De acordo com a investigação, essa configuração para um aporte fraudulento teria sido “articulada diretamente pela gestão pretérita do BRB, por meio de arquitetura de triangulação com pessoas físicas intermediárias, viabilizando a tomada de sobras por veículos que não eram acionistas na data de corte, isto é, em 17/05/2024”.
No fim do processo de aumento de capital, foram efetivamente constatados aportes dos fundos Borneo, Delta e Verbier, por um valor total de R$ 290 milhões — abaixo do previsto inicialmente. O primeiro fundo era administrado pela Reag e tinha como beneficiários os familiares do dono da Reag, João Carlos Mansur. O Delta era administrado pela Master Corretora, enquanto o Verbier pertencia a um ex-sócio do Master.
A auditoria ainda colheu indícios de que Paulo Henrique Costa ordenou a assessores jurídicos contratados pelo BRB que fizessem a minuta dos contratos entre os intermediários e os fundos de investimento responsáveis pelos aportes, mais um indício de seu envolvimento no processo fraudulento.
Atual gestão acusa ex-presidente de ‘operações açodadas sem diligências prévias’
A atual gestão do BRB afirmou, em um relatório produzido após a auditoria externa e apresentado à Justiça do Distrito Federal, que a gestão do ex-presidente Paulo Henrique Costa adquiriu carteiras de crédito do Banco Master sem realizar diligências para verificar a consistências desses ativos e de maneira “açodada”, em operações que geraram prejuízo ao banco público.
O valor total desse prejuízo ainda está sendo calculado, mas o BRB diz no documento que foram adquiridas carteiras de crédito do Master e do Will Bank (instituição que era ligada ao Master e também foi liquidada em janeiro deste ano) no valor total de R$ 26 bilhões entre julho de 2024 e outubro de 2025.
“A antiga gestão do BRB conduziu, a partir de julho de 2024 e com maior intensidade ao final do segundo semestre do mesmo ano, operações sucessivas e açodadas de aquisição de carteiras de crédito do Banco Master, sem as devidas diligências prévias, fiando-se em declarações contratuais do Master acerca da existência, validade e regularidade dos créditos. Tais carteiras, posteriormente, mostraram-se como ‘créditos podres’ e/ou inexistentes em sua maioria. A contratação foi feita de forma célere, não justificada e sem as devidas cautelas, em volumes elevados e com tempo exíguo entre a decisão e a efetiva conclusão das operações, contribuindo para a formação de concentração patrimonial relevante em lapso temporal reduzido”, diz o documento.
A atual gestão do banco diz ainda que o Master deixou de atuar como instituição financeira no exercício regular da sua atividade e se transformou em “instrumento de fraude estruturada, deliberadamente utilizado para lesar o BRB”.
Com base nessas informações colhidas, o BRB pediu à Justiça do Distrito Federal em uma ação cível que o banqueiro Daniel Vorcaro e os outros envolvidos nas supostas fraudes contra o banco público sejam condenados ao ressarcimento integral dos prejuízos, que ainda estão sendo calculados. Não houve até o momento uma decisão sobre o pedido.
*Com informações do Estadão

