A Sony Honda Mobility (SHM) anunciou o cancelamento do desenvolvimento de todos os veículos elétricos da marca Afeela. A decisão encerra uma das apostas mais simbólicas da indústria automotiva recente, a tentativa de uma gigante do entretenimento de ressignificar o carro como plataforma de software.
O gatilho foi a própria Honda. Segundo o portal O Tempo, no início de março, a montadora registrou uma baixa contábil de até 2,5 trilhões de ienes (cerca de R$ 82 bilhões) relacionada ao corte de seus planos com elétricos, prejuízo que a fez fechar o balanço anual no vermelho pela primeira vez em quase 70 anos como empresa de capital aberto. Sem a Honda na equação, a SHM perdeu o que mais precisava: infraestrutura industrial e tecnológica.
Por que o projeto não tem mais como andar?
A parceria foi concebida para combinar a engenharia automotiva da Honda com o ecossistema de software e entretenimento da Sony. O problema é que a espinha dorsal do projeto era a plataforma e Architecture da Honda, descontinuada na reestruturação da montadora. Sem ela, a SHM não tem base mecânica nem ativos de software para produzir qualquer veículo.
Os modelos seriam fabricados na planta de Ohio, nos Estados Unidos. A Honda já sinalizou que redirecionará aquela fábrica para híbridos, categoria com margens mais sólidas no cenário atual, pressionado tanto pela política antiélétrico do governo Trump quanto pela demanda europeia abaixo do esperado.
Quem havia reservado o Afeela 1, na Califórnia, receberá reembolso integral. O sedã, cujos pedidos foram abertos em 2025 com preço inicial de US$ 89.900 (cerca de R$ 470 mil na conversão direta), estava previsto para começar as entregas ainda em 2026. Um segundo modelo, baseado em protótipo mais recente, tinha lançamento programado para o início de 2028.
No papel, o Afeela 1 era genuinamente ambicioso. O interior usaria a Unreal Engine 5 e computação em nuvem para entregar uma experiência descrita pela própria SHM como um “PlayStation sobre rodas”, com telas panorâmicas, som imersivo e um assistente pessoal desenvolvido em parceria com a Microsoft (Azure OpenAI). Na carroceria, uma “Media Bar” frontal permitiria comunicação visual do carro com o ambiente externo.
A segurança e a performance ficariam a cargo de 45 sensores, incluindo LiDAR, em parceria com a Qualcomm. Com tração integral e potência declarada de quase 500 cv, o Afeela 1 prometia ir de 0 a 100 km/h em 4,8 segundos. Tudo isso, claro, agora ficará no papel.


