Por Carol Ribeiro
Henrique Eduardo Alves, ex-deputado federal e ex-presidente da Câmara, relembrou com o Diário do RN o surgimento da sua trajetória política em plena ditadura militar, ancorado nas memórias de um período marcado por medos, angústias e a luta pela democracia.
Aluízio Alves, prefeito, deputado federal e por fim governador do Rio Grande do Norte (1961–1966), foi um líder reconhecido por sua forte atuação junto aos mais pobres. No entanto, em 7 de fevereiro de 1969, teve seu mandato cassado pelo Ato Institucional Número Cinco (AI-5), dispositivo mais duro da ditadura, em meio a um clima político repressivo que ameaçava todo o Estado Democrático de Direito.
Henrique relembra a cassação como um golpe doloroso, que transformou sua realidade pessoal de modo abrupto. Ele tinha apenas 21 anos, cursava Direito no Rio de Janeiro, quando viu “o papel almaço” a lhe ser repassado com os nomes das lideranças locais que apoiavam seu pai cassado: sua nova missão era levar adiante a esperança abalada pelo regime.
Entre 1969 e 1970, Henrique trocou as salas de aula no Rio por viagens pelo interior potiguar, pulando de cidade em cidade em uma Kombi equipada com quatro alto-falantes para promover sua candidatura a deputado federal em nome do MDB. Mesmo com o pai preso, ele transformou o medo em força.
“Não podia ver um militar fardado que logo me recordava o sofrimento da família inteira. Só quem viveu aquela insanidade que pode com realidade expressar a angústia, o sofrimento… Foi meu pai que foi me ensinando aos poucos que na minha vida desprezasse esses sentimentos ruins porque o ódio escraviza e o medo acovarda e assim foi pouco a pouco que fui superando, aprendendo e fazendo uma carreira bonita, sempre apoiado, prestigiado, homenageado e emocionado pelo povo do Rio Grande do Norte”, afirma.
Ao ver as portas daqueles aliados fechadas pelo medo da ditadura militar, ele ressalta de onde veio o conforto. “A primeira lição da minha vida foi essa: quando você quer um aperto de mão que lhe conforte, procure primeiro os mais pobres, os mais humildes”, relembra.
Henrique citou um episódio emblemático da oposição ao regime, quando, ainda um jovem iniciante na vida política, foi abraçado por Ullyses Guimarães na Câmara Federal.
Após o decreto do AI-5, Ulysses Guimarães reuniu lideranças do MDB, como Chico Pinto e Tancredo Neves, para elaborar uma resposta firme. Henrique, então ainda jovem, ouviu e aprendeu sobre coragem política nesse momento histórico: o documento elaborado venceu por ampla maioria — 9 a 3 — e simbolizou a voz da resistência democrática.
Henrique ressaltou ainda que seu pai, Aluízio, mesmo cassado, continuou influente. Seus direitos políticos foram suspensos, mas ele seguia congregando apoios e inspirando resistência. Esse legado foi decisivo: naquele pleito de 1970, Henrique e seu primo Garibaldi foram os candidatos mais votados proporcionalmente no Estado.
O relato segue carregado de emoção quando ele lembra do tom de voz exaltado de um jornalista da época, da homenagem simbólica ao deputado Rubens Paiva quando era presidente da Casa Legislativa e da reverência a Ulysses Guimarães:
“A ditadura me ensinou que ódio escraviza e medo acovarda. Meu pai me fez superar os dois. Por isso, defendo a democracia todos os dias da minha vida. Ditadura nunca mais!”, reafirma.

