O Uruguai quer dobrar o número de turistas brasileiros ao longo dos próximos quatro anos. Atualmente, o país recebe uma média anual de 450 mil viajantes do Brasil.
A oferta turística do pequeno país sul-americano, muito pautada em sol e praia, também deseja apontar para outras direções. Entram como complementos os turismos gastronômico, rural e natural, com um olhar especial para o interior e para o norte do território.
Esse tem sido o trabalho do ministro do Turismo Pablo Menoni, que assumiu a pasta em março de 2025. Na presença de outros jornalistas, o profissional concedeu uma entrevista ao CNN Viagem & Gastronomia na sede do ministério, em Montevidéu, na semana passada.
Segundo o ministro, o turismo do Uruguai tem como pautas atuais a busca por uma maior conectividade aérea, com projeto de incentivos financeiros às companhias, e planos para a criação de novas rotas turísticas. Também há conversas para que o Guia Michelin desembarque no país com seu sistema de avaliação de restaurantes.
Números de 2025
Em 2025, o Uruguai recebeu 3,6 milhões de viajantes. Montevidéu, Punta del Este e Colonia del Sacramento foram as cidades mais visitadas, respectivamente.
Do total, 489.677 residentes do Brasil ingressaram no país, o que gerou uma receita de US$ 336,4 milhões (cerca R$ 1,73 bilhão na cotação atual). O país só ficou atrás da Argentina, que enviou 2,4 milhões de pessoas ao território uruguaio, com gastos na ordem de US$ 1,17 bilhão (cerca de R$ 6 bilhões).
“Especificamente sobre o Brasil, estamos olhando mais para locais desde São Paulo até o Sul, ampliando a relação econômica com São Paulo”, disse o ministro. Com relação à nacionalidade, os brasileiros tiveram um gasto médio de US$ 731 (cerca de R$ 3,7 mil) por pessoa ao longo da estadia, que girou em torno de 5,5 dias.
Um dos assuntos-chave dentro do ministério é a melhoria da conectividade. Atualmente, há cerca de 50 voos semanais entre Brasil e Uruguai, saindo de cidades como São Paulo, Campinas, Rio de Janeiro e Recife. A partir de março, Belo Horizonte e Natal ganharão voos para Montevidéu.
Na contramão, Porto Alegre, por exemplo, não tem uma conexão aérea direta com o país vizinho desde as enchentes que assolaram o Rio Grande do Sul em 2024. “O aumento da conectividade aérea é uma questão tratada junto do setor privado. Temos que incentivá-lo”, explicou Menoni.
Em 2025, foi aprovado o orçamento quinquenal do Uruguai, que define os esforços e as despesas que o país terá pelos próximos cinco anos. A conectividade é um dos asssuntos abordados entre os tópicos.
“Nosso ministério teve um artigo dentro do orçamento que fala essencialmente de incentivar as companhias aéreas com uma devolução de dinheiro. Para cada passageiro estrangeiro adicional que a companhia trouxer em comparação com o ano anterior, ela receberá uma espécie de cashback. Tanto o Estado quanto a concessionária do aeroporto, em partes iguais, farão uma devolução dessa quantia”, contou o ministro.
A medida ainda não está em vigor, tendo que passar por uma regulamentação por meio de um decreto, o que pode acontecer ainda este ano, segundo Menoni.
Ampliação da oferta turística
Para despertar o interesse do brasileiro, o ministro tem apostado na promoção do Uruguai por meio da segmentação das ofertas turísticas. “Isso é, essencialmente, utilizar ferramentas de inteligência artificial pelos motores das redes sociais para divulgar o país de acordo com diferentes gostos. A segmentação que estamos fazendo agora é por interesse. Depois, incorporamos faixa etária e níveis econômicos.”
Nesse sentido, a gastronomia é um dos principais elementos de diferenciação do país.
“Um exemplo que queremos seguir é do Peru, que tem sua gastronomia muito bem posicionada. Outro espelho que temos é Portugal, dadas as suas dimensões parecidas com as do Uruguai. O país europeu se nutre também de territórios próximos. Nós, de igual forma, já que atraímos muito a Argentina e o Brasil”, exemplificou.
Quando perguntado sobre uma possível chegada do Guia Michelin ao país, Menoni não desmentiu: há conversas sobre o assunto. A ideia seria fazer uma parceria público-privada para ajudar a pagar a conta.
“O Guia Michelin é um estandarte internacional. Facilita a seleção de lugares para viajantes. É também uma garantia de qualidade. Mas o que temos que fazer é padronizar nossos serviços. Temos ofertas incríveis, mas outras que não acompanham. Então, primeiro devemos realizar um trabalho de padronização”, comentou.
O mercado de luxo também entra nas ofertas. Punta del Este e os balneários das redondezas, como La Barra e José Ignácio, já são trabalhados para esse público. No ano passado, o Aeroporto de Punta del Este bateu o próprio recorde de voos privados: foram 220 deles somente no dia 26 de dezembro, um aumento de mais de 30% em relação ao mesmo período anterior, refletindo uma temporada de verão agitada.
“O que queremos é ampliar a oferta. O turismo de luxo vai seguir e vamos continuar trabalhando com ele. Mas também entendemos que temos capacidade para todo tipo de produto. Se você quer exclusividade, você terá. Mas também temos outros nichos”, falou o ministro.
Potenciais rotas turísticas
Além da parrilla, dos vinhos Tannat, do doce de leite e dos populares chivitos, a gastronomia uruguaia também se manifesta por meio da Rota do Queijo de Colonia, que abrange 15 negócios do departamento de Colonia, entre produtores e vendedores de laticínios.
O plano, porém, é tentar constituir mais rotas culturais. Hoje, um dos destaques é a Rota dos Jesuítas, que, além do Uruguai, se espalha pelo Sul do Brasil, Argentina, Paraguai e Bolívia. “Também temos jogado a semente em duas outras rotas. Uma é a Rota Afro, que pega o Sul do Brasil e o leste de Uruguai. Outra rota seria relativa às nossas guerras civis. Elas têm possibilidade e potencial”, cravou Menoni.
No fim, o ministro compartilhou um desabafo sobre barreiras linguísticas. “Gostaria que o Uruguai falasse mais português. Falamos de como atrair mais turistas, de promoção e de conectividade. Mas temos que melhorar outras habilidades. Somos uns dos principais destinos de turismo receptivo per capita da América Latina. Mas temos que aprender mais inglês e português.”
Com informações da CNN

