ENTRE O RISCO E A MEMÓRIA UMA LEITURA SOBRE A TRAJETÓRIA DE ANDRÉ VICENTE
O NASCIMENTO COMO SIGNO, ORIGEM E PERTENCIMENTO
Recebo a minibio maravilhosa de André Vicente. De nome André Vicente e Silva, nasceu uma construção que ultrapassa o registro biográfico e alcança o campo simbólico. Natural de Caicó-RN, filho de Damião Vicente e Silva e Maria Moreira da Silva, carrega desde a origem uma geografia afetiva bem delineada. O pai vindo de Ceará-Mirim; a mãe, enraizada em Caicó. André Vicente Nasceu em 14 de fevereiro de 1972, às 07h, numa segunda-feira de carnaval, em casa, sob o cuidado de parteiras, Vó Olívia de Venâncio, Vó Severina de Fausto e Vó Maria Cambraia; revela mais que circunstância, afirma pertencimento. Ao chamá-las de avós, transforma o nascimento em memória viva.
A INFÂNCIA COMO VOCAÇÃO INEVITÁVEL
O episódio da vassoura transformada em instrumento de pintura não é simples anedota. É fundação. O pai, ao dizer “será pintor”, reconhece um destino antes mesmo de sua formulação consciente. No Sítio do Salgadinho, terra dos avós José Adelino da Silva e Antônia Moreira, a infância se organiza como território criativo. Influenciado pelo Sítio do Picapau Amarelo e pelos disquinhos de vinil, André encena histórias para outras crianças. Pedras e lajedos tornam-se palco. O gesto de narrar, representar e desenhar já se inscreve como linguagem.
O GESTO INAUGURAL, RISCAR COMO RITO
O uso das pembas marca um ponto decisivo. A presença da mãe, ligada à umbanda, introduz um universo simbólico que atravessa sua formação. Ao riscar a casa com a história da natividade narrada por sua avó, André Vicente não apenas desenha: ritualiza. Inscreve no espaço doméstico uma memória ancestral. Esse gesto, posteriormente convertido no curta Pemba, revela uma poética que articula arte, espiritualidade e narrativa. O traço deixa de ser apenas expressão e passa a ser também mediação entre mundos.
A CIDADE COMO EXPANSÃO DE REPERTÓRIO
A mudança para Caicó amplia horizontes sem romper raízes. O impacto do Cine Rio Branco, ao assistir Branca de Neve e os Sete Anões, e o contato com Daniel Azulay introduzem novos referenciais visuais. André observa, assimila e recria. Desenvolve um exercício intuitivo de desenho, buscando compreender o traço que o fascina. Paralelamente, transita por múltiplas linguagens: teatro, serigrafia, pintura em roupas, fachadas comerciais, fantasias e alegorias carnavalescas. Essa diversidade não dispersa, consolida uma formação plural e experimental.
ENTRE A ARTE E A HISTÓRIA SURGE UMA CONSCIÊNCIA CRÍTICA

Sua formação em História pela UFRN/CERES – Caicó, seguida do Mestrado em História dos Sertões, amplia sua compreensão de mundo. Desde 1993, atuando na Rede Municipal de Educação, articula cultura e ensino. Suas pesquisas abordam questões étnico-raciais e processos de invisibilização, como no estudo sobre o Caicó Esporte Clube, a “Sede dos Morenos”, evidenciando segregação entre as décadas de 30 e 60. Na especialização, com Comida de Santo, e no mestrado, com a Jurema Sagrada e a Umbanda de Maria do Salgadinho, reafirma o elo entre arte e ancestralidade.
PINTAR COMO ATO DE PRESENÇA

Ao final, André Vicente e Silva se afirma como artista que transita entre memória, território e crítica. Sua obra, embora associada ao sertão, ultrapassa a paisagem. Investiga presenças, tensões e espiritualidades. Em novembro de 2025, participa da exposição Catimbó Jurema de Maria do Salgadinho, na Casa de Cultura de Caicó. Pintar, aqui, é afirmar existência. É resistir ao apagamento. Ao recusar rótulos, constrói uma trajetória autoral sólida, onde arte e vida se entrelaçam como gesto contínuo de identidade e permanência.

