A AFRONTA À INTELIGÊNCIA DO ELEITOR
A política brasileira, sempre fértil em enredos que oscilam entre o drama e o insólito, acaba de ganhar um novo capítulo com a consagração de Flávio Bolsonaro (PL) como o ungido para a disputa presidencial de 2026, sucedendo o próprio pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. É uma jogada de xadrez familiar que, de tão anacrônica, faz-nos questionar em que século realmente estamos.
O anúncio, mais do que uma estratégia eleitoral, soa como um eco fúnebre dos tempos coloniais. O Brasil, na visão bolsonarista, parece regredir ao modelo das Capitanias Hereditárias, onde o poder e o território (no caso, o controle da máquina eleitoral e do espólio político) não são distribuídos por mérito ou voto, mas sim, herdados por laços de sangue. O capitão-donatário, ao findar seu ciclo, simplesmente aponta o filho para dar continuidade à “obra” e manter a família no comando.
Essa decisão é, no mínimo, um sinal de profunda desconfiança na própria base e no sistema político que o clã jura defender. Seria Flávio o único capaz? Não há um nome sequer, fora da linhagem familiar, que mereça a confiança para capitanear a direita? A resposta parece ser um retumbante “não”. Ao ignorar a pluralidade de quadros e impor a sucessão familiar, Bolsonaro pai desrespeita os demais atores de seu campo, transformando-os em meros coadjuvantes de um roteiro escrito em casa.
No auge do século XXI, esperar que o cargo máximo da República seja tratado como um patrimônio privado é um insulto à inteligência do eleitorado. O eleitor não é um súdito que deve apenas chancelar a vontade de quem se acha monarca. Somos uma República — ao menos no papel — e, em tese, a escolha deveria ser um processo orgânico, que envolvesse debate e a ascensão natural de lideranças, e não a imposição de um herdeiro.
O lançamento de Flávio não é apenas uma notícia política; é um sintoma de uma mentalidade autorreferenciada que vê o poder como um fim em si mesmo, e não como um instrumento de representação popular. Resta saber se o eleitor brasileiro, aquele que detém o poder da caneta, está disposto a carimbar mais uma vez o selo das antigas capitanias em sua cédula eleitoral. O palco está montado, mas o roteiro ainda pode ser reescrito durante o período eleitoral ou, em última hipótese, nas urnas.
PRETEXTO
O prefeito mossoroense Allyson Bezerra está ocupando espaços na imprensa potiguar anunciando que vai dizer se será ou não candidato ao Governo do Estado nas próximas eleições.
ANÚNCIO
Lógico que Allyson vai oficializar a sua pré-candidatura a Governador, com o apoio de três grandes partidos: o partido de José Agripino, o União Brasil; o Progressista, do deputado federal João Maia; e o PSD, da senadora Zenaide Maia.
APOIOS
Allyson faz as contas de que tem os apoios de prefeitas e prefeitos da chamada Grande Natal e enumera a professora Nilda, de Parnamirim; Jaime Calado, de São Gonçalo do Amarante; e Emídio Júnior, de Macaíba. Só não falou em Paulinho Freire, de Natal.
CRENÇA
Em se tratando de preferência, segundo as pesquisas de todos os institutos, Allyson lidera a corrida junto ao eleitorado potiguar. Para alguns analistas políticos da “paróquia”, quando a campanha iniciar e as duas maiores forças estaduais, a direita e a esquerda “entrarem em campo”, a candidatura do prefeito mossoroense vai começar a minguar.
POLARIZAÇÃO
Quem apostar nessa possibilidade de polarização entre a esquerda e a direita estará menosprezando a força política do ex-senador José Agripino, do deputado federal João Maia e da senadora Zenaide Maia, que apoiam a candidatura de Allyson Bezerra.
MINEIRO
O deputado federal Fernando Mineiro (PT) chutou, literalmente, “o pau da barraca” ao dizer que o seu partido poderá se definir pelo nome de Cadu Xavier para se tornar governador eleito pela Assembleia Legislativa, na vacância do cargo com a renúncia de Fátima Bezerra e a abdicação de Walter Alves.
ASTUTO
Como político astuto, o deputado Mineiro quis dizer, em outras palavras, que Walter pode abdicar do direito de se tornar governador, pois o PT tem força na Assembleia Legislativa para eleger o “governador biônico”. Será?
CADU
Na estratégia do deputado Fernando Mineiro, no caso da renúncia de Fátima acontecer em abril para ser candidata ao Senado e existindo a possibilidade de Walter Alves não assumir o comando do governo, a Assembleia Legislativa elegerá um novo governador – nesse caso seria, na avaliação de Mineiro, Cadu Xavier, que iria administrar as difíceis finanças estaduais.

